quinta-feira, 2 de abril de 2015

O destino dos povos não-alcançados

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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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No capítulo 11 deste livro comentei brevemente sobre erros teológicos que acabam maculando a imagem de Deus e do Cristianismo aos olhos dos descrentes. Naturalmente, como este não é um livro apologético contra heresias, eu comentei apenas brevemente sobre alguns dos que eu considero os principais erros, mas penso ser relevante, em um livro como esse, uma explanação maior sobre o destino dos povos não-alcançados (ou seja, daquelas pessoas que morreram sem terem ouvido falar de Jesus por toda a vida), uma vez que apenas escrevi dizendo que eles não estão todos fadados ao inferno inevitavelmente, mas não disse por que e nem de que forma que as coisas poderiam ser diferentes. Boa parte deste estudo sobre o tema é extraído do Apêndice 1 de meu livro “Calvinismo ou Arminianismo – Quem está com a Razão”, com alguns acréscimos que eu achei pertinentes.

O apóstolo Paulo tratou dos povos não-alcançados em sua epístola aos romanos, nas seguintes palavras:

“Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado. Porque não são os que ouvem a Lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos. De fato, quando os gentios, que não têm a lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a lei; pois mostram que as exigências da lei estão gravadas em seus corações. Disso dão testemunho também a consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os. Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho” (Romanos 2:12-16)

Isso nos mostra claramente que há pessoas que nunca ouviram a lei, mas que seriam declaradas justas (v.13). Paulo usou o verbo justificar, no grego dikaioo, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa:

1344 δικαιοω dikaioo
de 1342; TDNT - 2:211,168; v
1) tornar justo ou com deve ser;
2) mostrar, exibir, evidenciar alguém ser justo, tal como é e deseja ser considerado;
3) declarar, pronunciar alguém justo, reto, ou tal como deve ser.

À luz das 39 ocorrências do termo no NT, vemos que ele tem o sentido de declarar justo (justificar), como nos textos abaixo:

“Portanto, ninguém será declarado justo [dikaioo] diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado” (Romanos 3:20)

“Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados [dikaioo] gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3:23-24)

“Pois sustentamos que o homem é justificado [dikaioo] pela fé, independente da obediência à lei” (Romanos 3:28)

“Visto que existe um só Deus, que pela fé justificará [dikaioo] os circuncisos e os incircuncisos” (Romanos 3:30)

Sendo assim, a ocorrência do termo em Romanos 2:13 nos mostra que é possível que alguém que nunca ouviu o evangelho seja dikaioo (declarado justo; justificado). Mas como? Paulo diz que é praticando naturalmente o que a lei moral ordena, mesmo sem ter uma lei escrita (Rm.2:14-15). Essa “lei moral” se refere à lei de consciência “gravada em nossos corações” (Rm.2:15), que todos nós possuímos, e é por meio dela que sabemos aquilo que é moralmente certo e aquilo que é moralmente errado.

Os israelitas já sabiam que o assassinato era proibido antes de Moisés descer do monte com as duas tábuas dizendo que era proibido matar. Isso porque em suas consciências eles podiam distinguir o certo do errado. Conceitos morais como honrar pai e mãe, não assassinar, não roubar, não adulterar e não dar falso testemunho existem em todas as civilizações, mesmo naquelas que nunca tiveram a lei de Moisés ou o evangelho de Jesus Cristo. Mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Jesus sabem que estuprar um bebê é algo moralmente repugnante, porque possuem uma consciência que lhes diz isso (já escrevemos largamente sobre isso no capítulo 7 deste livro, de modo que não é necessário abordarmos isso mais amplamente).

Essa consciência moral foi implantada por Deus no coração de cada pessoa a despeito de qualquer lei escrita (Rm.2:14), e Paulo disse que é possível ser justificado (dikaioo) obedecendo-a, caso se não possua a lei escrita. Em outras palavras, Deus propiciou um meio pelo qual aqueles que nunca ouviram a Palavra escrita (a lei de Moisés ou o evangelho cristão) possam ser justificados, que é a obediência à lei moral.

A salvação permanece sendo pela graça e o salvador continua sendo Deus, mas a ponte que liga o pecador à graça, que no caso de quem conhece Jesus é a fé nEle (“temos acesso pela fé a esta graça” – Rm.5:2; “pela graça sois salvos, por meio da fé” – Ef.2:8), para quem não o conhece Deus sujeitou à própria consciência moral, ao invés de deixar-lhes sem uma “ponte” e sem oportunidade de salvação. Desta forma, os bilhões que nunca ouviram falar de Jesus na vida não estão todos automaticamente condenados, mas tem uma chance pela graça e misericórdia de Deus.

Mas há ainda outra questão aberta: e quanto aos que ouviram? Sabemos que uns nasceram em lar evangélico e desde cedo desfrutaram da Palavra de Deus, outros viveram em lar não-cristão mas puderam ouvir alguma coisa da Palavra, e outros viveram em países afastados e poucas vezes ouviram falar de Jesus. Sendo assim, não haveria mais chances de uma pessoa aceitar Jesus e ser salvo, em relação a outra pessoa que teve menos oportunidade? Afinal de contas, o que sempre ouviu o evangelho não tem mais chances de aceitá-lo e vivê-lo do que aquele que ouviu menos? Não estamos falando de possibilidades desiguais, que tornariam o livre-arbítrio injusto?

Isso tudo seria verdade se não fosse por uma coisa: o princípio bíblico da proporcionalidade. Deus pensou até nisso e decidiu, em sua sabedoria, que aquele que ouviu mais fosse julgado com maior rigor em relação àquele que ouviu menos. Os dois não serão julgados com o mesmo rigor. Isso fica claro a partir da leitura de Lucas 12:48, que diz:

“A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lucas 12:48)

Deus vai cobrar muito mais de quem teve mais conhecimento. Isso ocorre tanto na questão da salvação como também na questão da perdição. Jesus disse que “aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites, mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites” (Lc.12:47-48). A lei da proporcionalidade é clara e evidente, não apenas aqui, mas em diversos outros textos bíblicos. Jesus citou o maior rigor com que Corazim e Betsaida serão julgadas no dia do juízo em relação às cidades de Tiro e de Sidom, porque Corazim e Betsaida viram de perto os milagres de Cristo:

“Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês” (Mateus 11:21-22)

Quando Jesus enviou seus discípulos a pregarem nas cidades, ele disse que as que rejeitassem seriam julgadas com maior rigor do que Sodoma e Gomorra, porque tiveram mais oportunidade de ouvir a Palavra:

“Se alguém não os receber nem ouvir suas palavras, sacudam a poeira dos pés, quando saírem daquela casa ou cidade. Eu lhes digo a verdade: No dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mateus 10:14-15)

O mesmo princípio da proporcionalidade é aplicado aos líderes religiosos. Eles serão julgados com maior rigor, porque são eles que têm a obrigação de ministrar a Palavra, e, consequentemente, de ter mais conhecimento dela:

“Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor” (Tiago 3:1)

Em outras palavras, o princípio da proporcionalidade equilibra a questão. Se por um lado é verdade que um teve mais conhecimento, por outro lado também é verdade que este será julgado com maior rigor do que aquele que recebeu menos. Uma analogia que podemos citar é de uma partida de futebol entre um time da 1ª divisão e um time da 3ª divisão. Teoricamente, o time da 1ª divisão leva vantagem por ter uma equipe mais forte, e o jogo poderia ser considerado “injusto”. Mas suponhamos que esta equipe precise ganhar de pelo menos 3 a 0 da outra para se classificar. Isso volta a equilibrar a balança, em uma condição onde ambos são iguais. Se por um lado um time é mais forte, por outro lado ele precisará fazer mais para vencer.

Esta lei de proporcionalidade retira toda e qualquer acusação de injustiça na questão do livre-arbítrio, e coloca todos sob um mesmo patamar final. Deus nunca trabalhou de maneira injusta e arbitrária, ele sempre trabalhou de forma justa e igualitária, mesmo que a igualdade atue mediante fatores que equilibram. O pensamento resumidamente exposto nas linhas acima é seguido de perto pelos arminianos clássicos como Orton Wiley, que afirmou que “a Palavra de Deus é, em certo sentido [através da lei moral], universalmente proclamada, mesmo quando não registrada em uma língua escrita”[1].

Roger Olson disse também que “o Espírito Santo opera nos corações e mentes de todas as pessoas até certo ponto, dá-lhes consciência das expectativas e provisão de Deus, e as chama ao arrependimento e à fé. Deste modo, a Palavra de Deus é, em certo sentido, pregada universalmente, mesmo quando não registrada em uma linguagem escrita. Os que ouvem a proclamação e aceitam o chamado são conhecidos nas Escrituras como os eleitos. Os réprobos são os que resistem ao chamado de Deus”[2].

Em resumo, o livre-arbítrio não torna nada injusto ou arbitrário. Ele poderia ser injusto se estivesse desassociado do princípio da proporcionalidade, que equilibra as coisas. Mas, quando um está ligado ao outro, temos um perfeito equilíbrio, justo para todos, em uma medida equivalente. Vale ressaltar, por fim, que isso de modo algum anula a necessidade do sacrifício de Jesus para a salvação de toda a humanidade. As pessoas salvas que morreram antes dos tempos de Jesus também não podiam crer que Jesus “morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm.4:25), mas eu não conheço nenhum – nem mesmo o calvinista mais fanático – que sustente a tese de que todos esses que morreram antes de Jesus estão perdidos para sempre!

Da mesma forma, os bebês que morreram antes de alcançar a idade da razão também não criam em Jesus, mas mesmo assim são poucos os que são tão insanos ao ponto de afirmarem que todos esses bebês que morreram sem poder aceitar a Jesus estão no inferno. Esses bebês e os que viveram antes de Jesus, assim como os povos que ainda não foram alcançados, de fato não criam em Jesus, mas também não o rejeitavam. Há uma diferença entre não crer em Jesus e rejeitar a Jesus. Um índio que nunca teve contato com o homem branco pode não crer em Jesus, não porque o rejeita, mas porque nunca ouviu falar dele – algo bem diferente de um Richard Dawkins, por exemplo!

Jesus deixou claro que “se eu não tivesse vindo e lhes falado, não seriam culpados de pecado; agora, contudo, eles não têm desculpa para o seu pecado” (Jo.15:22). Ele também disse que, “se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece” (Jo.9:41). De que modo que isso não anula a necessidade do sacrifício de Cristo? Porque se Jesus não tivesse morrido numa cruz e ressuscitado dos mortos, nem mesmo essas pessoas poderiam ser salvas por obedecerem à lei de consciência moral! O sacrifício voluntário de Jesus foi o que possibilitou que pessoas fossem salvas – tanto os israelitas que viveram antes dele e obedeceram a lei, como também todos os que nunca ouviram falar de Jesus e obedeceram a lei moral, e todos os bebês.

Se não fosse por Jesus, ninguém seria salvo. Com Jesus, a salvação é possível. O propósito é que todos creiam, mas, se isso não for possível a alguém (pelas razões já explicitadas), não significa que ela está necessariamente perdida – a não ser que ela quebre a lei moral que Deus lhe deu. Assim também, aquele que rejeita deliberadamente o que Jesus fez por ele, mesmo depois de saber o que Jesus fez por ele, não tem como ser salvo, pois está fechando para si mesmo a porta da salvação, cavando um abismo entre si mesmo e Deus.

Por Cristo e por Seu Reino,

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


        




[1] WILEY, H. Orton. Kansas City, Mo.: Beacon Hill, 1941, v. 2, p. 341.
[2] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 45.

3 comentários:

  1. Engraçado que essa doutrina sua é muito semelhante à doutrina católica da salvação dos não-cristãos.

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    1. A doutrina da Igreja Romana sobre a salvação dos não-católicos oscilou ao longo dos séculos, como eu mostrei neste artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2015/12/afinal-ha-salvacao-fora-da-igreja.html

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