quinta-feira, 2 de abril de 2015

A pena de morte na lei do Antigo Testamento


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Se você ler Levítico, o livro favorito dos neo-ateus e que perde somente para “Deus, um Delírio”, irá notar algo interessante: morte para todos os lados. Incontáveis crimes eram punidos com pena de morte, e, embora alguns ainda sejam punidos com morte em países desenvolvidos como os Estados Unidos, a maioria deles hoje já não se pune com morte, e outros não sequer se punem. Como explicar então tanta pena de morte? Por que a pena de morte era prescrita para tantos crimes diferentes, e alguns até mais leves para os padrões modernos?

A resposta a esta e outras perguntas é, em primeiro lugar, a estrutura da época. O problema é que todo questionamento que temos quanto à lei do Antigo Testamento vem de uma mentalidade ocidental, moderna e pós-cristã, e muitas vezes é difícil fazer um exercício mental de tentar voltar à época e lidar com as circunstâncias daquele tempo e cultura. Por exemplo, uma sugestão mais fácil que qualquer pessoa poderia sugerir em lugar da pena de morte veterotestamentária seria o de fazer o que fazemos hoje: mandar os bandidos para a prisão, e deixá-los ali pelo tempo proporcional ao crime cometido.

É certo que esta é a melhor opção, e é melhor do que a pena de morte para tantos delitos diferentes descritos na lei de Moisés, mas é a melhor de acordo com a estrutura que temos, e não a melhor de acordo com a estrutura que eles tinham. Se hoje já é um problema construir presídios para colocar ali todos os que infligiram a lei, imagine voltar 3400 anos no tempo. As prisões eram extremamente escassas, muitas vezes se limitando ao palácio real ou a uma fortaleza ou masmorra, para prender pessoas socialmente importantes (era costume da época manter presos os reis vencidos em guerra, exceto quando o comandante do exército decidia matá-los).

Nenhum povo naquela época tinha a estrutura que temos hoje para colocar em presídios todos os que cometeram algum crime, e essa é a razão pela qual você pode pesquisar a lei dos persas, dos gregos, dos babilônicos, dos judeus e de quem quer que seja, e você não encontrará nada parecido com o sistema de leis atuais em relação a ficar tantos anos detidos por tal crime cometido. A razão para isso é que ninguém tinha condições de prover prisões seguras, em quantidade suficiente para que coubesse todos os presos, e muito menos condições de alimentá-los devidamente ao longo de boa parte da vida, tirando o salário daqueles que trabalham honestamente para dar de comer a parasitas sociais que cometeram algum crime e que não trazem benefício algum à sociedade.

Sem presídios suficientes para colocar ali todo mundo que cometesse um crime e sem condições de provê-los por toda a vida, a lei de talião era a única alternativa mais viável para as circunstâncias da época. A lei de talião era o princípio de retaliação, “olho por olho e dente por dente”, que estava na essência e no cerne de toda e qualquer lei da época, de qualquer povo que fosse, porque era a coisa mais viável (ou a única coisa viável) para as limitações da época. A alternativa a isso seria não punir ninguém que cometesse um crime, o que seria uma demência de um nível absurdo, o qual nenhuma nação na história da humanidade foi tão insana de defender.

Qualquer outra lei que decidisse punir alguns e não outros, de forma totalmente arbitrária para não matar tanta gente, seria completamente injusta contra aqueles que fizessem a mesma coisa e fossem punidos. Poderia suscitar uma rebelião popular. A solução era punir todos os crimes de forma arcaica, mas justa e proporcional (naqueles onde era possível aplicar a proporcionalidade) e a pena de morte para os crimes onde a proporcionalidade não poderia ser aplicada.

Havia crimes onde não era possível aplicar a lei de proporcionalidade (olho por olho e dente por dente), como, por exemplo, quando alguém estuprava outra pessoa. Seria perverso ordenar que a pessoa estuprada estuprasse o estuprador. Ou em casos de zoofilia (também proibida na lei de Moisés), seria estúpido se a retribuição fosse que o animal estuprado violasse o estuprador. Para casos como esses, onde a lei de retaliação proporcional não podia ser empregada, a pena de morte era a única saída.

É por isso que aqueles que cometiam atos como estupro, bestialismo, incesto ou outras falhas de ordem moral eram punidos com a morte, ao invés de o estupro, bestialismo ou incesto ser “retribuído”. A ordem geral era: “Eliminem o mal do meio de vós” (Dt.17:7), para que os demais israelitas não fossem contaminados também, e a imoralidade se espalhasse por toda a parte.

De fato, as prescrições da lei de Moisés podem ser divididas em duas partes:

(a) prescrições que dependiam das circunstâncias da época.
(b) prescrições que eram sombras de uma realidade futura.

A pena de morte fazia parte do conjunto de leis que dependiam das circunstâncias da época, mas que avançariam conforme as circunstâncias se desenvolvessem.  O pastor Ubirajara Crespo corretamente observou:

“Uma destas leis diz que o homem deve enterrar suas fezes. Ora, estamos lidando com um mandamento que visava proteger o indivíduo daquela época de uma contaminação. Hoje temos uma rede de esgotos e aparelhos sanitários que nos protegem, uma forma moderna de enterrar as fezes. O princípio é eterno, mas sua aplicação pode ser contextualizada. Visivelmente esta lei foi dada para uma época específica, visando o bene­fício do homem”[1]

Da mesma forma que ninguém seria insano hoje em dia de literalmente enterrar suas fezes na terra para cumprir a lei, ninguém seria insano de matar todas as pessoas que cometessem qualquer crime que a lei de Moisés previa a pena de morte. Hoje temos presídios, hoje temos condições de sustentar as pessoas que ali forem presas, hoje temos todo um conjunto de fatores que favorecem uma análise melhor de cada caso à luz da nossa época. Enterrar as fezes não era a melhor forma de tratar o problema, mas era a melhor de acordo com as opções que eles tinham. Aplicar a pena de morte não era a melhor forma de tratar os problemas, mas era a melhor de acordo com as opções que eles tinham. Tudo deve ser analisado circunstancialmente.

Jesus, antes de enviar seus discípulos para uma viagem missionária, disse para eles calcarem sandálias (Mc.6:9). Isso não significa que todos os evangelistas e missionários dos nossos dias tenham que pregar o evangelho usando havaianas, porque hoje temos coisas melhores para viajar, como tênis ou sapato (no meu caso, melhor o tênis!). Mas, para as circunstâncias da época, a sandália era a melhor opção. Quem consegue entender estes princípios circunstanciais matará vários coelhos da uma vez só, quando o assunto é a problemática da lei de Moisés. Mas ele ainda não conseguirá entender algumas coisas, como Levítico 19:19, que diz:

“Não cruzem diferentes espécies de animais. Não plantem duas espécies de sementes na sua lavoura. Não usem roupas feitas com dois tipos de tecido” (Levítico 19:19)

Essa lei não faz sentido nem para os dias de hoje, nem para aquela época. E é aí que entramos no ponto (b), sobre as leis veterotestamentárias que eram “sombras” de uma realidade vindoura. É difícil tratar um assunto tão complexo e abrangente como esse em poucas linhas, mas, basicamente, existem muitas leis do Antigo Testamento que eram apenas uma prefiguração de uma realidade futura, que é Jesus Cristo (Novo Testamento). É como se Deus estivesse deixando migalhas de pão pelo caminho, que conduzissem aqueles que trilham o Antigo Testamento a chegar e a compreender melhor o Novo.

Essas “sombras” são prescrições que Deus deu na lei do Antigo Testamento e que não fazem sentido nenhum nem para aqueles que a receberam, porque não foram feitas para ter sentido em si mesmas, mas para ser compreendidas com o complemento do Novo Testamento. Alguém que tem só uma peça do quebra-cabeça não vai entender nada sobre a figura, pois só tem uma parte dela. Mas se ele juntar esta peça do quebra-cabeça com as demais peças conseguirá compreender claramente a figura e ter a imagem real de como a figura é.

O Antigo Testamento é uma das peças do quebra-cabeça, que ninguém conseguirá entender sozinho, só se tiver em mãos o Novo Testamento, que são as peças que faltavam para completar e entender o quebra-cabeça como um todo. Os escritores bíblicos neotestamentários tinham o mesmo conceito do quebra-cabeça, mas usando uma analogia diferente, que se aplicava melhor para a época deles: a sombra. Acompanhe comigo essas passagens bíblicas:

“Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo (Colossenses 2:16-17)

A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a realidade dos mesmos. Por isso ela nunca consegue, mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam para adorar” (Hebreus 10:1)

“Eles [os sacerdotes judeus] servem num santuário que é cópia e sombra daquele que está nos céus, já que Moisés foi avisado quando estava para construir o tabernáculo: ‘Tenha o cuidado de fazer tudo segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte’. Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores” (Hebreus 8:5-6)

O pastor Luciano Subirá costuma dar um exemplo prático de como a “sombra” se aplica na questão da lei de Moisés em relação ao Novo Testamento:

“Se eu colocar a mão em cima da Bíblia, eu vou ver projetada aqui na Bíblia por causa da luz aqui do alto a exata silueta da minha mão. É lógico que se eu olhar abaixo da mão, só enxergando a sombra, eu não vou conseguir enxergar todos os detalhes. Não há reprodução exata. Eu não vou conseguir ter o efeito textura da pele, não vai ter a parte colorida, não vai ter o efeito 3D, mas dá para ter uma noção, olhando a sombra, do que está em cima. A revelação do Velho Testamento era só a sombra. Tudo o que eles faziam era olhar a sombra e dizer: ‘vamos andar nisso’. A revelação do Novo nos levou a um lugar maior, de modo que entendemos que aquela sombra era só uma figura dessa mão. Hoje, nós estamos vivendo o ‘tempo da mão’”[2]

Aquilo que era literal para eles, para nós era só uma sombra profética de bens que estariam por se cumprir e que estamos vivenciando agora neste tempo da graça. O Velho Testamento ilustra o Novo, enquanto o Novo explica o Velho. Há numerosas sombras proféticas presentes no Antigo Testamento, mas para citar apenas alguns exemplos:

O sacrifício de cordeiros pelos pecados, que era um símbolo do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, aquele que definitivamente se ofereceu para tirar o pecado do mundo (Jo.1:29).

As leis de “impureza” e de “purificação” que simbolizavam a impureza do pecado e a nossa necessidade de purificação através de Jesus.

A circuncisão, que na lei era uma forma de identificar os israelitas da aliança, era uma figura profética do batismo (Cl.2:1-11).

O descanso do sétimo dia, em que a lei proibia trabalhar, que era uma figura do descanso celestial, o descanso eterno (Hb.4:1-11)[3].

As cidades de refúgio, que eram uma figura da igreja, onde nos refugiamos em Deus.

O tabernáculo terreno, que era símbolo do tabernáculo celestial (Hb.8:5-6).

As várias leis cerimoniais, muitas delas com um simbolismo neotestamentário.

A inimizade entre a descendência da serpente e o descendente de Eva, que era uma figura da luta entre Satanás e Jesus Cristo (Gn.3:15). A serpente conseguiria ferir o calcanhar do descendente da mulher (causar sofrimento a Jesus na cruz), mas este lhe feriria na cabeça (o destruiria no juízo final).

O sumo sacerdote da antiga aliança (que passava o bastão para o próximo sumo sacerdote quando morria), que era uma figura do nosso definitivo e único Sumo Sacerdote [ou Sumo Pontífice], que é Jesus, que vive para sempre para interceder por nós no Céu (Hb.10:21; 5:10; 3:1; 8:1; 6:20).

Os pecados punidos com a pena capital prefiguravam o que aconteceria com aqueles pecadores na morte eterna final.

A punição pelo pecado temporal dada em vida prefigurava a punição final pelo pecado que seria dada após a ressurreição, em tempo proporcional ao delito cometido:

ANTIGO TESTAMENTO
NOVO TESTAMENTO
“Se o culpado merecer açoitamento, o juiz ordenará que ele se deite e seja açoitado em sua presença com o número de açoites que o seu crime merecer (Deuteronômio 25:2)
“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites (Lucas 12:47,48)
Estes são apenas alguns aspectos da lei que eram “sombras” daquilo que mais tarde se tornou a realidade, o quebra-cabeça completo, final e definitivo. Deus deu a Moisés uma revelação parcial, que seria entendida melhor com a revelação final, por intermédio de Jesus. Essa é a razão pela qual muita coisa presente no Antigo Testamento parece obscura e ininteligível para nós em nossos dias. Não é apenas pelas questões circunstâncias (a), mas também por causa da revelação parcial (b), que só se tornou compreensível após a outra peça do quebra-cabeça, a realidade por cima da sombra, a revelação final, o Novo Testamento.

Assim, com a luz do Novo podemos entender melhor as leis que falam sobre não cruzar diferentes espécies de animais, nem plantar duas espécies de sementes na mesma lavoura, nem usar roupas feitas com dois tipos de tecido (Lv.19:19). William Lane Craig falou sobre isso nas seguintes palavras:

“O ponto principal desses regulamentos é proibir vários tipos de mistura. Linhas claras de distinção estão sendo feitas: isso, e não aquilo. Isso servia como uma diária e tangível lembrança de que Israel é um povo especial separado para o próprio Deus. Eu conversei uma vez com um missionário hindu que me disse que a mentalidade oriental tem uma profunda tendência para a mistura. Ele disse que os hindus, ao ouvirem o evangelho, sorriem e dizem, ‘Sub ehki eh, sahib, sub ehki eh!’ (‘Tudo é Um, sahib, Tudo é Um!’). Isso fez com que fosse quase impossível alcançá-los, porque até mesmo contradições lógicas eram incorporadas no todo. Ele disse que acreditava que a razão por que Deus deu a Israel tantas ordens arbitrárias sobre puro e impuro era ensiná-los a Lei da Contradição! Ao estabelecer essas dicotomias fortes e duras, Deus ensinou Israel que qualquer assimilação da idolatria pagã é intolerável. Foi a Sua maneira de preservar a saúde espiritual e a posteridade de Israel”[4]

Hoje, nós podemos olhar para trás e, à luz de nosso conhecimento neotestamentário, entender melhor as “leis de sombra”. Infelizmente, os judeus (excetuando os judeus messiânicos) ainda vivem sob a sombra, pensando que é a própria realidade, o quebra-cabeça completo. Tudo era uma prefiguração da realidade que estaria por vir. Toda a lei era uma trilha que conduz à realidade que é Cristo, o cumprimento da lei. É por isso que ele disse que não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la (Mt.5:17).

Jesus não passou a borracha em tudo, mas explicou o sentido de tudo, a finalidade das figuras tipológicas e sua aplicação real. A lei se cumpriu em Cristo, que era o propósito da lei, assim como a linha de chegada é o objetivo do corredor profissional. O propósito da lei era nos apontar a Cristo e nos conduzir a nova aliança, ao tempo da graça, ao Novo Testamento. A sombra de alguém não é a própria pessoa, nem existe sem a pessoa. A lei era a sombra, Jesus é a realidade.

É como McGrath disse:

“Dawkins adota a visão de que Jesus considerava o Antigo Testamento errado, exigindo correção. Jesus, porém, via-se como cumpridor do Antigo Testamento, transformando-o, portanto. Para usar uma imagem familiar ao Novo Testamento, Jesus não criou o vinho dos evangelhos a partir do nada, mas pegou a água da lei judaica e a transformou em algo melhor”[5]

Eu penso que Mateus 4:16, pelo menos em certo sentido, também é um texto que se refere a isso:

“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz(Mateus 4:16)

Jesus veio trazer luz àquilo que ainda estava obscuro. Os cristãos vivem nessa luz. Há aqueles que ainda estão na sombra, e os ateus nem na sombra estão. Os que estão na sombra ainda conseguem ver alguma coisa, mas os ateus, que não creem nem no Antigo nem no Novo Testamento, não veem simplesmente nada – razão essa pela qual são chamados de “cegos” em sentido espiritual: “Nos quais o deus deste século [Satanás] cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co.4:4).

Como cegos em relação às coisas espirituais, é óbvio que eles não vão mesmo entender o Antigo Testamento, cujo entendimento depende da compreensão do Novo. Neo-ateus, como Dawkins, que só leem Levítico na Bíblia, não irão entender mesmo. Terão uma compreensão tão ou mais limitada que um judeu que rejeita todo o Novo Testamento e crê que a Tanak é a revelação completa e final.

Compreendendo os pontos (a) e (b), as problemáticas em torno de Levítico e da lei de Moisés como um todo se dissipam. Mas ainda pode surgir uma dúvida: por que Deus não apresentou a revelação final de uma vez, ao invés de revelar Sua verdade gradualmente? A resposta é que aquele povo da época não estava preparado para lidar com a moral mais avançada do Novo Testamento. Até no Novo Testamento Jesus diz que há certas coisas que nem seus próprios discípulos estavam preparados para compreender, coisas tais que só vieram à tona mais tarde, em especial com o apóstolo Paulo, sob a inspiração do Espírito Santo que ainda estava para ser derramado sobre os discípulos:

“Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir” (João 16:12-13)

A própria mensagem de Jesus era tão “dura” para os padrões da época que ele terminou na cruz. Mesmo a multidão que costumava segui-lo fazia isso pela comida, principalmente depois da multiplicação dos pães e peixes (Jo.6:26), enquanto outros o seguiam apenas porque buscavam uma cura ou um milagre. Qualquer semelhança com os dias atuais e com os milhões que seguem Jesus somente porque querem sua própria bênção, cura ou milagre não é mera coincidência. Jesus era e ainda é tratado como um Papai Noel celestial, que só vale a pena de ser crido se isso trouxer algum lucro terreno. É uma pena. Ninguém entendia a mensagem de Jesus. Ninguém o seguia por seus ensinamentos ou por aquilo que ele era – o Filho de Deus.

Se foi assim há dois mil anos, quanto mais há três mil anos e meio, quando Moisés trouxe a lei. O povo não estava preparado. Os israelitas repetidamente eram descritos como um povo de “duro coração” (Mc.10:5). Deus precisou tratá-los aos poucos, uma coisa de cada vez. Começou com o Pentateuco, que trazia a Lei, que, embora fosse algo rudimentar para os padrões atuais, já representava um enorme avanço social e moral em relação às leis dos outros povos da época. Com o tempo, Deus foi enviando inúmeros profetas, que repetidamente enfatizavam o amor de Deus, o arrependimento e a justiça. A maioria deles foram rejeitados ou martirizados (Lc.11:47). E a revelação final veio na forma do próprio Filho de Deus, que amplificou toda a visão veterotestamentária, tanto de Moisés quanto dos profetas.

Assim como ninguém ensina conceitos complexos para um bebê (tais como álgebra, física quântica ou o sentido da vida), mas vai ensinando aos poucos, de forma gradual, na medida em que ele é capaz de compreender, assimilar e praticar aquilo, da mesma forma Deus foi tratando com seu povo aos poucos, e a um enorme custo, pois mesmo essa evolução moral gradual não ocorreu sem que muita gente de bem pagasse o preço por conviver em meio a uma sociedade insensível. Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb.13:8), mas seu modus operandi de atuação depende da capacidade de compreensão dos seres humanos com os quais ele interage.

Este conceito foi posto à tona por Jesus em Marcos 10:2-9, na questão do divórcio. Os fariseus queriam colocá-lo à prova, pois sabiam que Jesus estava pregando contra o divórcio, mas a lei não parecia tratar o divórcio como algo errado, dada a naturalidade com a qual ela lidava com a questão. A intenção era colocar Jesus contra a lei, e, consequentemente, contra o povo. Jesus teve então que explicar, fora da lei, por que o divórcio era errado e por que a lei não dizia isso com a rigidez necessária. Em outras palavras: por que Deus “tolerava” o divórcio, se ele desde sempre foi contra:

“Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova, perguntando: ‘É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher?’. ‘O que Moisés lhes ordenou?’, perguntou ele. Eles disseram: ‘Moisés permitiu que o homem desse uma certidão de divórcio e a mandasse embora’. Respondeu Jesus: ‘Moisés escreveu essa lei por causa da dureza de coração de vocês. Mas no princípio da criação Deus ‘os fez homem e mulher’. ‘Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe’” (Marcos 10:2-9)

Ou seja: o propósito original de Deus sempre foi o de que famílias vivessem sempre unidas e que ninguém se divorciasse, mas o divórcio foi dado como uma concessão, não porque Deus queria assim, mas por causa da dureza do coração dos homens. Eles não estavam, naquele momento, preparados para lidar com a questão, e talvez o choque de realidade formado pelo contraste fosse muito grande. A revelação então começou de forma leve, tratando o divórcio como algo comum, e gradualmente tomou a forma mais “dura”, que diz objetivamente que o divórcio é moralmente errado e que deve ser evitado.

O caso do divórcio é somente um exemplo de um princípio maior, que é o de que Deus trabalha com as pessoas através do tempo e de acordo com aquilo que elas são capazes de receber, ao invés de plantar todo o conhecimento pleno de uma só vez para uma geração que ainda não estava apta para recebê-lo. Se Deus tivesse logo de início dado a revelação completa e final a Moisés, o mais provável seria que os israelitas rissem, dessem as costas e fizessem sua própria lei, que seria semelhante à das outras nações e muito pior do que a lei do Antigo Testamento.

Em Atos 17:30, o apóstolo Paulo usa o mesmo conceito de revelação gradual, ao dizer:

No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos 17:30)

No passado Deus tolerou a ignorância daqueles que resistiam ao arrependimento, mas agora ordena que todos os homens se arrependam. Isso não aconteceu de maneira arbitrária, mas de forma calculada e gradual. Os homens de outrora não estavam habilitados a ouvir um ensino tão “duro” (no sentido de se opor tão fortemente ao seu padrão de vida), mas agora, depois de muitas gerações de profetas enviados e de uma evolução gradual no padrão de moralidade, já era chegada a hora em que os homens estariam prontos para ouvir, aceitar e viver sob a revelação completa.

A lei de talião, muito embora parecesse uma lei pavorosa, era uma lei justa, no sentido mais rígido da palavra. Se você cortava a mão de alguém de propósito, tinha sua mão cortada de propósito também. Isso é justiça. Não é misericórdia, mas é justiça. Justiça é dar aos outros o que lhes é devido. Quem semeia trigo não pode colher milho. Se a nota suficiente para aprovar um aluno é 60 e o aluno não estudou suficientemente e tirou 59, o professor está sendo justo ao reprová-lo. Ele pode ser acusado de não ser misericordioso, mas não pode ser acusado de não estar sendo justo. Justiça muitas vezes é um conceito frio, insensível e indiferente, e ao mesmo tempo é totalmente necessário para a convivência humana dar certo. Essa era a lei de Moisés.

Então veio Jesus, que não aboliu a lei. Ele não revogou a justiça, mas acrescentou a misericórdia. O Velho Testamento é só justiça. O Novo é justiça com misericórdia. O Velho diz que alguém que leva um tapa no rosto tem o direito de dar um tapa no rosto do outro também. O Novo não nega que em tese ele teria esse direito, mas apela ao senso de misericórdia que nos instiga a dar a outra face, ao invés de retaliar.

O Velho afirma que todos os homens merecem a morte, porque são todos pecadores. O Novo afirma que todos os homens são mesmo pecadores e merecem mesmo a morte, mas que Deus ainda assim amou ao mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). O Velho afirma que todos carecem da glória de Deus. O Novo afirma que todos carecem da glória de Deus, mas que somos justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus (Rm.3:23-24).

O Velho apresenta uma visão de Deus em que Sua misericórdia se baseia no senso de justiça. O Novo amplifica essa noção de misericórdia ultrapassando todo o senso humano do que é justo, pois Deus fez algo injusto: nos oferece a salvação que não merecemos. O Novo nos apresenta um Deus que além de justiça é graça, que ama a todos de graça e que de graça oferece Sua salvação aos que creem em Seu Filho. A graça é o oposto ao senso comum de justiça, pois é um favor imerecido. É por isso que Tiago diz que “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg.2:13) na perspectiva cristã.

Essa é a razão pela qual a Bíblia diz que nós já não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça:

“Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor (Gálatas 3:23-25).

“Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas” (Romanos 3:21)

“Se os que vivem pela lei são herdeiros, a fé não tem valor, e a promessa é inútil” (Romanos 4:14),

“Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Romanos 6:14)

“Assim, meus irmãos, vocês também morreram para a lei, por meio do corpo de Cristo” (Romanos 7:4)

“Porque o fim da lei é Cristo, para a justificação de todo o que crê” (Romanos 10:4)

Fomos libertados da lei, para que sirvamos conforme o novo modo do Espírito, e não segundo a velha forma da lei escrita” (Romanos 7:6)

“Eu mesmo não estou debaixo da lei” (1ª Coríntios 9:20)

“Por meio da lei eu morri para a lei, a fim de viver para Deus” (Gálatas 2:19)

“Os que são pela prática da lei estão debaixo de maldição” (Gálatas 3:10)

“Se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da lei (Gálatas.5:18)

“Cristo anulou em seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças” (Efésios 2:15)

Os neo-ateus em seus ataques frenéticos contra a Bíblia analisam cegamente apenas a sombra, interpretando-a da pior forma possível, chegando a apelar tão baixo ao ponto de dizer que os cristãos devem seguir Levítico e apedrejar os homossexuais ou os idólatras. Como McGrath afirma, “a repetição dessa tolice subtrai-lhe todo o crédito e sugere apenas que Dawkins espera mesmo que seus leitores acreditem que os cristãos têm o hábito de apedrejar pessoas até a morte. É preciso, mesmo, um confronto com a realidade”[6].

Acompanhar a argumentação neo-ateísta em torno da Bíblia é como contemplar um cego perdido em meio a um tiroteio, ou um desafinado se esforçando para participar em um concerto musical, ou um perneta tentando jogar bola. Você chega a ter pena, pois é nítido que eles não têm talento e nem preparo para a coisa, embora vontade não falte. Uma leitura superficial das Escrituras, sem conhecimento de causa, sem qualquer exegese ou hermenêutica, sem a luz do Novo Testamento e sem nenhum discernimento só poderia resultar no tipo de gente que toma conhecimento da Bíblia através dos livros de Dawkins, Harris e Hitchens. É uma pena.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] Ubirajara Crespo, em “Filho do Fogo – Volume 2”, de Daniel Mastral.
[3] Existem cristãos que não creem que o sábado seja uma sombra, e sim a própria realidade. Eu respeito a opinião deles, embora discorde. Não vou entrar no mérito desta questão aqui, tanto por considerar este assunto de importância secundária que não afeta a salvação, quanto porque isso desviaria o tema tratado no livro. Como este livro retrata o meu ponto de vista da teologia, essa é a minha forma de entender a questão do sábado. O leitor, ateu ou não, que queira entrar mais a fundo nesta questão e decidir por si mesmo quem tem a razão não terá dificuldades em encontrar uma farta literatura sobre o tema para ambos os lados. Quem quiser analisar uma opinião crítica à minha visão eu recomendo o livro “Do Sábado para o Domingo”, do Dr. Samuelle Bacchiocchi, escritor adventista. É, até onde eu sei, a melhor obra no mercado que defende o ponto de vista de que o sábado é a própria realidade.
[5] Alister McGrath, O Delírio de Dawkins.
[6] Alister McGrath, O Delírio de Dawkins. 

2 comentários:

  1. LUCAS MUITO BOM O SEU TEXTO! DEUS É SEMPRE BOM!
    AGORA DEIXA EU LHE PERGUNTAR, VC ACHA VIAVEL CRISTÃOS
    DEFENDEREM A PENA DE MORTE (PARA UMA PESSOA CUJA
    A PUNIÇÃO NÃO SURTIRIA EFEITO? EX: UM CARA QUE ESTUPROU
    A FILHA DURANTE MUITOS ANOS, TEVE FILHOS COM ELA E FEZ COISAS
    HORRIVEIS. ELE JÁ COM VAMOS SUPOR 60 ANOS RECEBE PRISÃO
    PERPETUA. SERÁ QUE ESSA PUNIÇÃO SURTIRIA EFEITO MEDIANTE O ERRO DELE?) ? NÃO TO QUERENDO DEFENDER PENA DE MORTE MAS AS VEZES
    EU FICO PENSANDO SE SERIA VIAVEL OU NÃO. O QUE VC ACHA DISSO? ATÉ
    MAIS!

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    1. Olá, a paz de Cristo.

      Este é um tema difícil, mas, particularmente, eu sou contra a pena de morte por acreditar que a prisão perpétua é milhões de vezes pior para o bandido do que a pena de morte. Com a pena de morte, este estuprador sofreria por frações de segundos e já estaria livre, mas com a prisão perpétua ele teria que pagar e sofrer por anos e anos pelo crime cometido, até morrer (o que é muito mais justo, ao meu ver). Mas é claro que isso só é viável em países em que:

      (1) Haja presídios suficientes para colocar ali todos os bandidos que forem condenados à prisão perpétua.

      (2) Estes presídios façam jus à punição, ao invés de serem lugares acomodativos para os bandidos, como por exemplo as prisões brasileiras onde os detentos conversam no celular dentro da prisão e dali mesmo comandam o crime organizado no país.

      Por isso, CIRCUNSTANCIALMENTE FALANDO, eu seria a favor da pena de morte em nosso país hoje, que carece de novos presídios (uma vez que a quantidade de criminosos está sempre aumentando, mas os presídios não), e que estes presídios nem de longe fazem jus à punição merecida ao estuprador. Mas em um país mais sério, como os de primeiro mundo, eu consideraria sempre a prisão perpétua algo mais condizente em relação ao crime cometido.

      Grande abraço!

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