quinta-feira, 2 de abril de 2015

O destino dos povos não-alcançados

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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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No capítulo 11 deste livro comentei brevemente sobre erros teológicos que acabam maculando a imagem de Deus e do Cristianismo aos olhos dos descrentes. Naturalmente, como este não é um livro apologético contra heresias, eu comentei apenas brevemente sobre alguns dos que eu considero os principais erros, mas penso ser relevante, em um livro como esse, uma explanação maior sobre o destino dos povos não-alcançados (ou seja, daquelas pessoas que morreram sem terem ouvido falar de Jesus por toda a vida), uma vez que apenas escrevi dizendo que eles não estão todos fadados ao inferno inevitavelmente, mas não disse por que e nem de que forma que as coisas poderiam ser diferentes. Boa parte deste estudo sobre o tema é extraído do Apêndice 1 de meu livro “Calvinismo ou Arminianismo – Quem está com a Razão”, com alguns acréscimos que eu achei pertinentes.

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O sentido da vida sem Deus


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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O Cristianismo não é apenas moralmente e racionalmente superior ao ateísmo: ele também traz um sentido objetivo à vida, que o ateísmo não traz. C. S. Lewis certa vez disse que “se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido – do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado”[1]. No fundo, todos nós cremos que estamos aqui por alguma razão, e que temos alguma missão ou objetivo maior nesta terra do que simplesmente sobreviver até morrer.

Mas, se Deus não existe, esta vida não tem nenhum propósito objetivo. Todos nós estamos fadados ao inevitável e doloroso processo de morte, que alcançará a uns mais cedo, e a outros mais tarde. Chegará um dia em que não existiremos para sempre, seremos como a poeira espacial, perderemos toda a racionalidade, personalidade e consciência, e nada do que fizemos na terra levaremos conosco para um “além”. Quando este dia chegar, tendo nós sido bons ou maus enquanto em vida, terminaremos todos da mesma forma: como comida para os vermes. Não haverá recompensa alguma para os bons, nem castigo algum para os maus. A nossa existência particular, simplesmente, não faz sentido.

Alguns ateus tentam contornar esta dura e cruel realidade. Para eles, a vida teria um sentido pelo legado que damos às gerações posteriores, através de nossas atitudes e ensinos que podem mudar a vida de pessoas no mundo de amanhã. Mas há três problemas com isso. Primeiro, porque a esmagadora maioria das pessoas não consegue viver de forma a dar uma mudança significativa ou “legado” para o futuro, e muitas delas fazem mais mal do que bem. Segundo, porque se vamos morrer e não voltaremos a viver jamais, nunca ficaríamos sabendo se o que fizemos em vida contribuiu de alguma forma, seja para o bem ou para o mal. Para a nossa perspectiva, qualquer coisa que acontecesse depois da nossa morte seria insignificante, sem nenhum modo de avaliar objetivamente, ou de se satisfazer por isso após virar cinzas.

Mas há um problema maior: a própria humanidade está fadada à aniquilação. Ela, querendo ou não, gostando ou não, não vai viver para sempre. Essa destruição pode acontecer de diversas formas: aquecimento global, falta de água e de recursos naturais, bombas nucleares, colisão com meteoros ou quando o sol finalmente engolir a Terra. Seja lá como este processo se der, é consenso na comunidade científica que a humanidade não viverá para sempre – ela é tão passageira e temporária quanto seus indivíduos em particular. No fim das contas, qualquer coisa feita, seja boa ou má, terminará no assombroso e inconsolável nada. Pela perspectiva ateísta, a vida não tem sentido.

Se há uma coisa que incomoda muita gente, é quando empenhamos todo o nosso esforço em alguma coisa, e esta coisa é desfeita logo em seguida, tornando inútil o esforço. Um escritor que escreve páginas e páginas, se esquece de salvar o arquivo, o computador quebra e ele perde tudo; um jogador de vídeo-game que avança de fase até o chefão e, quando chega lá, a energia acaba e ele tem que recomeçar tudo do zero outra vez; uma criança que constrói um castelo na areia da praia que pouco depois é destruído pelas ondas do mar; um time de futebol que, depois de vencer todos os outros adversários, chega à final e perde, tendo que esperar o campeonato do próximo ano para tentar tudo de novo. Há uma forte sensação de que o esforço empreendido foi inútil, porque ele foi temporário e logo em seguida foi desfeito.

A nossa vida, por uma perspectiva ateísta, é exatamente isso. Nós estudamos na escola por todo o ensino fundamental tendo que fazer todas as tediosas tarefas de casa sonhando com o ensino médio; ao chegarmos ao ensino médio temos que estudar mais ainda para passar no vestibular, sonhando em entrar numa faculdade; ao ingressarmos em uma universidade temos que estudar mais ainda para passar nas matérias cada vez mais difíceis e fazer um TCC, mas sonhamos com o ingresso no mercado de trabalho; quando finalmente saímos da faculdade temos que trabalhar arduamente para ganharmos o pão de cada dia em nosso serviço, sonhando com a aposentaria; quando finalmente nos aposentamos já estamos velhos demais para as coisas que poderíamos desfrutar quando mais jovens, e não temos mais muito tempo de vida.

A vida nos desgasta, exige tudo de nós, faz com que concorramos com outras pessoas que atravessam os mesmos desafios, nos leva a sonhar com um futuro onde as dificuldades só tendem a aumentar, e depois de tirar tudo de nós ela acaba antes que possamos desfrutar de um pouco do que lutamos tanto por conquistar. Nós nascemos, crescemos e morremos pensando apenas em sobreviver, e depois que finalmente terminamos de escrever o livro, depois que finalmente avançamos até o chefão, depois que finalmente terminamos de construir o castelo na areia, depois que finalmente chegamos à grande final... tudo acaba. E não há recomeço. A “busca pela felicidade”, inevitavelmente, termina em fracasso. A sensação é de que essa vida é realmente inútil, sem sentido – se Deus não existir.

Podemos dar sentidos subjetivos à nossa vida, mas nenhum sentido objetivo sem Deus. Podemos, por exemplo, fazer de conta que essa vida tem sentido, ao lutarmos por algo que queremos muito, e às vezes até conseguimos essas coisas. Um jovem apaixonado por uma mulher pode colocar como “sentido da vida” conquistá-la, um jogador de futebol pode colocar como “sentido da vida” ganhar uma Copa do Mundo, um cientista pode colocar como “sentido da vida” fazer uma grande descoberta que revolucione a ciência, um cubano pode colocar como “sentido da vida” chegar a Miami, e assim por diante. Mas todas essas coisas têm um término, e, ao serem alcançadas, novamente passam a sensação de um vazio: nós corremos por toda a vida para alcançar isso, e, agora que já alcançamos, parece que não há mais sentido em continuar vivendo.

Você então começa a se dar conta de que esse “sentido” era subjetivo e ilusório, ao invés de objetivo e real. É por isso que a taxa de suicídio, por mais irônico que pareça, é maior nos países mais ricos e menor nos países mais pobres. É como se aquelas pessoas vivessem a vida delas sonhando em conquistar grandes fortunas, e, uma vez que as conquista, se sente temporariamente realizado, mas logo vem uma sensação de desânimo, pois conquistou o que tudo queria, e mesmo assim não conseguiu preencher aquele enorme vazio existencial no mais íntimo do coração. Você pensava que era assim que conseguiria ser feliz; então conseguiu isso, mas ainda não é feliz como gostaria de ser.

Você começa a compreender que estava lutando pela coisa errada, que estava correndo atrás do vento. Você percebe que o sentido da vida não era aquilo que você pensava que era, e que ainda precisa correr atrás de algo maior. E você não encontra este algo maior em nada do que procurar, a não ser em Deus. É só em Cristo que este vazio se preenche e a vida faz sentido. É só em Jesus que vale a pena continuar vivendo, por algo maior. O homem tem uma necessidade de dar sentido à sua vida e de justificar sua existência no mundo, e é por isso que existem tantas militâncias políticas e tantas formas diferentes de entretenimento. Ele quer fazer a parte dele para “mudar o mundo e ser feliz”. No fundo, todos nós sabemos que esta vida tem sentido: só que muitos correm atrás do sentido errado, tentando se preencher com coisas que não preenchem.

E a situação fica ainda pior quando não conseguimos conquistar aquilo que tanto queríamos – e admita, na maioria das vezes você não consegue tudo aquilo que quer! A sensação de fracasso, de depressão e de ruína em um casamento ou namoro que não dá certo é muito maior naquele que fez da outra pessoa o seu “objetivo de vida” do que naquele que tinha um objetivo maior. Pense nisso: você vive por meses, anos e às vezes uma vida inteira por algo, e este algo fracassa miseravelmente. Você faz com que uma outra pessoa seja o seu sentido na vida, e quando esta pessoa falha, ou te trai, ou deixa de amá-lo(a), é o seu mundo que cai, e não o dela.

É isso o que sempre acontece quando pessoas transferem seu objetivo na vida para algo que não seja Deus. Deus nunca vai nos decepcionar, mas as pessoas são falhas, e, se você fizer delas o seu objetivo de vida, irá terminar na depressão ou no suicídio quando elas falham ou quando tudo dá errado. O sentido precisa ser maior do que isso. O sentido tem que ser mais do que pessoas ou coisas. Tem que ser algo eterno, imutável, onipotente, onibenevolente, cheio de amor e de compaixão: precisa ser Deus. Fora de Deus, qualquer outro objetivo principal que você tente pautar sua vida será instável como uma casa construída na areia da praia: ela desaba se aquilo não der certo, e perde sua razão de ser caso dê certo. Você estará sempre buscando objetivos novos, porque descobriu que os anteriores eram ilusões com as quais você se enganou pensando que valiam a pena.

É como C. S. Lewis disse:

“O que Satanás colocou na cabeça dos nossos remotos ancestrais foi a idéia de que poderiam ‘ser como deuses’ – poderiam bastar-se a si mesmos como se fossem seus próprios criadores; poderiam ser senhores de si mesmos e inventar um tipo de felicidade fora e à parte de Deus. Dessa tentativa, que não pode dar certo, vem quase tudo o que chamamos de história humana: o dinheiro, a miséria, a ambição, a guerra, a prostituição, as classes, os impérios, a escravidão - a longa e terrível história da tentativa do homem de descobrir a felicidade em outra coisa que não Deus”[2]

Um cristão verdadeiro certamente tem sonhos e objetivos nesta vida que vão além de Deus. Ele pode amar alguém, ele pode querer o melhor na área profissional, ele pode querer passar naquela universidade pública, ele pode almejar aquela vaga de emprego importante, ele pode querer tirar férias de vez em quando, mas ele estará perfeitamente consciente de que o seu objetivo maior de vida não são essas coisas, mas Deus. Se o namoro acabar, se não passar no vestibular, se não conseguir o emprego, se as férias forem péssimas ou se qualquer outro objetivo terreno fracassar, ele saberá que existe um lar eterno preparado para ele por um Deus eterno, que o ama, que o quer e que está acima de qualquer coisa que possa falhar nesta vida. E ele também saberá que todas essas coisas juntas não se comparam a nada do que nos aguarda na eternidade. O seu mundo não desabará, porque há um Deus que o sustenta. Há uma esperança maior, um objetivo maior, um sentido maior na vida do que aquelas coisas.

O apóstolo Paulo, após falar sobre a necessidade de enfrentarmos sofrimentos e tribulações terrenas, ressaltou que “os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Rm.8:18), e que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem mente alguma imaginou o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co.2:9). Há uma esperança, há um sentido, há uma vida eterna alcançada por meio de uma ressurreição dos mortos para aqueles que colocaram Deus como o sentido maior que justifica sua existência. E vale a pena viver por uma alegria que não perece, por uma vida que não acaba, por uma paz que não cessa.

É como Jesus disse:

“Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” (Mateus 16:25-26)

Eu não nego que possa haver uma felicidade passageira e temporária no mundo depravado e caído. A questão não é essa. A questão é se vale a pena ganhar essa vida, para perder a próxima. Ou, para colocar de outra forma, se uma felicidade passageira, que já vem com prazo de validade definido, deve ser prioridade sobre uma felicidade eterna. Uma alegria temporária, no fim das contas, resulta em nada. Eu não me lembro se nesta mesma data, há dez anos atrás, eu vivi um dia feliz ou triste. E não me importo, porque já ficou para trás. O que importa é o que está por vir. As pessoas que realmente desejam ser felizes devem pautar suas vidas por uma felicidade maior do que um momento, do que alguns anos ou do que algo que um dia fique apenas nas lembranças do passado. Há uma só alegria que é levada em consideração no fim das contas: aquela que permanece.

Nada do que possamos desfrutar nestes poucos anos em que estamos vivos na Terra pode se comparar com a eternidade que nos está preparada nos céus. Nenhum prazer daqui pode se comparar com um de lá. Se há um mínimo de possibilidade de existir outra vida no futuro, ela seria a única coisa que faria a nossa vida ter algum sentido, que vá além de qualquer sentido subjetivo e ilusório que possamos dar para nós mesmos. Se eu estivesse afogando em um rio, fadado à morte, e soubesse que se tentasse nadar até a margem eu teria 1% de chances de sobreviver, eu não me importaria com a chance ser pequena: eu nadaria com todas as forças. Se eu vejo alguma possibilidade de existir um Deus que julga as ações humanas e que pode recompensar com uma vida eterna as pessoas que de outra maneira estariam fadadas à morte irreversível, eu viveria, com todo o meu ser, por este alvo, sem me importar se a chance desta outra vida existir é pequena ou grande: o que importa é que é a única chance que eu tenho de que essa vida tenha algum sentido e valha a pena.

O mais impressionante é que Deus não deixa com que fiquemos somente neste 1% de esperança, que já bastaria para tentar algo melhor do que o nada. Ele se revela para aqueles que realmente o buscam de todo o coração por encontrá-lo, tornando esta possibilidade uma certeza. Ele não se revela da mesma forma a todos, mas de uma forma especial àqueles que desejam honestamente conhecê-lo. O salmista disse: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl.34:8), e Jesus disse que “todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta” (Mt.7:8). É preciso buscar para encontrar, se aproximar para conhecer, bater à porta para ser atendido. C. S. Lewis disse:

“A verdade é que Ele revela muito mais sobre si mesmo a determinadas pessoas do que a outras, não porque tenha os seus ‘favoritos’, mas porque lhe é impossível mostrar-se a alguém cuja mente e caráter lhe sejam inteiramente adversos. É como a luz do sol que, embora não tenha seus favoritos, não pode refletir-se num espelho coberto de pó com a mesma luminosidade com que se reflete num espelho limpo”[3]

Adauto Lourenço contou uma experiência que descreveu nestas palavras:

“Certa vez uma pessoa me disse: ‘Eu consigo provar que Deus não existe’. Eu disse: ‘Você vai ganhar o Prêmio Nobel, mas vamos tentar’. Ele disse: ‘É simples. Eu vou falar um monte de palavrão para Deus e vamos ver se ele vai jogar um raio em cima de mim!’. Eu achei impressionante, mas ele fez. Foi lá, xingou e não aconteceu nada. Depois chegou a mim e disse: ‘Está vendo? Deus não existe!’. Eu falei: ‘Pelo contrário. Você acha que você é tão importante para Deus gastar um raio dele com você?’. Deus usa a sua demonstração de quem ele é para aqueles que o buscam”[4]

Deus não está se escondendo, mas ele respeita a liberdade de escolha de cada ser humano em decidir reconhecê-lo ou não. Ele não impõe nada pela força. Ele se revela a quem o procura, mas não força ninguém a procurá-lo.  

Philip Yancey certa vez contou uma parábola onde pede que imaginemos um homem que tem um aquário enorme. Ele cuida desse aquário, e esse aquário é de água salgada. Mas aquele homem era frustrado, porque todas as vezes que ele chegava para cuidar dos peixes, os peixes fugiam. Ele ia trocar a água e era um desespero. Ele falava do lado de cá: “Peixes, eu amo vocês, calma, não tenham medo!”. Mas os peixes fugiam. E aquele homem se viu numa problemática: “Como eu posso dizer para os meus peixes o quanto eu os amo? Não tem como. Eles têm medo de mim. Só há uma maneira: se eu me tornar um peixe. E se eu me tornar um peixe eles não vão fugir de mim, mas podem também me rejeitar”.

É isso o que a Bíblia fala que aconteceu com Cristo. Ele nos ama, mas ele não impõe este amor à força bruta. Amor forçado é contradição de termos. O verdadeiro amor só existe onde há a possibilidade de não amar. Se alguém obriga uma outra pessoa a amá-lo, isso tem outro nome, que sabemos bem o que é. Deus também nos dá a possibilidade de não amá-lo, da mesma forma que um príncipe não força uma princesa a montar em seu cavalo e ir ao seu castelo: ele a deixa livre para escolher. Mas a partir do momento em que a princesa escolhe se casar com o príncipe, ela passa a conhecer o príncipe melhor, e a ter uma comunhão mais íntima e profunda com ele do que o relacionamento deste príncipe para com o povo em geral.

De igual maneira, a partir do momento em que decidimos pela razão escolher buscar a Deus, independentemente da possibilidade matemática que temos em nossa cabeça sobre ele existir ou não, ele se revela e passamos a experimentar em nosso dia-a-dia essa comunhão que só seria possível se Deus existisse, e que só se faz presente naqueles que creem. A partir do momento em que há uma conversão sincera e um desejo honesto em seguir adiante nos caminhos dEle, Deus nos concede dons espirituais conforme previsto há dois mil anos na Bíblia, ele fala em nossos corações, nos dá conforto e direção para as nossas vidas, responde orações, revela profecias, nos dá novas línguas, opera através de nós para curar e nos dá todas as evidências necessárias para fazer com que prossigamos neste caminho com uma certeza da veracidade do mesmo, e não mais como uma mera possibilidade.

É como Craig disse em seu debate com Atkins, citando a experiência pessoal logo após expor os argumentos racionais:

“Eu sou racional em crer em Deus com base na minha experiência imediata de Deus”[5]

Deus não é somente uma ideia excêntrica cuja existência ou inexistência se encontra apenas no campo teórico sem nenhuma implicação prática. Muito pelo contrário: se Deus existe, esta existência vai se fazer presente naqueles que nele creem e o buscam de todo o coração. Quando você chegar a este nível de relacionamento com Ele e alguém disser: “prove que Deus existe”, será tão sem noção quanto se esta mesma pessoa dissesse: “prove que você ama a sua mulher”. Você não pode provar que você ama a sua mulher, mas você sabe que ama a sua mulher. Da mesma forma, ainda que você seja um zero à esquerda na compreensão dos argumentos racionais para a existência de Deus, você não precisa provar nada: você sabe.  Você sabe que Deus existe da mesma forma que você sabe que ama a sua mulher, e nenhuma evidência será necessária ou suficiente para provar isso.

Quando você chegar a este estágio, poderá entender Ravi Zacharias, o indiano que conheceu Jesus, quando disse:

“Agora posso gozar do benefício da passagem do tempo. Encontrei o Jesus que conheço e amo aos dezessete anos de idade. No entanto, seu nome e seu poder de atração significam infinitamente mais para mim agora do que quando entreguei a ele minha vida. Eu o busquei porque não sabia mais para onde ir. Continuo com ele porque não quero ir para outro lugar. Fui a ele almejando algo que não tinha. Continuo com ele porque possuo algo de que não abro mão. Fui a ele como um estranho. Continuo com ele na mais íntima amizade. Fui a ele incerto quanto ao futuro. Continuo com ele certo quanto ao meu destino. Eu o busquei em meio aos ensurdecedores gritos de uma cultura que possui 330 milhões de divindades. Continuo com ele sabendo que a verdade é, por definição, exclusiva”[6]

Uma das frases mais marcantes de C. S. Lewis – e particularmente a minha preferida – é a referida no início deste capítulo final:

“O Cristianismo, se for falso, não tem valor; se for verdadeiro, tem valor infinito. A única coisa que lhe é impossível é ser ‘mais ou menos’ importante"

Pense um momento sobre isso. Se o Cristianismo não for verdadeiro, então não passa de um embuste ou uma filosofia de vida qualquer, como tantas outras. Mas, se for verdadeiro, como as evidências indicam, ele é mais importante do que qualquer outra coisa na vida. Ele te dá um sentido objetivo na vida, ele te coloca sobre os olhares de um Deus que é ao mesmo tempo amor e justiça, que recompensa os bons e que julga os maus, para quem você terá que prestar contas de cada ação, boa ou má, praticada em vida – e que resultam em destinos eternos, a vida ou a morte para sempre. Isso é muito mais importante do que qualquer prova de vestibular, qualquer entrevista de emprego, qualquer concurso na televisão ou qualquer outra coisa que possa levá-lo a lutar muito e a viver por isso.

As pessoas vivem, batalham e dão a vida por aquilo que é terreno e passageiro, mas ignoram aquilo que há de maior, de mais sublime e de maior importância nesta vida: Deus. É interessante notar que as pessoas fazem loucuras para conseguirem aquilo que elas desejam nesta terra. Um dos meus programas de televisão favoritos é O Aprendiz, e me admiro quando vejo tantas pessoas dando a vida ali dentro, se sacrificando para aquele fim, e inevitavelmente chorando amargamente quando são demitidas, como se a vida delas tivesse acabado ali.

Se isso ocorre com um simples Reality Show que serve para conquistar durante alguns anos aqui na terra um emprego de alto nível, quanto mais as pessoas deveriam dar o máximo delas para algo que importa para todo o sempre, para algo do qual depende toda uma eternidade com Deus, para um Juízo sem volta, para um veredicto final, para o julgamento das nossas vidas, quando nos veremos face a face com Ele e quando toda a nossa vida passará diante dos nossos olhos.

Mas, ironicamente, as pessoas dão muito valor e se esforçam muito pelo pouco, e não se esforçam quase nada por aquilo que há de mais importante, quando aquilo que está em jogo não são alguns anos, é a eternidade, e não é uma sala de reunião com Justus, mas o julgamento final com Deus. Quando os mortos ressuscitarem e os livros forem abertos, as pessoas finalmente abrirão os olhos, tardiamente, para aquilo que realmente importava, e para o qual davam pouca ou nenhuma atenção. Ali não será julgada a sua prova, nem o seu currículo, nem a sua beleza, nem as suas posses, mas a sua vida. É para este momento que os nossos olhos deveriam estar focados desde o presente momento. Se o Cristianismo for verdadeiro, não há nada mais importante que isso.

O que as pessoas costumam fazer com suas vidas me parece muito com a história da “toupeira humana”. Para quem não conhece a história, trata-se de um homem chamado William Henry Schmidt, que passou 32 anos da vida escavando um túnel no meio do nada, que levava a lugar nenhum, no meio do deserto de Mojave (EUA)[7]. Ele não tinha nenhum treinamento profissional e escavava usando picaretas, martelos, brocas de mão e explosivos. Ele várias vezes se feriu ao escavar o túnel, mas não desistia.

Algumas pessoas diziam que ele estava escondendo ouro ali, mas ele sempre viveu pobre. Outras diziam que ele era simplesmente louco, por empregar todos os seus esforços em toda a vida por algo sem sentido. Quando ele terminou de construir o túnel, em 1938, ele simplesmente fez as malas e foi embora da cidade, passando a morar o resto da vida em uma cidade vizinha. Ele morreu em 1954, deixando morrer consigo o grande mistério – por que alguém iria querer construir um túnel para lugar nenhum?

Os “Schmidts” dos nossos tempos são muito mais comuns do que se parece. Eles estabelecem para si mesmos sentidos subjetivos na vida, que no final não chegam a lugar nenhum. Depois de terminar todo o trabalho pelo qual eles dedicaram toda a vida, eles não ganham nada com isso, a não ser a morte. Eles vivem a vida inteira por algo sem sentido, e por fim nos deixam um grande mistério – por que alguém iria querer viver por algo que não leva a lugar nenhum? O sentido da vida sem Deus é semelhante ao túnel de Schmidt, que existe sem razão nenhuma, e que leva a lugar nenhum. Se eu posso fazer essa vida valer a pena, quero conhecer os pensamentos de Deus. O resto são detalhes.

Por Cristo e por Seu Reino,

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


        




[1] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[2] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[3] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[6] Ravi Zacharias, Por que Jesus é diferente?
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Crer é também pensar


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Há mais de duas décadas, John Stott escrevia o famoso livro cristão “Crer é Também Pensar”, onde demonstrava, através de inúmeros argumentos e raciocínios bíblicos, que a fé não é algo que se creia irracionalmente, totalmente desprovido de evidências, mas algo que se fundamenta e é apoiado também pela razão. Alguns teólogos contestam isso, sempre sugerindo o texto de João 20:29, em que Jesus diz a Tomé:

“Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” (João 20:29)

No entanto, Tomé não era alguém que não tinha evidência nenhuma da ressurreição de Jesus. Ele tinha o testemunho ocular de todos os outros discípulos, que haviam radicalmente mudado de ânimo ao verem que Cristo estava vivo. Jesus não disse para Tomé crer sem evidência alguma. Da mesma forma, ele não nos pede para crer sem evidências. Em meu livro anterior, “As Provas da Existência de Deus”, discorri por todo o capítulo 5 e 6 sobre as evidências da ressurreição de Jesus[1].

Se Jesus não tivesse ressuscitado e seus discípulos tivessem inventado uma estória sobre a ressurreição, eles não teriam perdido a primeira oportunidade em que se viram em “apuros” para negar a fé no Salvador. Ninguém aceita sofrer e morrer por causa de algo que sabe que é uma mentira. No entanto, os discípulos sustentaram a crença na ressurreição de Jesus até o último instante de suas vidas, o que é uma evidência da honestidade e sinceridade de seus testemunhos sobre a ressurreição de Jesus e seus vários aparecimentos pós-ressurreto. Se os discípulos de Jesus tivessem negado a fé nele ao serem perseguidos e condenados à morte, saberíamos que a ressurreição era meramente uma estorinha inventada.

O que os “céticos” querem que acreditemos é que uma dúzia de discípulos atravessaram a guarda romana bem armada, que guardava vigia do túmulo ao custo de sua própria vida, rolaram a enorme e pesada pedra que fechava o sepulcro, roubaram o corpo de Jesus para inventarem uma estória da ressurreição e depois sofreram por toda a vida e morreram por esta mentira fabricada intencionalmente. Não é preciso ser muito cético para perceber que esta visão não é nem um pouco plausível. A não ser para quem esteja preso em um pressuposto de que intervenções divinas não são possíveis, a ressurreição de Jesus é a alternativa mais provável.

Em suma, o que Jesus estava dizendo a Tomé não era para que este cresse sem evidências, mas sim que ele não precisava de uma evidência extraordinária para crer – bastava seguir o curso natural das evidências que já tinha em mãos. Da mesma forma, nós não vemos Jesus pessoalmente (eu, pelo menos, nunca o vi!), mas não precisamos vê-lo pessoalmente para crer que ele existiu historicamente (temos centenas de provas históricas a este respeito) ou que ele ressuscitou dentre os mortos (temos evidências lógicas e científicas sobre isso também)[2]. A fé não é antagônica à razão, mas, em um sentido bíblico e cristão, fé é confiar naquilo que você tem boas razões para crer.

Essa é a grande falácia no sistema neo-ateísta: eles pensam que é necessário evidências extraordinárias para crer em Deus. Muitos por aí dizem que creriam se Deus (ou um anjo, conforme outras versões) aparecesse diante deles, fisicamente. Nós já vimos que isso é um blefe, porque, mesmo se isto acontecesse, eles continuariam descrendo do mesmo jeito. Essas mesmas pessoas que dizem que “creriam se vissem um Ser transcendental pessoalmente” são as mesmas que acusam de “alucinação” e “delírio” aquelas outras que afirmam terem visto de fato um anjo pessoalmente, ou seja, mesmo que esses ateus vejam um anjo eles não creriam na existência do anjo, mas pensariam que se trata de alguma alucinação ou algo do tipo. Logo, o “desafio” do ateu, no fundo, não passa de um blefe.

Mas há outros problemas com a tese da “evidência extraordinária”. Isso porque, em primeiro lugar, ela parte do princípio de que Deus quer se mostrar pessoalmente a todo mundo, e então, se não o vemos, é porque Ele não existe. Mas quem disse que Deus iria querer aparecer a todos, deste jeito? De onde eles tiraram a ideia de que Deus é obrigado a se mostrar desta forma? E se Deus simplesmente tivesse boas razões para não querer aparecer tão abertamente deste jeito? Se Deus aparecesse a todo mundo desta forma tão “extraordinária”, ninguém poderia honestamente decidir crer ou não crer – esta decisão estaria pré-determinada, pois seria, na prática, impossível não crer. O livre-arbítrio do homem seria violado, e este não é o modus operandi da atuação divina. Deus não costuma violentar o livre-arbítrio de suas criaturas. Se Deus existe, ele vai se revelar conosco através das coisas criadas, e não por violação do livre-arbítrio.

De que forma ele vai se revelar através das coisas criadas? Não estando dentro delas, o que seria uma contradição de termos. Se o Universo é criação de Deus, nós não poderíamos encontrar Deus em alguma parte dentro do Universo, da mesma forma que não encontramos os arquitetos ou engenheiros de uma casa por meio de suas paredes ou teto, mas nem por isso concluímos que aquela casa não tem arquitetos e engenheiros! Um ser que cria a matéria não pode ser contingente a ela. Se Deus criou toda a matéria, ele necessariamente tem que ser independente dela, assim como o arquiteto é independente de sua obra, e não parte da parede da casa. Da mesma forma, o pintor não é parte do quadro pintado. Ele é externo à sua própria criação.

É por isso que Deus é, por definição, imaterial e transcendental. Essa é a razão pela qual ele teve que se transformar em um homem (na pessoa de Jesus) quando veio a terra, ao invés de vir como Deus.

Ninguém fala melhor sobre isso do que C. S. Lewis, quando disse:

“Procurar Deus – ou o Céu – pela exploração espacial é como ler ou assistir todas as peças de Shakespeare na esperança de encontrá-lo num dos personagens, ou Stratford num dos lugares. Shakespeare está de certa forma presente em todos os momentos de cada peça. Mas nunca está presente da mesma maneira que Falstaff ou Lady MacBeth (personagens criados por ele). Tampouco está difuso em uma peça como uma espécie de gás”[3]

Podemos saber que Deus existe, ou que há uma forte possibilidade dele existir, através de argumentos como o cosmológico, o teleológico, o moral, as profecias cumpridas na Escritura, as evidências da ressurreição de Jesus e a própria intuição que nos diz que há um Deus e que este Universo é um projeto, e não um fruto do acaso ou sorte – mas não podemos encontrá-lo literalmente em alguma parte do Universo, razão pela qual ele nunca vai aparecer, como Deus, a alguma pessoa da terra. Para além disso, podemos dizer que Deus de fato já apareceu física e pessoalmente entre nós, na pessoa de Jesus Cristo. Aqueles que vivam na época viram os milagres, e nós que vivemos hoje podemos confirmar que estes milagres aconteceram porque as testemunhas oculares destes milagres não hesitaram em permanecer firmes nestes testemunhos mesmo diante da perseguição e morte.

Deus, portanto, se revela (não-fisicamente) na natureza (argumento cosmológico e teleológico), se revela em nossos corações (argumento da lei moral), se revela nas Escrituras (argumento das profecias cumpridas) e se revela na pessoa de Jesus Cristo (argumento da historicidade e ressurreição de Jesus). O que mais os ateus querem? Seja lá o que for, de uma coisa podemos ter certeza: eles não tem desculpas para a descrença, pois não é por falta de evidências que eles não creem. Eles estão, como já dizia o apóstolo Paulo, “indesculpáveis” (Rm.1:20).

Como se tudo isso não fosse suficiente, compare essas coisas com as possibilidades do inverso delas ser verdadeiro. Isso mesmo: inverta o quadro, e faça o ceticismo deles se voltar contra eles mesmos. Seja cético em relação às teorias dos céticos. Este é o maior problema dos neo-ateus: eles não são suficientemente céticos. Eles são demasiadamente céticos em relação às crenças cristãs, mas nem um pouco céticos em relação às suas próprias crenças. Quem, em sã consciência e em juízo perfeito, sem nenhuma influência externa ou pressupostos, iria realmente acreditar que todo o Universo, ou qualquer coisa que seja, foi criado do nada? Quem, honestamente falando, iria pensar que “era uma vez o nada... e, de repente, Bang – uma matéria surgiu!”? Ninguém. Se isso já é ridículo pensando no senso comum de “nada” (i.e, um “espaço vazio”), imagine então com aquilo que realmente a ciência entende por “nada” – i.e, sem tempo, sem espaço, sem matéria! Crer que o Universo surgiu disso é, realmente, um delírio!

Ou então pense no argumento teleológico, mais uma vez. Com tantas constantes antrópicas (que vimos no capítulo 6), qual é a chance matemática de tudo ter sido fruto do “acaso” ou de “muita sorte”? Nós vimos que a chance é, literalmente, zero. Ou, se você preferir, uma chance de uma em zilhões. Mesmo assim, os ateus são céticos em relação à crença em um Projetista, mas são extremamente crédulos em relação às suas próprias crenças cegas no acaso. Se os “céticos” fossem céticos para com as suas próprias teses, eles seriam os primeiros a perceber o quão estúpidas elas são, e seriam também os primeiros a admitir que a crença em Deus é mais racional.

Mas eles estão cegos, porque exercem ceticismo somente para um lado, e nenhum ceticismo para com o outro. Isso faz com que eles rejeitem as evidências para o Cristianismo e adotem crenças que não tem qualquer evidência, e que realmente não tem cabimento nenhum no campo da razão. Um diálogo fictício entre um ateu e um cristão publicado na internet resume isso na seguinte fala do ateu:

“Eu acredito que houve uma explosão espontânea, que não sabemos o que a gerou, e que a energia dessa explosão se converteu em matéria, de uma maneira que ainda não sabemos, e que a força aleatória geral deu origem a pequenos sistemas de ordem, de uma maneira que ainda não sabemos, e que esses pequenos sistemas de ordem se reuniram, não sabemos como, para formar essa perfeita harmonia, que ainda não sabemos como funciona”[4]

Você pode fazer o mesmo com todos os outros argumentos presentes neste livro, e verá sempre uma possibilidade, no mínimo, de 50% para mais a favor da fé cristã, e de menos de 50% para o contrário ao que está sendo argumentado. Na vida real, ninguém precisa de evidências “extraordinárias” para crer em algo. Basta que este algo seja mais lógico e coerente, com mais chances de existir do que o que está em oposição a isso, que nós já aceitamos por ser o mais plausível. Por exemplo, quando você está fazendo uma prova de vestibular, você marca uma opção mesmo quando não tem 100% de certeza que ela é a correta. Se você está em dúvida entre a alternativa “A” (com 70% de chances) e a “B” (com 30% de chances), você não fica sem marcar e nem corre para marcar a “B” por não estar 100% seguro quanto à alternativa “A”. Você simplesmente marca a “A”.

Se você parar para pensar, verá que em tudo nessa vida você opta por aquilo que é mais provável, ao invés de optar pelo “menos provável” ou por deixar de optar quando “não tem certeza” de algo. Isso é muito comum na teologia também. Há muitos textos bíblicos que são passíveis de duas ou mais formas diferentes de interpretação, e neste caso cabe ao intérprete analisar ambos os argumentos e decidir pela exegese mais provável. Ele segue as evidências, mesmo quando as evidências não são “esmagadoras”, ou quando não há unanimidade a respeito. Eu penso que há realmente evidências esmagadoras a favor da existência de Deus pelo campo da razão, mas, mesmo que essas evidências não chegassem a 100%, elas ainda assim estariam bem acima dos 50% e, por isso, seria mais plausível crer em Deus do que não crer.

É como demonstrado no quadro abaixo:

OPÇÃO RACIONAL
(Mais Plausível)
OPÇÃO IRRACIONAL
(Um Delírio)
Algo criou o Universo
Nada criou o Universo
Nada vem do nada
O Universo inteiro veio do nada
Toda a complexidade e perfeição do Universo atestam a existência de um Projetista
É tudo fruto do acaso, ou existem infinitos universos paralelos e nós tivemos a sorte de estarmos no “universo certo”!
As centenas de profecias bíblicas que se cumpriram se cumpriram porque Deus preza pelo cumprimento da Sua Palavra
Todas as profecias bíblicas cumpridas se cumpriram por acaso e sorte
A moralidade objetiva existe, e ela é reflexo da natureza imutável de Deus
A moralidade é subjetiva e fabricada pelos caprichos do homem
A vida surgiu de outra vida (Deus)
A vida surgiu da não-vida
Seres conscientes e racionais foram criados por um Ser consciente e racional
A consciência e a racionalidade “evoluíram” da matéria inorgânica e completamente irracional
Os discípulos deram a vida pelo evangelho porque viram o Jesus ressurreto
Os discípulos inventaram uma estória da ressurreição para depois sofrerem e morrerem por ela

À luz destas e de outras comparações que poderíamos fazer, quem está delirando? Qual das duas visões um verdadeiro cético deveria ter desconfiança? Os céticos “autointitulados” tem razões para permanecerem “céticos” em relação ao Cristianismo, quando o que defendem é indiscutivelmente mais irracional? Qual das duas visões exige mais fé?

Assim como Geisler e Turek, eu não tenho fé suficiente para ser ateu! Sou também obrigado a concordar com Robertson quando ele diz que “ser ateu exige uma grande dose de fé”[5]! A “evidência extraordinária”, como vemos, não está na conta dos cristãos, mas dos ateus. É mais “extraordinário” crer que algo vem do nada do que crer que vem de um Ser eterno e não-causado. Se alguma coisa precisa de uma “evidência extraordinária” é a alegação dos ateus, e não a nossa! Deus é a hipótese mais simples se comparado com a sua negação.

Este é o problema dos ateus: eles consideram apenas Deus em si, e não Deus em relação com aquilo que está em oposição a ele. Alguém que só viveu no deserto e nunca viu o gelo na vida poderia considerar uma “alegação extraordinária” demais se alguém lhe dissesse que existem enormes espaços geográficos totalmente cobertos de gelo, mas, se alguém lhe mostrasse uma evidência (fotos, vídeos, testemunhas oculares, etc), a crença em um Pólo Sul, apesar de lhe parecer “extraordinária” demais, lhe seria mais provável em relação à sua negação, onde se veria forçado a negar todas as fotos, vídeos, testemunhos, etc.

Da mesma forma, a crença em Deus pode parecer “extraordinária”, mas é menos extraordinária do que seria imaginar que tudo o que vemos veio do nada, que a nossa consciência simplesmente “surgiu” (sabe-se lá como) da matéria inorgânica, ou na possibilidade matemática de todas as profecias bíblicas terem se cumprido por puro acaso. Deus se torna mais simples em relação à hipótese oponente, e é isso o que importa. No fim das contas, os dois – cristão e ateu – têm fé em algo, mas o cristão tem uma fé racional, enquanto o ateu tem uma fé irracional no “acaso”, que chega a ser quase uma birra para aceitar qualquer coisa que não implique na existência de Deus, ou, como disse Robertson, o “TMD”: Tudo-menos-Deus!

Você pode perceber isso sempre que assiste a um programa de televisão em que algum neo-ateu é entrevistado. Quando alguém pergunta: “O que existia antes do Universo existir?”, o ateu logo responde: “Não sei”. Mas, na verdade, esse “não sei” é uma resposta falsa, pois o que ele realmente crê é que “não sei, mas com certeza não foi Deus!”. Eles fingem ser somente ignorantes, quando na verdade são tendenciosos também: eles se fecham a qualquer possibilidade de Deus estar envolvido. São os pressupostos deles (de que Deus não existe) que os fazem responder “não sei” a esta pergunta e ainda assim dizer com tanta convicção que “não foi Deus” (de outra forma não seriam ateus, que significa “não-Deus”!).

Em termos simples, o ateu é alguém que mantém uma fé irracional em qualquer coisa contanto que esta coisa não seja Deus, enquanto o teísta é simplesmente alguém que, seguindo todas as evidências, conclui que o Universo surgiu por uma causa eterna, não-causada, e também racional, que explica a racionalidade do próprio Universo e a consciência dos seres criados. Isso é o teísmo. Essa é a fé racional.

Mas como chegamos ao Deus cristão, revelado em Jesus Cristo na cosmovisão cristã? Por que Deus não seria somente alguém que criou o Universo com todas as suas leis, que depois nos criou e se ausentou da criação, deixando as coisas como estão, sem intervir em nada? Por que o “Deus verdadeiro” teria que ser o de uma religião específica, e não o Deus dos deístas, que na descrição de Dawkins...

“O Deus deísta é um físico que encerra toda a física, o alfa e ômega dos matemáticos, a apoteose dos projetistas; um hiperengenheiro que estabeleceu as leis e as constantes do Universo, ajustou-as com uma precisão e uma antevisão extraordinárias, detonou o que hoje chamamos de big bang, aposentou-se e ninguém nunca mais soube dele”

Por que esse não seria o “verdadeiro Deus”?

Porque é irracional crer que alguém teria o trabalho de fazer tudo aquilo para depois “se aposentar e ninguém nunca mais saber dele”. Em termos gerais, coisas criadas por alguém são coisas cuidadas por alguém. Você não apenas compra ou adota um cachorro ou gato de estimação para depois largá-lo na rua; ao contrário, você cuida dele com o carinho de um pai. Ou então, se você for um empreendedor que decide abrir um negócio, você não vai abrir o negócio e depois abandoná-lo e não querer nem saber mais dele; ao contrário, você irá se envolver com este negócio, ainda que nomeie outros para administrarem a empresa.

Com Deus é a mesma coisa. Ele cuida de nós como um pai, e se envolve em seu projeto assim como o dono de uma empresa interage com os seus liderados. Nós somos os administradores desta terra, assim como os gerentes administram uma empresa, mas isso não significa que o dono não queira saber da empresa ou a tenha abandonado! Dizer que Deus criou todo o Universo e as criaturas, para depois deixá-los a esmo, seria como dizer que Bill Gates, após criar a Microsoft, chutou o balde e não ficou nem aí com a continuidade deste projeto. Mas se é ridículo pensar isso sobre Bill Gates, quanto mais seria pensar isso de Deus, que criou algo tão imensuravelmente maior e mais importante, e que tem muito mais condição de cuidar da sua própria criação!

Se nós temos um forte instinto de cuidar daquilo que é nosso e de administrar aquilo que nós criamos, então com toda a probabilidade Deus não é alguém ausente que não se importa com a sua criação, mas sim um Pai que cuida com amor e se envolve de alguma maneira com o seu projeto. Isso, junto ao argumento da moralidade (que já vimos no capítulo 7 deste livro), nos leva à crença de que Deus é mais que um Projetista: ele é um ser pessoal. E, se Deus é um ser pessoal, nós deveríamos esperar que ele se relacionasse com a criação de alguma forma que não ficasse ausente. É daí que surgem as religiões, cada qual afirmando possuir este meio de transmissão das palavras de Deus para com o coração do homem.

Mas como podemos saber que o Cristianismo é a religião verdadeira, e não tantas outras milhares de religiões que já existiram ou que ainda existem no mundo? É aí que regressamos ao ponto já exposto na introdução ao capítulo 9 deste livro: o Cristianismo é a única religião que pode realmente ligar o homem a Deus. É inegável que o ser humano se afundou no pecado e que caminha para a morte. Deus poderia ter deixado as coisas por isso mesmo, mas, se o fizesse, não seria onibenevolente. Deus deu uma opção ao homem, o homem optou errado, mas Deus lhe dá uma chance de reverter esta condição espiritual.

Mas, agora que o homem já havia decidido ficar longe de Deus, o próprio homem em si perdeu a possibilidade de se religar com o Criador por seus próprios meios. A humanidade já fez a sua escolha, e essa escolha é pelo pecado. Nós pecamos todos os dias. Se há alguma religação (religião) a ser feita, ela deve partir de Deus para com o homem, e não do homem para com Deus. É por isso que Deus teve que enviar Jesus e condicionar a salvação unicamente à fé nele: porque, se não fosse por isso, não haveria outro jeito. Se alguma religião é verdadeira, essa religião tem que ser o Cristianismo – todas as outras partem de baixo para cima, no que o homem pode fazer para Deus (salvação por obras), e não no que Deus fez para com os homens (salvação pela fé).

A salvação não pode ser pelas obras porque, por melhor que nossas obras sejam, elas nunca serão perfeitas para nos ligar a um Deus perfeito. As obras não são capazes de fazer este elo. Todos nós pecamos, e pecamos todos os dias. Mesmo alguém que vive de fazer caridade e que não comete nenhuma falha grave, também perde a cabeça de vez em quando, e com certeza já mentiu, já xingou alguém, já julgou o próximo, já roubou coisas pequenas e já cometeu delitos que são suficientes para obstruir este canal das boas obras que nos levam a Deus. Por melhor que as nossas obras possam ser, elas nunca serão totalmente perfeitas, pois estamos sempre mesclando nossas boas ações com más ações. Talvez estas obras imperfeitas fossem suficientes para nos ligar a um Deus imperfeito, mas somente obras perfeitas podem nos ligar a um Deus perfeito.

Pense de outra maneira. Norman Geisler e Frank Turek deram uma ilustração muito boa no livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu”. Eles escrevem:

«Um jovem é levado diante de um juiz por dirigir embriagado. Quando seu nome é anunciado pelo meirinho, percebe-se um suspiro no tribunal – o réu é o filho do juiz! O juiz espera que seu filho seja inocente, mas a evidência é irrefutável. Ele é culpado.

O que o juiz pode fazer? Ele é pego num dilema entre a justiça e o amor.

Uma vez que seu filho é culpado, merece punição. Mas o juiz não deseja punir seu filho por causa do grande amor que tem por ele.

Relutantemente anuncia:

– Filho, você pode escolher entre pagar uma multa de R$ 5.000,00 ou ir para a cadeia — o filho olha para o juiz e diz:

– Mas, pai, eu prometi que vou ser bom de agora em diante! Serei voluntário no programa de distribuição de sopa aos necessitados. Vou visitar uma pessoa de idade. Vou abrir uma casa para cuidar de crianças que sofreram abuso. Nunca mais vou fazer outra coisa errada de novo! Por favor, deixe-me ir, implora o filho. Nesse momento, o juiz pergunta:

– Você ainda está bêbado? Você não consegue fazer tudo isso. Mas mesmo que pudesse, os seus atos bondosos futuros não podem mudar o fato de que você já é culpado por ter dirigido embriagado.

De fato, o juiz percebe que boas obras não podem cancelar más obras! A justiça perfeita exige que seu filho seja punido por aquilo que fez. Sendo assim, o juiz repete:

– Sinto muito, meu filho. Assim como eu gostaria de permitir que você fosse embora, estou atado pela lei. A punição para esse crime é pagar R$ 5.000,00 ou ir para a cadeia – diz o juiz. O filho apela a seu pai:

– Mas pai, você sabe que eu não tenho R$ 5.000,00. Deve existir outra maneira de evitar a cadeia!

O juiz levanta e tira sua toga. Desce do seu lugar elevado e chega no mesmo nível em que está seu filho. Olhando bem direto em seus olhos, põe a mão no bolso, tira R$ 5.000,00 e estende ao filho. O filho está surpreso, mas ele entende que existe apenas uma coisa que pode fazer para ser livre: aceitar o dinheiro. Não há nada mais que possa fazer. Boas obras ou promessas de boas obras não podem libertá-lo. Somente a aceitação do presente gratuito de seu pai pode salvá-lo da punição certa.

Deus está numa situação similar à daquele juiz – ele está preso num dilema entre sua justiça e seu amor. Uma vez que todos nós pecamos em algum momento de nossa vida, a infinita justiça de Deus exige que ele puna aquele pecado. Mas por causa do seu amor infinito, Deus deseja encontrar uma maneira para evitar nos punir.

Qual era a única maneira de Deus permanecer justo mas não nos punir por nossos pecados? Ele deve punir um substituto sem pecado que voluntariamente aceita a punição que nos é devida (sem pecado significa que o substituto deve pagar por nossos pecados, e não pelos seus próprios; voluntário porque seria injusto punir um substituto contra sua vontade). Onde Deus pode encontrar um substituto sem pecado? Não na humanidade pecaminosa, mas apenas em si mesmo. Na realidade, o próprio Deus é o substituto. Assim como o juiz desceu de seu lugar para salvar seu filho, Deus desceu dos céus para salvar você e eu da punição. Todos nós merecemos a punição. Eu mereço. Você merece.»

Este é o ponto em questão: boas obras não cancelam más obras. O homem ainda seria merecedor da morte ainda que tivesse cometido um único pecado contra Deus em toda a vida – e sabemos perfeitamente bem que cometemos muito mais erros do que isso! Portanto, se existe um Deus perfeito, nós só podemos chegar até ele através de um caminho perfeito. Não por nossas próprias obras, porque nossas obras não são perfeitas. Isso descarta logo de cara todas as religiões que ensinam salvação por obras (na prática isso significa todas, exceto o Cristianismo). Ensinar salvação por obras é dizer que podemos fazer por nós mesmos aquilo que jamais poderíamos fazer por nós mesmos.

Mas, se não é por obras, como seria? O que poderia ser este canal perfeito que nos ligaria a Deus? A resposta é curta e objetiva: Jesus. Nossas próprias obras não são perfeitas para nos ligar a Deus, mas as dele foram. Cristo pagou o preço em nosso lugar, e é, portanto, somente pela fé nele que podemos ser salvos. Jesus, ao descer à terra e viver uma vida perfeita, nos deu o presente da salvação, e agora cabe a nós somente aceitarmos este presente, pela fé nEle. Essa fé não é uma “boa obra”, é somente a não rejeição ao sacrifício de Cristo em nosso favor. Ninguém, portanto, pode se ensoberbecer pensando que conseguiu a salvação pelo esforço próprio.

Roger Olson faz a seguinte analogia:

“Imagine um aluno que esteja passando fome e prestes a ser despejado de seu dormitório por falta de dinheiro. Um professor bondoso dá a esse aluno um cheque de R$ 1.000,00 - o suficiente para que ele pague seu aluguel e coloque uma boa quantidade de comida em sua dispensa. Imagine, pensando mais além, que o aluno que foi resgatado leve o cheque até o banco, assine e deposite o cheque em sua conta (o que faz com que seu extrato fique com R$ 1.000,00 positivos). Imagine também que o aluno então começa a andar pelo campus se gabando de que ele mereceu receber a quantia de R$ 1.000,00. Qual seria a resposta das pessoas caso soubessem a verdade acerca da situação? Eles acusariam o aluno de ser miserável e ingrato. Mas suponha que o aluno diga: ‘Mas o fato de eu endossar o cheque e o depositar em minha conta é o fator decisivo para que eu conseguisse o dinheiro, então eu fiz uma boa obra que mereceu, ao menos, parte do dinheiro, não mereci?’ Ele seria ridicularizado e possivelmente ainda seria ignorado pelos demais por ser uma pessoa insensata”[6]

Essa doutrina da substituição penal é rechaçada pelos neo-ateus, que não conseguem entender o conceito de salvação pela graça (através da fé), e não pelo merecimento (através das obras). Christopher Hitchens mostrou não entender nada do conceito cristão de “perdão” ao escrever:

“Em meu livro, argumento que posso pagar sua dívida ou até mesmo ir para a prisão em seu lugar, mas não posso absolvê-lo do que você fez. Infelizmente, essa fantasia exorbitante chamada ‘perdão’ anda de mãos dadas com uma advertência igualmente extrema – a saber, a rejeição de uma oferta tão sublime”[7]

Às pessoas como Hitchens, C. S. Lewis já respondia:

“A que a maioria das pessoas conhecem é a que já mencionei – a de que fomos absolvidos do castigo porque Cristo se ofereceu para ser castigado em nosso lugar. Ora, à primeira vista, parece uma teoria bastante tola. Se Deus estava disposto a nos perdoar, por que não nos perdoou de antemão? E por que, além disso, castigou um inocente em lugar dos culpados? Se pensarmos o castigo na acepção policial e judicial da palavra, isso não tem sentido nenhum. Por outro lado, se pensarmos numa dívida, é muito natural que uma pessoa, possuindo bens, salde os compromissos daquela que não os possui. Ou, se tomarmos a expressão ‘cumprir a pena’ não no sentido de ser punido, mas sim no de ‘aguentar as consequências’ e ‘pagar a conta’ - ora, todos sabem que, quando uma pessoa cai num buraco, o problema de tirá-la de lá geralmente recai sobre os ombros de um bom amigo. Em que tipo de ‘buraco’ caíra o homem? Ele procurara ser auto-suficiente e se comportara como se pertencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero – só isso pode nos ‘tirar do buraco’. Esse processo de rendição, movimento de marcha a ré a toda velocidade, é o que o Cristianismo chama de arrependimento”[8]

Sendo o Cristianismo a única religião que pode efetivamente religar o homem a Deus (que é o significado de “religião”), o Cristianismo é, portanto, a única religião verdadeira, o que significa nada a mais do que dizer que o Cristianismo é a única forma de realmente religar o homem a Deus. Todas as outras religiões são tentativas (frustradas) para fazer a mesma coisa por outros meios, que começam pelo homem e não por Deus. Dizer que as outras religiões são “falsas” não significa dizer que elas não sejam religiões, ou que elas não tenham algo de bom, significa simplesmente dizer que elas não funcionam quando o assunto é salvação, ainda que possam trazer algo de bom em outras áreas. Assim como há várias chaves numa casa, mas só uma funciona para abrir a fechadura da porta da sala, assim também Jesus é a única “chave” que nos abre a porta da salvação – nenhuma outra funciona. É por isso que Jesus disse:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14:6)

Jesus é o canal perfeito. Jesus é a chave que abre a porta. Jesus é o caminho que nos leva a Deus. Jesus é aquele que nos livra da morte, pois morreu para que nós pudéssemos viver. Ele pagou o preço do pecado para que aqueles que nele creem não pereçam, mas tenham a vida eterna. Quanto, porém, àqueles que deliberadamente escolheram rejeitá-lo, só há um preço a pagar pelos seus pecados: a morte. A morte é o salário do pecado (Rm.6:23), é o curso natural de todo ser humano que tenta alcançar a Deus por meio de si mesmo (obras imperfeitas), e não por meio de Cristo (obras perfeitas).

As outras chaves podem até servir para abrir outras portas, mas aquela porta é só aquela chave que abre. Da mesma forma, há muitas religiões que estimulam o homem a fazer o bem ao próximo e que servem para muitas coisas declaradamente boas – e nenhum cristão contesta isso –, mas só há uma religião que possa ligar o homem a Deus na questão de salvação, que é a fé em Jesus Cristo, onde está fundamentado aquilo que conhecemos como Cristianismo. Uma vez que Deus decidiu perdoar o mundo através de Jesus, os que forem condenados serão condenados pelo perdão que recusaram. O prof. Rodrigo Silva ilustrou isso com uma parábola, onde diz:

«Uma vez, nos Estados Unidos, durante a época do faroeste, um homem foi condenado à forca porque lutou contra um outro e o matou. Aquele homem foi condenado e alguns da cidade pediram clemência por aquele homem e escreveram uma carta ao governador, dizendo:

– Perdoe este homem, por favor.

O governador falou:

– Eu acho que eu vou perdoá-lo, mas antes de perdoá-lo deixe-me levar o perdão dentro de uma Bíblia e ver quem eu estou perdoando.

O governador então se disfarçou de padre (ou de pastor, segundo outras versões), colocou a carta de perdão dentro da Bíblia e foi até a cadeia. Quando ele chegou na cadeia, o homem começou a gritar lá do fundo:

– Saia daqui! Eu não tenho nada pra te ouvir!

O governador respondia:

– Calma, meu amigo. Eu tenho algo interessante para você aqui.

Mas o prisioneiro continuava gritando:

– Suma daqui! Eu cuspo em você e nesse Deus!

– Calma, meu filho. Deixe eu te mostrar o que eu tenho aqui dentro.

– Eu não quero saber de você! Se você vier aqui eu jogo alguma coisa em você!

E aquele líder religioso, que na verdade era o governador, tristemente deu as costas e saiu. Quando ele se afastou, o carcereiro chegou ao prisioneiro e disse:

– Você é um louco! Você é um louco!

– Por quê?

– Aquele cara que você mandou embora não era um líder religioso. Sabe quem era aquele homem? Ele era o governador do estado, e ali dentro estava a sua carta de perdão. Você ia estar solto!

No dia da execução, deixaram o prisioneiro falar suas últimas palavras. Ele olhou para a multidão e disse:

– Eu quero apenas dizer nesta manhã que eu não estou sendo condenado aqui à morte por causa do crime que eu cometi. Eu estou sendo condenado por causa do perdão que eu recusei.

Quando a condenação ocorrer, ninguém será condenado por causa dos pecados que cometeu, mas sim pelo perdão que recusou»[9]

Quando queremos transmitir uma mensagem a alguém, geralmente fazemos isso através de duas maneiras: falando com ela pessoalmente, ou escrevendo uma carta a ela. Deus fez as duas coisas: ele enviou Jesus, que é “a imagem do Deus invisível” (Cl.1:15), e também a Bíblia, que é a carta escrita de Deus para nós, onde está registrada as próprias coisas que foram ensinadas por Jesus enquanto ele esteve entre nós. É por isso que faz sentido acreditar na Bíblia: ela é a única forma de transmissão das palavras de Deus, razão pela qual ela mesma tem sido chamada de a “Palavra de Deus”. A lógica segue como demonstrada a seguir: 

(a)   Deus existe.
(b)   Deus é um ser pessoal, que deseja interagir com os seres criados.
(c)    Ele fez isso pessoalmente através de Jesus e também pelas Escrituras.
(d)   Se Deus é perfeito, seus meios de interação devem ser perfeitos.
(e)   Portanto, Jesus e a Bíblia são perfeitos (livres de erros).

Negar que o meio de transmissão da palavra divina (Escrituras) seja perfeito é o mesmo que dizer que Deus, um ser perfeito, não teve a capacidade de transmitir sua mensagem com exatidão. É por isso que cremos que, embora a Bíblia seja um livro humano e escrito por homens, ela é também um livro divino e inspirado por Deus. Em outras palavras, Deus respeitou o estilo e personalidade de cada escritor sacro, mas preservou a Sua Palavra de conter erros teológicos, ou seja, de obstruir este canal pelo qual o homem pode ter conhecimento de Deus e das coisas divinas. É, portanto, logicamente consistente crer na inspiração da Bíblia, uma vez que se crê na existência de Deus e na sua revelação através de Jesus.

Mas por que deveríamos crer em tudo? Por que não pegamos simplesmente as partes que gostamos na Escritura, e rejeitamos as que não gostamos? Afinal, não é exatamente isso o que os teólogos liberais tem feito nos últimos séculos? É aí que entra a fé, mas, novamente, uma fé que não vem desprovida de razão. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, e Deus é inteiramente perfeito, então a Bíblia deve ser inteiramente perfeita, e não “perfeita em partes”. Em outras palavras, não existe a “Palavra de Deus dentro das Escrituras”; ao contrário, a Palavra de Deus é a Escritura! Por isso, embora seja absolutamente impossível termos confirmações históricas ou arqueológicas de todas as [milhares de] coisas que a Bíblia narra, sabemos que tudo o que a Bíblia narra é a verdade, porque é a palavra de Deus.

Como vimos brevemente no capítulo 3, absolutamente tudo o que a arqueologia já descobriu confirmou os relatos bíblicos, e não houve até hoje uma única descoberta arqueológica que contradissesse a Bíblia. Mesmo assim, é virtualmente impossível que os arqueólogos descubram tudo sobre a Bíblia, da mesma forma que nem os evolucionistas têm todos os fósseis de todas as espécies de transição, mas creem na existência destes fósseis mesmo assim. Nós não temos evidências de tudo, mas o que temos de evidências nos assegura a confiabilidade daquilo que ainda não temos.

Por exemplo, nós não temos alguma “prova” de que Jesus vai voltar, mas a volta de Jesus faz parte das profecias de Daniel, que acertou todas as outras profecias sobre tudo aquilo que profetizou (v. cap. 3). Se Daniel acertou nas profecias de todas as outras coisas que profetizou, por que deveríamos duvidar desta profecia em especial? Pense na seguinte analogia: se alguém no século XV tivesse predito a ascensão de Hitler, o nazismo, o comunismo, a queda do muro de Berlim (na data certa), a destruição das Torres Gêmeas e o fim do mundo para 2100, alguém que viveu naquela época iria desdenhar (e com razão) da veracidade destas profecias, mas alguém que vivesse no século XXI e tivesse testemunhado o cumprimento de todas as outras predições estaria certamente mais atento – para dizer o mínimo – sobre a profecia final (futura).

Da mesma forma, Daniel previu com exatidão todos os acontecimentos já detalhados no capítulo 3 deste livro, os quais se cumpriram com perfeição, e também previu a volta do Messias, no final da “septuagésima semana”. Se as outras predições de Daniel tivessem falhado, os ateus teriam razões de sobra para questionar também o cumprimento da última e mais importante de todas as profecias. Mas como todas elas acertaram, são os cristãos que tem excelentes razões para confiarem no cumprimento da profecia.  

De certa forma, os cientistas (inclusive os cientistas ateus) também trabalham com certo conceito de “fé”. Não é possível provar, cientificamente falando, que as leis do Universo se aplicam em todo o Universo e desde o início dos tempos. A ciência não conseguiu explorar todas as partes do Universo para descobrir isso, e nem existe desde sempre para nos revelar tudo com precisão sobre o passado. Isso é tomado como verdade a priori para a ciência ter fundamento, ou, em outras palavras, é uma fé racional. Funciona basicamente assim: se esta parte do Universo funciona deste jeito neste lugar, então presumivelmente este padrão se aplica às outras partes do Universo também.

Da mesma forma, os cristãos não têm “provas”, por exemplo, de que uma virgem deu à luz ao Messias, mas se o padrão da Escritura é revelar a verdade, então este relato deve ser verdade também. Absurdo por absurdo, nós e os ateus estamos no mesmo patamar: da mesma forma que ninguém nunca viu uma virgem dar a luz, também ninguém até hoje viu alguma coisa surgir do nada. Mas os ateus creem no absurdo de que todo o Universo veio do nada, e ao mesmo tempo zombam do outro “absurdo” da virgem dar à luz! Eles zombam dos “absurdos cristãos”, mas eles mesmos creem em seus próprios “absurdos”. Se fôssemos crer ou descrer em algo somente pelo quanto que este algo parece ser “absurdo”, jamais sairíamos do zero a zero.

Mas há uma coisa que desempata o jogo: os milagres. Os ateus não creem em milagres (violação das leis naturais), e portanto não podem explicar seus próprios “absurdos”. Em outras palavras, o ateu se vê obrigado a aceitar seus absurdos por fé, mesmo não crendo em “fé”; ele tem que crer em um “milagre”, mas não crê em milagres. O cristão, por outro lado, por crer em Deus, aceita a possibilidade de milagres existirem, pois, se Deus existe, milagres são possíveis. Não há, portanto, um “paradoxo” para o cristão: tudo se desvenda quando passamos a crer que é possível que “absurdos” aconteçam de vez em quando.

Um programa de computador tem certos padrões bem fixos e que não mudam, mas se o dono ou o programador deste programa decidir mudar o sistema criado por ele, ele pode fazer isso quando quiser e como quiser. Da mesma forma, o Universo apresenta certos padrões fixos (dentre os quais certamente incluímos que virgens não dão à luz!), mas o criador de toda a matéria tem o poder de alterar os padrões em situações extraordinárias, e é a esse desvio do “padrão” que damos o nome de “milagre”. Em outras palavras, as possibilidades de uma virgem dar à luz é a mesma de a vida ter surgido ao acaso ou do nada criar algo: a diferença é que eu creio em milagres porque acredito em Deus, tornando isso possível, e os ateus não creem em Deus, permanecendo na impossibilidade – mas crendo assim mesmo.

O “absurdo” ateísta continuará “absurdo” para sempre e nunca deixará de ser “absurdo”, porque eles tiram “Deus” do jogo. O “absurdo” cristão pode continuar a ser “absurdo” diante dos padrões naturais, mas existe a possibilidade de acontecer pela intervenção sobrenatural aos padrões naturais, porque existe um Deus que faz com que milagres (intervenções) sejam possíveis. O “impossível” ateísta nunca deixará de ser “impossível”, mas, se Deus existe, “tudo é possível para aquele que crê” (Mc.9:23). Essa é a diferença entre o cristão e o ateu: a fé torna possível os “impossíveis” do teísta, mas o impossível para ateu continua sendo impossível para sempre, e ele mesmo assim é obrigado a continuar crendo nisso que é impossível!

Alguns ateus ainda questionam a Bíblia dizendo: “Mas você crê em um livro velho escrito por homens? Você acredita em um pedaço de papel?”. Eles não têm ideia de quão ridícula que é essa afirmação. Todos os livros ateístas que eles seguem também foram escritos por homens – e “A Origem das Espécies” está se tornando mais velha a cada dia. Isso não significa que seja errado seguir estes livros ou que estes livros necessariamente não contenham a verdade – da mesma forma que a Bíblia, também escrita por homens e há muito tempo atrás, tem que ser avaliada pelo seu conteúdo, e não por argumentos simplórios e superficiais.

Em uma de suas palestras, o prof. Adauto Lourenço contou:

“Se eu lhe perguntasse: ‘Qual é a sua idade?’, você iria dizer quantos anos você tem. Mas se eu lhe perguntasse: ‘Por favor, me prove!’, você poderia pegar sua certidão de nascimento, sua cédula de identidade ou sua carteira de motorista e falar: ‘Aqui está a evidência’. E eu diria o seguinte: ‘Você acredita em um pedaço de papel? Você está dizendo que toda a evidência que você tem da sua idade é um pedaço de papel?’. Então você responde: ‘Também tem meu pai e minha mãe’. E eu responderia: ‘Pior ainda, então você crê em testemunhos também!’. Você acredita em um pedaço de papel e acredita em testemunhas. Por que então tem tanta dificuldade em crer na Bíblia, que também é um pedaço de papel e foi escrita por testemunhas?”[10]

O que deve ser levado em consideração não é se a Bíblia é “um pedaço de papel”, se foi escrita por homens ou se é um livro velho. O que importa é o seu conteúdo, e seu conteúdo revolucionou todo o mundo moderno tanto moral quanto socialmente, transformou milhões de vidas para melhor, trouxe consolo aos que estavam sem esperança, trouxe vida aos que estavam desanimados, trouxe amparo para os que estavam aflitos, mudou a perspectiva do mundo no que tange a assuntos globais como escravidão, opressão de mulheres, opressão aos pobres, preconceito racial, infanticídio e imoralidade, e seus ensinamentos sobre amar ao próximo como a si mesmo e de dar a outra face modificaram totalmente a forma de pensar até então, e criaram uma base sólida para a moralidade e prosperidade do século XXI, que agora está sendo ameaçada pelos humanistas neo-ateus. Se esse for o pedaço de papel em questão, então sim, eu tenho muito orgulho em seguir um livro velho, escrito por homens e incomparável a qualquer outra obra já escrita pelo homem.

Dawkins ainda diz em seu livro:

“Existem coisas estranhas (como a Trindade, a transubstanciação, a encarnação) que não nos cabe compreender. Nem tente entendê-las, porque a tentativa pode destruí-las. Aprenda a se satisfazer chamando-as de mistérios”

É interessante notar que, ironicamente, quem realmente “aprende a se satisfazer chamando de mistérios” são os ateus. O próprio Dawkins costuma declarar sempre que o que havia antes do Big Bang é um “mistério”, que a forma pela qual a primeira vida surgiu é um “mistério”, que a existência de múltiplos universos é “possível, mas não sabemos”, e sempre quando é inquirido sobre temas como livre-arbítrio (que é negado por deterministas como ele) responde dizendo que “não sei”, ou que “não sabemos” (como se ele falasse por toda a comunidade científica!), ou a mais clássica de todas as desculpas: “eu não estou interessado em debater sobre isso no momento”!

Na verdade, todo o ateísmo é um enorme e gigantesco mistério. Os ateus são os mais crentes que existem, pois mesmo sem saber nada sobre coisa alguma, ainda assim dizem com tanta segurança que Deus não existe! O que pode explicar tanta certeza, mesmo sem saber nada sobre nada? É simples: a fé. Os ateus têm fé, e somente fé, de que Deus não existe, e então, mesmo sem saber nada sobre qualquer assunto relevante, colocam essa fé ateísta em ação para encher o peito e dizer: “Deus não existe”! A diferença é que o cristão não hesita na hora de dizer que tem fé em alguma coisa, ele é suficientemente honesto para reconhecer isso. O ateu, em contrário, é um crente dissimulado, que não confessa sua própria fé, e nem quer admitir para os outros que é ateu somente porque tem fé que Deus não existe, e por nenhuma razão além disso.

Por Cristo e por Seu Reino,

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


        




[1] No parágrafo seguinte farei uma exposição bastante breve do argumento, que, é lógico, suscitará contra-argumentações, pois não é possível abordar algo tão complexo dentro de tão poucas linhas. É por essa razão que recomendo a leitura dos argumentos dentro de seu contexto mais amplo, lendo a obra indicada ou acessando diretamente o conteúdo em meu blog sobre ateísmo, nos seguintes links:
1)
http://ateismorefutado.blogspot.com.br/2014/12/as-evidencias-da-ressurreicao-de-jesus.html
2)
http://ateismorefutado.blogspot.com.br/2014/12/as-provas-da-autenticidade-do-sudario.html 
[2] Ver links acima.
[3] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[5] David Robertson, Cartas para Dawkins, Segunda Carta.
[6] Roger Olson, Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 255-256.
[7] Christopher Hitchens, O Cristianismo faz bem para o mundo?
[8] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
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