sábado, 27 de dezembro de 2014

O argumento da lei moral - Dr. William Lane Craig


Há um contraste entre o teísmo e o naturalismo com relação à fornecer uma base adequada para a vida moral. É mostrado que em uma cosmovisão teísta há um fundamento adequado para a afirmação de valores morais objetivos, obrigações morais e responsabilidade moral. Em contraste, o naturalismo falha em todos os três sentidos. Na medida em que cremos que existem valores e responsabilidades morais, então temos bons fundamentos para crer que Deus existe. Além disso, um argumento prático para a crença em Deus é oferecido com base na responsabilidade moral.

Podemos ser bons sem Deus? Inicialmente a resposta a esta questão parece tão óbvia que até mesmo apresentá-la causa indignação. Enquanto que para aqueles entre nós que são cristãos teístas encontram sem dúvida em Deus uma fonte de força moral e determinação que nos capacita a viver vidas melhores do que as que viveríamos sem Ele, entretanto seria arrogante e ignorante afirmar que aqueles que não compartilham uma crença em Deus não vivem, em geral, vidas morais boas — de fato, embaraçosamente, vidas que, algumas vezes, deixam as nossas na vergonha. Mas espere. Seria realmente arrogante e ignorante afirmar que as pessoas não podem ser boas sem uma crença em Deus. Mas não foi essa a questão. A questão era: podemos ser bons sem Deus?

Quando fazemos esta questão, estamos colocando de uma forma provocativa a questão meta-ética da objetividade dos valores morais. Os valores que apreciamos e guiam nossas vidas são meras convenções sociais assim como guiar do lado direito versus do lado esquerdo da rua ou meras expressões de preferência pessoal assim como ter um gosto por certas comidas ou não? Ou eles são válidos independentemente das nossas apreensões deles, e se então, quais são os seus fundamentos? Além disso, se a moralidade é apenas uma convenção humana, então porque deveríamos agir moralmente, especialmente quando há conflitos com interesses próprios?

Ou somos, de alguma forma, responsáveis pelas nossas decisões morais e ações? Hoje eu quero argumentar que se Deus existe, então a objetividade de valores morais, obrigações morais e responsabilidade moral são assegurados, mas na ausência de Deus, isto é, se Deus não existe, então a moralidade é totalmente subjetiva e não obrigatória. Podemos agir precisamente das mesmas maneiras que de fato agimos, mas na ausência de Deus, essas ações não seriam consideradas boas (ou más), visto que, se Deus não existe, valores morais objetivos não existem. Logo, não podemos ser realmente bons sem Deus. Por outro lado, se cremos que obrigações e valores morais são objetivos, isso provê fundamentos para a crença em Deus.

Considere então a hipótese de que Deus existe. Em primeiro lugar, se Deus existe, valores morais objetivos existem. Dizer que existem valores morais objetivos é afirmar que algo é bom ou mau independentemente de alguém acreditar que isso seja verdadeiro. É afirmar, por exemplo, que anti-semitismo nazista é moralmente errado, mesmo que os nazistas que realizaram o Holocausto pensassem que isso fosse bom; e continuaria a ser errado mesmo que os nazistas tivessem ganho a Segunda Guerra Mundial e exterminado ou tivessem feito lavagem cerebral em todos que discordassem deles.

Na concepção teísta, valores morais objetivos são enraizados em Deus. A natureza perfeitamente santa e boa de Deus provê o padrão absoluto em que todas as ações e decisões são avaliadas. A natureza moral de Deus é o que Platão chamou de “Bom”. Ele é a fonte e origem de todo valor moral. Ele é por natureza amoroso, generoso, justo, fiel, benévolo e assim por diante. Além disso, a natureza moral de Deus é expressa em relação a nós na forma de ordens divinas que constituem nossas responsabilidades e obrigações morais. Longe de serem arbitrárias, essas ordens fluem necessariamente de Sua natureza moral. Na tradição judaica-cristã, toda responsabilidade moral do homem pode ser resumida nos dois grandes mandamentos: em primeiro lugar, você deve amar o Senhor, seu Deus, com toda sua força, toda sua alma e todo seu entendimento e em segundo lugar, você deve amar seu próximo como a você mesmo.

Com esse fundamento, podemos afirmar a bondade objetiva e justa do amor, generosidade, sacrifício próprio e igualdade, e condenar como objetivamente mau e errado o egoísmo, ódio, abuso, discriminação e opressão. Finalmente, na hipótese teísta, Deus declara que todas as pessoas são responsáveis moralmente pelas suas ações. O mau e a injustiça serão punidos; a retidão será justificada. No final o bem triunfará sobre o mal, e finalmente poderemos ver que vivemos num universo moral depois de tudo. Apesar das injustiças nesta vida, no final a balança da justiça de Deus será equilibrada. Deste modo, as escolhas morais que fazemos nesta vida são infundidas com significância eterna.

Podemos fazer, com consistência, escolhas morais que vão contra os nossos próprios interesses e, até mesmo, tomar para nós atos de extremo sacrifício próprio, sabendo que essas decisões não serão vazias e nem gestos sem sentido no final das contas. Ao invés disso, nossas vidas morais possuem uma significância suprema. Portanto creio que é evidente que o teísmo provê uma base sólida para a moralidade. Compare isto com a hipótese ateísta. Em primeiro lugar, se o ateísmo é verdadeiro, valores morais objetivos não existem. Se Deus não existe, então qual é a base para os valores morais? Em particular, qual é a base para o valor do ser humano? Se Deus não existe, então é difícil encontrar alguma razão para pensar que os seres humanos são especiais ou que sua moralidade é objetivamente verdadeira.

Além disso, porque pensar que temos qualquer obrigação moral com qualquer coisa? Quem ou o quê impõe responsabilidades morais sobre nós? Michael Ruse, um filósofo da ciência na Universidade de Guelph escreve: A posição do evolucionista moderno… é que os seres humanos possuem uma consciência de moralidade… porque essa consciência possui valor biológico. Moralidade é uma adaptação biológica não menos que as são as mãos, pés e dentes… A ética é ilusória, se considerada como um conjunto de afirmações sobre algo objetivo racionalmente justificável. Eu aprecio que quando alguém diz ‘Ame o próximo como a si mesmo’ pensa estar fazendo referência a algo acima e além dele mesmo… Entretanto,… tal referência é realmente sem fundamento. A moral é apenas uma ajuda para a sobrevivência e reprodução,… e qualquer significado mais profundo é ilusório…

Como resultado de pressões socio-biológicas, surgiu entre o homo sapiens uma espécie de “moral herdada” que funciona bem na perpetuação de nossa espécie na luta pela sobrevivência. Mas não parece haver nada sobre o homo sapiens que faça essa moralidade objetivamente verdadeira. Além disso, na visão ateísta não há legislador divino. Mas então qual é a origem da obrigação moral? Richard Taylor, um eminente filósofo da ética, escreve: A era moderna, mais ou menos repudiando a idéia de um legislador divino, tem, entretanto, tentado manter as idéias de certo e errado moral, não percebendo que, deixando Deus de lado, eles também aboliram as condições de significância para o certo e o errado moral.

Assim sendo, até mesmo pessoas instruídas muitas vezes declaram que coisas como a guerra, ou o aborto, ou a violação de certos direitos humanos são ‘moralmente erradas’ e imaginam que estão dizendo algo verdadeiro e significativo. Entretanto, não é preciso contar às pessoas instruídas que questões como essas nunca foram respondidas fora da religião. Ele conclui: Escritores contemporâneos em ética, que discutem alegremente sobre o certo e errado moral e obrigações morais sem qualquer referência à religião estão apenas tecendo teias intelectuais do nada, o que eqüivale a dizer que eles estão fazendo uma discussão sem sentido. Agora é importante que tenhamos um entendimento claro do assunto diante de nós. A questão não é: Devemos crer em Deus para viver vidas morais? Não há razão para pensar que os ateus, assim como os teístas, não poderiam viver vidas que normalmente caracterizamos como boas e decentes.

Similarmente, a questão não é: Podemos formular um sistema de ética sem referência a Deus? Se o não teísta demonstra que os seres humanos possuem valor objetivo, então não há razão para pensar que ele não conseguiria criar um sistema de ética que o teísta não poderia, em grande parte, concordar. Ou, novamente, a questão não é: Podemos reconhecer a existência de valores morais sem referência a Deus? O teísta irá tipicamente afirmar que uma pessoa não precisa crer em Deus para reconhecer que, por exemplo, que devemos amar nossos filhos. Ao invés disso, como o filósofo humanista Paul Kurtz coloca, “a questão central sobre princípios morais e éticos relaciona-se com esta base ontológica. Se eles não são derivados de Deus e nem ancorados em um fundamento transcendente, eles são puramente passageiros?”

Se não há Deus, então qualquer fundamento com respeito à moralidade herdada evoluída do homo sapiens ser realmente objetiva deve ser removida. Além disso, o que há de tão especial no ser humano? Eles são apenas produtos acidentais da natureza que evoluíram recentemente em um ponto de poeira infinitesimal perdido em algum lugar de um universo hostil e sem sentido e que estão condenados a perecerem individualmente e coletivamente em um período relativamente curto. Algumas ações, como por exemplo, o estupro, podem não ser vantajosas socialmente ou biologicamente e portanto no curso da evolução humana tornaram-se tabus; mas não há nada, na visão ateísta, realmente errado em se cometer estupro.

Se, como Kurtz declara, “os princípios morais estão arraigados nos usos e costumes, sentimentos e hábitos”, então o não conformista que escolhe desprezar a moralidade herdada não está fazendo nada mais sério do que agir fora da moda. A falta de valor objetiva de seres humanos numa cosmovisão naturalista é ressaltada por duas implicações dessa cosmovisão: materialismo e determinismo. Naturalistas são tipicamente materialistas, que consideram o homem puramente como organismos animais. Mas se o homem não possui aspecto imaterial em seu ser (seja a alma, ou a mente ou o que você preferir), então ele não é qualitativamente diferente de outras espécies animais.

Para eles, considerar a moralidade humana como objetiva é cair na armadilha do especialismo. Em uma antropologia materialista, não há razão para pensar que os seres humanos são objetivamente mais valiosos do que ratos. Em segundo lugar, se não há mente independentemente do cérebro, então tudo o que pensamos e fazemos é determinado pelas informações recebidas pelos nossos cinco sentidos e pela nossa constituição genética. Não existe um agente pessoal que livremente decide fazer alguma coisa. Mas sem liberdade, nenhuma de nossas escolhas são moralmente significativas. Elas são como as sacudidelas dos membros de um fantoche, controladas pelas cordas das informações sensoriais e constituição física. E que valor moral possui um fantoche ou os seus movimentos?

Portanto, se o naturalismo é verdadeiro, torna-se impossível condenar a guerra, opressão e o crime como maus. E ninguém pode glorificar a fraternidade, igualdade ou amor como bons. Não importa que valores você escolha–já que não existem o certo e o errado, o bom e o mau não existem. Isso significa que uma atrocidade como o Holocausto foi realmente indiferente no sentido moral. Você pode achar que isso foi errado, mas sua opinião não tem mais validade do que as dos criminosos de guerra nazistas que pensavam que aquilo era bom. Em seu livro Moralidade após Auschwitz, Peter Haas questiona como uma sociedade inteira podia ter participado de bom grado em um programa patrocinado pelo estado de tortura em massa e genocídio por mais de uma década sem qualquer oposição séria.

Ele argumenta que longe de desprezarem a ética, os criminosos agiram em estrita conformidade com uma ética que sustentava que, por mais que a tarefa fosse difícil e desagradável, a exterminação em massa dos judeus e ciganos era inteiramente justificável… o Holocausto como um esforço aceito só foi possível porque uma nova ética estava presente que não definia a prisão e deportação de judeus como erradas e, de fato, as definiam como eticamente toleráveis e até mesmo boas. Além disso, Haas aponta que, por causa de sua coerência e consistência interna, a ética nazista não podia ser desacreditada internamente. Apenas de um ponto de vista transcendente acima dos hábitos socioculturais relativistas uma tal crítica poderia ser feita.

Mas na ausência de Deus, é precisamente de tal ponto que carecemos. Um Rabi que foi preso em Auschwitz disse que era como se os Dez Mandamentos houvessem sido revertidos: Matarás, mentirás, roubarás. A humanidade nunca tinha visto tal inferno. E ainda, em um senso real, se o naturalismo é verdadeiro, nosso mundo é Auschwitz. Não há bondade e nem maldade, não há certo e nem errado. Valores morais objetivos não existem. E mais, se o ateísmo é verdadeiro, não há responsabilidade moral pelas ações de qualquer pessoa. Mesmo se existissem valores e deveres morais objetivas no naturalismo, eles seriam irrelevantes porque a responsabilidade moral não existe. Se a vida termina no túmulo, não faz diferença se alguém decide viver como Hitler ou como um santo.

Como o escritor russo Fyodor Dostoyevsky disse corretamente: “se não há imortalidade, então todas as coisas são permitidas”. Os torturadores do estado nas prisões soviéticas compreenderam isso muito bem. Richard Wurmbrand relata: “é difícil de acreditar na crueldade do ateísmo quando o homem não tem fé na recompensa do bem ou na punição do mal. Não há razão para ser humano. Não há limites para a profundidade do mal que há no homem. Os torturadores comunistas freqüentemente diziam, ‘não existe Deus, nem mundo vindouro, nem punição para o mal. Podemos fazer o que quisermos.’ Eu ouvi um torturador até mesmo dizer: ‘eu agradeço a Deus, em quem não acredito, por viver este momento em que posso expressar todo o mal do meu coração.’ Ele expressou isso com uma brutalidade e torturas inacreditáveis infligidas nos prisioneiros”.

Dado o fim com a morte, realmente não importa como você vive. Então o que você diria a alguém que conclui que devemos viver como nos agradamos, servindo diretamente aos nossos puros interesses próprios? Isso traz uma imagem realmente amarga para um filósofo da ética ateu como Kai Nielsen da Universidade de Calgary. Ele escreve: Não tivemos a capacidade de demonstrar que a razão requer o ponto de vista moral, ou que todas as pessoas racionais não devem ser indivíduos egoístas ou clássicos amorais. A razão não decide isso. A imagem que eu tenho pincelado para você não é uma agradável. Refletir sobre isso me deprime… A razão prática e pura, mesmo com um bom conhecimento dos fatos, não irá trazê-lo à moralidade.

Alguém pode dizer que está nos nossos melhores interesses próprios adotar um estilo de vida moral. Mas claramente, isso não é sempre verdadeiro: todos nós conhecemos situações em que o interesse próprio vai contra a face da moralidade. Além disso, se alguém é suficientemente poderoso como um Ferdinando Marcos, Bill Gates ou mesmo um Donald Trump, então ele pode muito bem ignorar as ordens da consciência e viver seguramente em auto indulgência. O historiador Stewart C. Easton resume isto bem quando escreve, “não há razão objetiva porque um homem deveria ser moral, a não ser o ‘pagamento’ em sua vida social ou fazê-lo ’sentir-se bem’. Não há razão objetiva para que um homem deva fazer alguma coisa salvo pelo prazer que isso lhe dá”.

Atos de sacrifício próprio tornam-se particularmente sem sentido em uma cosmovisão naturalista. Porque você deveria sacrificar seus interesses próprios e especialmente sua vida pela de outra pessoa? Não existe uma boa razão para adotar tal curso de ação auto-sacrificial numa cosmovisão naturalista. Considerada do ponto de vista socio-biológico, tal comportamento altruísta é meramente o resultado de condicionamento evolucionário que ajuda a perpetuar as espécies. Uma mãe correndo em uma casa em chamas para salvar suas crianças ou um soldado jogando seu corpo sobre uma granada para salvar seus companheiros não estão fazendo nada profundamente significativo ou louvável, moralmente falando do que uma formiga guerreira que sacrifica a si mesma por causa do formigueiro.

A lógica comum diz que devemos resistir, se pudermos, a tais pressões socio-biológicas para tais atividades auto-destrutivas e escolher, em vez disso, agir em nossos melhores interesses próprios. O filósofo da religião John Hick convida-nos para imaginar uma formiga subitamente introspectiva com as idéias da socio-biologia e a liberdade para fazer decisões pessoais. Ele escreve:

Suponha que ela é chamada a sacrificar-se a si mesma em prol do formigueiro. Ela sente a poderosa pressão do instinto empurrando-a em direção à autodestruição. Mas ela pergunta a si mesma porque deveria voluntariamente… cumprir o programa suicida cujo instinto a estimula? Porque ela deveria levar em conta a existência futura de milhões e milhões de formigas mais importante do que sua própria existência continuada?… Desde que tudo o que ela é ou tem ou pode jamais ter é sua própria existência, certamente até o ponto em que ela é livre da dominação das forças cegas do instinto, ela irá escolher a vida– sua própria vida.

Agora, porque deveríamos escolher algo diferente? A vida é muito curta para arriscar-se agindo em prol de qualquer coisa que não seja o interesse próprio. Sacrificar-se por outra pessoa é simplesmente estúpido. Logo a ausência de responsabilidade moral na filosofia naturalista faz da ética da compaixão e sacrifício próprio uma abstração vazia. R. Z. Friedman, um filósofo da Universidade de Toronto conclui, “sem a religião a coerência de uma ética de compaixão não pode ser edificada. O princípio da consideração pelas pessoas e o princípio da sobrevivência do mais apto são mutuamente exclusivas”.

Sendo assim, chegamos a duas perspectivas radicalmente diferentes sobre a moralidade dependendo de que se Deus existe ou não. Se Deus existe, então há um fundamento sólido para a moralidade. Se Deus não existe, então como Nietzche observou, estamos, no final das contas, enterrados no niilismo. Mas a escolha entre as duas opções não precisa ser feita arbitrariamente. Pelo contrário, as considerações que estivemos discutindo podem constituir uma justificação moral para a existência de Deus.

Por exemplo, se cremos que valores morais objetivos existem, então somos guiados logicamente à conclusão de que Deus existe. E pode haver algo mais óbvio do que a existência de valores morais objetivos? Não há mais razões para negar a realidade objetiva dos valores morais do que para negar a realidade objetiva do mundo físico.

A conclusão de Ruse no pior é apenas exemplo de um livro texto sobre a falácia genética e no melhor somente prova que nossas percepções subjetivas dos valores morais objetivos têm evoluído. Mas se os valores morais são gradualmente descobertos, não inventados, então tal apreensão gradual e falível do domínio moral não mina mais a realidade objetiva desse domínio do que a nossa gradual e falível percepção do mundo físico mina a objetividade deste domínio. O fato é que realmente apreendemos valores objetivos, e todos nós sabemos disso. Ações como estupro, tortura, abuso de crianças e brutalidade não são apenas comportamentos socialmente inaceitáveis–elas são abominações. Como Ruse mesmo declara, “o homem que diz que é moralmente aceitável estuprar criancinhas está tão errado quanto o homem que diz que 2+2=5.

Da mesma maneira, amor, generosidade, igualdade e sacrifício próprio são realmente bons. Pessoas que não conseguem enxergar isso são apenas moralmente aleijadas, e não há razão para permitir que suas visões defeituosas coloquem em dúvida o que vemos claramente. Assim sendo, a existência de valores morais objetivos serve para demonstrar a existência de Deus. Ou considere a natureza da obrigação moral. O que torna certas ações certas ou erradas para nós? O quê ou quem impõe responsabilidades morais sobre nós? Porque devemos fazer certas coisas e não devemos fazer outras coisas? De onde esse “dever” aparece? Tradicionalmente, nossas obrigações morais eram imaginadas serem ordenadas a nós através dos mandamentos morais de Deus.

Mas se negamos a existência de Deus, então torna-se difícil que a responsabilidade moral ou o certo e errado façam sentido, como Richard Taylor explica: Um dever é algo obrigado…mas algo somente pode ser obrigado por alguma pessoa ou pessoas. Não existe algo como dever em isolação… A idéia de obrigação política ou legal é clara o bastante… Similarmente, a idéia de uma obrigação acima disso, e referido como obrigação moral é clara o bastante, desde que haja referência a algum legislador acima… dos do estado é entendido. Em outras palavras, nossas obrigações morais podem… ser entendidas como aquelas que são impostas por Deus. Isso dá um senso claro da afirmação de que nossas responsabilidades morais são mais obrigatórias a nós do que nossas responsabilidades políticas…. Mas e se esse legislador mais-do-que-humano não é mais levado em conta? Será que a concepção de uma obrigação moral… ainda faz sentido?… o conceito de obrigação moral [é] ininteligível aparte a idéia de Deus. As palavras ficam, mas o significado se vai.

Segue-se que obrigações morais e o certo e o errado necessitam da existência de Deus. E certamente temos tais obrigações. Ao discursar recentemente num campus da Universidade Canadense, observei um pôster colocado pelo Centro de Informações sobre Ataques Sexuais. Está escrito: “Abuso Sexual: Ninguém Tem o Direito de Abusar de uma Criança, Mulher ou Homem”. Muitos de nós reconhecem que esta afirmação é evidentemente verdadeira. Mas o ateu não consegue fazer ter sentido o direito de uma pessoa não ser abusada sexualmente por outra. A melhor resposta para a questão da origem da obrigação moral é que o certo e o errado moral consistem na concordância ou discordância com a vontade ou os mandamentos de um Deus santo e amoroso.

Finalmente, considere o problema da responsabilidade moral. Aqui nós encontramos um poderoso argumento prático para a crença em Deus. De acordo com Willian James, argumentos práticos podem ser usados somente quando argumentos teóricos são insuficientes para decidir uma questão de urgência e importância pragmática. Mas parece óbvio que um argumento prático também pode ser usado para apoiar ou motivar a aceitação de uma conclusão de um sólido argumento teórico. Portanto, crer que Deus não existe e que, dessa forma, não há responsabilidade moral seria literalmente des-moralizante por completo, pelo que teríamos que acreditar que nossas escolhas morais são no final das contas insignificantes, desde que nossa destruição e a do universo será a mesma independentemente do que fizermos.

Por “desmoralizante” eu quero dizer uma deterioração da motivação moral. É difícil fazer a coisa certa quando isso significa sacrificar o próprio interesse e resistir à tentação para fazer o errado quando o desejo é grande. E a crença de que no final não importa o que você escolha ou faça é capaz de minar a força moral de alguém e portanto solapar uma vida moral. Como Robert Adams observa, “ter que considerar como muito provável que a história do universo não será boa em seu conjunto, não importa o que alguém faça, parece capaz de induzir um senso cínico de futilidade sobre a vida moral, solapando a determinação moral de uma pessoa e seu interesse em considerações morais”.

Em contraste não há nada parecido que fortaleça a vida moral como a crença de que as pessoas são responsáveis por suas ações e que suas escolhas fazem a diferença em trazer o bem. Portanto o teísmo é uma crença moralmente vantajosa, e isso, na ausência de qualquer argumento teórico validando o ateísmo como verdadeiro, provê um fundamento prático para se acreditar em Deus e motivação para aceitar as conclusões dos dois argumentos teóricos que dei acima.

Em suma, bases meta-éticas teológicas parecem ser necessárias para moralidade. Se Deus não existe, então é plausível crer que não há valores morais objetivos, que não temos obrigações morais, e não existe responsabilidade moral pela maneira que vivemos e agimos. O horror de tal mundo moralmente neutro é óbvio. Se, por outro lado, cremos, como isso parece ser racional, que responsabilidades e valores morais objetivos existem, então temos bons fundamentos para crer na existência de Deus. Em adição, temos razões poderosas para adotar o teísmo em vista dos efeitos moralmente fortificantes que a crença na responsabilidade moral produz. Logo, não podemos ser realmente bons sem Deus; mas se podemos ser bons de alguma forma, então segue-se que Deus existe.

Por: William Lane Craig. 

(Extraído do livro: “Em Guarda”)


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