sábado, 27 de dezembro de 2014

O argumento das constantes antrópicas - Antony Flew


Penso que o material do DNA mostra, pela quase inacreditável complexidade das combinações necessárias para produzir a vida, que uma inteligência deve estar envolvida no processo de fazer com que esses extraordinariamente diversos elementos funcionem em conjunto. E extrema a complexidade do número de elementos, e enorme a sutileza com que eles funcionam juntos.

A chance de essas duas partes encontrarem-se no momento certo, por puro acaso, é simplesmente insignificante. É tudo uma questão da enorme complexidade pela qual os resultados foram alcançados, o que me parece obra de uma inteligência. Essa declaração representou uma importante mudança de curso para mim, mas, apesar disso, era congruente com o princípio que abraço desde o início de minha vida filosófica: seguir o argumento, não importa aonde ele me levar.

Fiquei especialmente impressionado com a refutação minuciosa de Gerry Schroeder ao que chamo de "teorema do macaco". Essa idéia, apresentada de formas variadas, defende a possibilidade de a vida ter surgido por acaso, usando a analogia de uma multidão de macacos batendo nas teclas de um computador e, em dado momento, acabarem por escrever um soneto digno de Shakespeare. Em primeiro lugar, Schroeder referiu-se a um experimento conduzido pelo Conselho de Artes Nacional Britânico.

Um computador foi colocado numa jaula que abrigava seis macacos. Depois de um mês martelando o teclado — e também usando-o como banheiro! —, os macacos produziram cinqüenta páginas digitadas, nas quais não havia uma única palavra formada. Schroeder comentou que foi isso o que aconteceu, embora em inglês haja duas palavras de uma só letra, o "a" (um, uma) e o "I" (eu). O caso é que essas letras só são palavras quando isoladas de um lado e de outro por espaços.

Se levarmos em conta um teclado de trinta caracteres usados na língua inglesa — vinte e seis letras e outros símbolos —, a probabilidade de se conseguir uma palavra de uma letra, martelando as teclas a esmo, é de 30 vezes 30 vezes 30, ou seja, vinte e sete mil. Então, há uma chance em vinte e sete mil de se conseguir uma palavra de uma letra. Schroeder, então, aplicou as probabilidades à analogia do soneto. Começou perguntando qual seria a chance de se conseguir escrever um soneto digno de Shakespeare antes de continuar: Todos os sonetos são do mesmo comprimento.

São, por definição, compostos de catorze versos. Escolhi aquele do qual decorei o primeiro verso, que diz: "Devo comparar-te a um dia de verão?". Contei o número de letras. Há 488 letras nesse soneto. Qual é a probabilidade de, digitando a esmo, conseguirmos todas essas letras na exata seqüência em todos os versos? Conseguiremos o número 26 multiplicado por ele mesmo, 488 vezes, ou seja, 26 elevado à 488ª potência. Ou, em outras palavras, com base no 10, 10 elevado à 690ª potência. Agora, o número de partículas no universo — não grãos de areia, estou falando de prótons, elétrons e nêutrons — é de 10 à 80ª.

Dez elevado à octagésima potência é 1 com 80 zeros à direita. Dez elevado à 690ª é 1 com 690 zeros à direita. Não há partículas suficientes no universo com que anotarmos as tentativas. Seríamos derrotados por um fator de 10 à 600ª. Se tomássemos o universo inteiro e o convertêssemos em chips de computador — esqueçam os macacos —, cada chip pesando um milionésimo de grama e sendo capaz de processar 488 tentativas a, digamos, um milhão de vezes por segundo, produzindo letras ao acaso, o número de tentativas que conseguiríamos seria de 10 à 90ª. Mais uma vez, seríamos derrotados por um fator de 10 à 600ª. Nunca criaríamos um soneto por acaso. O universo teria de ser maior, na proporção de 10 elevado à 600ª potência.

No entanto, o mundo acredita que um bando de macacos pode fazer isso todas as vezes. Após ouvir a apresentação de Schroeder, eu lhe disse que ele estabelecera, de maneira perfeitamente satisfatória e decisiva, que o "teorema do macaco" era uma bobagem, e que fora muito bom demonstrar isso apenas com um soneto. O teorema é, às vezes, proposto através do uso de obras de Shakespeare, ou de uma única peça, como Hamlet. Se o teorema não funciona com um simples soneto, é simplesmente absurdo sugerir que a origem da vida, um feito muito mais elaborado, possa ter acontecido por acaso.

A recente popularidade desse argumento mostrou uma nova dimensão das leis da natureza. "Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura", escreve o físico Freeman Dyson, "mais provas encontro de que o universo sabia que íamos chegar". Em outras palavras, as leis da natureza parecem ter sido criadas com a finalidade de preparar o universo para o surgimento e a manutenção da vida. Esse é o princípio antrópico, popularizado por pensadores como Martin Rees, John Barrow e John Leslie.

Tomemos as mais básicas leis da física. Calcula-se que, se o valor de uma das constantes fundamentais — por exemplo, a velocidade da luz ou a massa do elétron — fosse diferente, num grau mínimo, nenhum planeta favorável à evolução da vida humana poderia se formar. A sintonia perfeita tem sido explicada de duas maneiras. Alguns cientistas dizem que ela é evidência do desígnio divino, enquanto muitos outros sugerem que nosso universo é apenas um de múltiplos outros — um "multiverso" —, com a diferença de que o nosso tem as condições certas para a vida. Praticamente, nenhum grande cientista de hoje alega que a sintonia perfeita foi resultado de fatores casuais funcionando em um único universo.

Em seu livro Infinite Minds, John Leslie, um dos principais teóricos antrópicos, argumenta que a melhor explicação para a sintonia perfeita é o desígnio divino. Ele diz que não se impressiona com argumentos que exemplificam a sintonia perfeita, mas com o fato de esses argumentos existirem em tal profusão. "Se há aspectos do funcionamento da natureza que parecem muito auspiciosos e também inteiramente fundamentais", Leslie escreve, "então eles poderiam ser vistos como prova a favor da crença em Deus". Ele cita exemplos dos tais "auspiciosos" e "fundamentais" aspectos do funcionamento da natureza:

1. O princípio da relatividade especial — ou restrita — assegura que forças como o eletromagnetismo tenham efeito invariável, não importando se agem em ângulos retos na direção de um sistema, ou se viajam. Isso permite que códigos genéticos funcionem e que planetas se mantenham unidos enquanto giram.

2. Leis quânticas impedem que os elétrons girem para dentro do núcleo atômico.

3. O eletromagnetismo tem uma única força que permite que aconteçam múltiplos processos essenciais: permite que estrelas brilhem de modo constante por bilhões de anos; que o carbono se sintetize em estrelas; assegura que léptons não substituam quarks, o que tornaria os átomos impossíveis; é responsável por não deixar que os prótons se desintegrem depressa demais ou que se repilam mutuamente com força exagerada, o que tornaria a química impossível. Como é possível que essa mesma força única satisfaça tantos requisitos diferentes, quando parece que seria necessária uma força diferente para cada um desses processos?

Por: Antony Flew.

(Extraído do livro: “Um Ateu Garante: Deus Existe”)


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