quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Lei de Moisés era imoral e monstruosa?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Não satisfeito em acusar Deus de genocídio por causa de uma guerra moralmente justificável, Dawkins direciona sua infantaria pesada contra a lei do Antigo Testamento, dada por Deus a Moisés. O problema é que Dawkins não usa do menor critério ao julgar a lei veterotestamentária à luz da cultura da época, que é o que ele faz quando tenta eximir os seus amigos ateus ou esquerdistas dos crimes de racismo. Ele, por exemplo, poupa o agnóstico Thomas Henry Huxley (que ele descreve como um “progressista esclarecido e liberal”) da acusação de racismo, mesmo ele tendo escrito isso:

“Nenhum homem racional, conhecedor dos fatos, acredita que o negro médio seja igual, muito menos superior, ao homem branco. E, se isso for verdade, é simplesmente implausível que, quando todas as suas incapacidades forem removidas, e nosso parente prognata tiver um ambiente justo, sem favorecimento, mas também sem opressor, consiga concorrer de forma bem-sucedida com seu rival de cérebro maior e mandíbula menor, numa competição que leve em conta ideias e não mordidas. Os postos mais elevados na hierarquia da civilização certamente ficarão fora do alcance de nossos primos escuros”[1]

O que Dawkins fez diante dessa gravíssima declaração claramente racista? Será que ele repudia Huxley com todas as forças e o chama de monstro moral e psicopata, como faz com o Deus do Antigo Testamento? Lamentavelmente não. Dawkins demonstra não ter critério nenhum ao exaurir Huxley da acusação de racismo pela declaração acima, sob a alegação de que a cultura do seu tempo era assim mesmo. Mas em relação à Bíblia ele ignora completamente a cultura da época e taca-lhe pau no Deus da Bíblia. Se isso não é pura desonestidade intelectual, eu sinceramente não sei o que é!

Se usarmos de critério e compararmos a lei do Antigo Testamento com a cultura dos outros povos da época, ficaremos realmente maravilhados com o progressismo moral que a lei de Moisés representava em relação às leis dos demais povos. Depois da lei do Antigo Testamento, o código antigo de leis mais bem preservado é o Código de Hamurabi, escrito antes mesmo de Moisés, em 1700 a.C. O monólito com o código foi encontrado na Mesopotâmia, em 1901, durante uma expedição francesa. Hoje a versão completa se encontra disponível na internet em alguns sites[2], de modo que qualquer pessoa pode ir lá e comparar as leis de Hamurabi com as de Moisés.

O Código de Hamurabi consiste em 282 leis, dentre as quais podemos destacar:

Se alguém enganar a outrem, difamando esta pessoa, e este outrem não puder provar, então que aquele que enganou deve ser condenado à morte.

Isso significa que se uma pessoa é violentada mas não possui provas suficientes de que aquela determinada pessoa a violentou, ela é condenada à morte, pelo crime de “difamação”. A lei de Moisés não prevê qualquer pena para quem não tem provas suficientes (se não havia provas, o réu era simplesmente absolvido), e nos casos onde ficava provado que o acusador estava mentindo a punição era proporcional à acusação feita (Dt.19:16-21), e não de pena de morte sempre.

A pena de morte também era aplicada aos ladrões:

Se alguém roubar a propriedade de um templo ou corte, ele deve ser condenado à morte, e também aquele que receber o produto do roubo do ladrão deve ser igualmente condenado à morte.

A lei de Moisés, por outro lado, previa apenas o ressarcimento por parte do ladrão, além de mais um quinto daquilo que foi roubado:

“Fará restituição plena, acrescentará a isso um quinto do valor e dará tudo ao proprietário no dia em que apresentar a sua oferta pela culpa” (Levítico 6:5)

Em outra circunstância mais amena, a pena que o ladrão recebia era de pagar trinta vezes o valor do roubo, ou dez vezes mais se tivesse roubado de um servo do rei:

Se alguém roubar gado ou ovelhas, ou uma cabra, ou asno, ou porco, se este animal pertencer a um deus ou à corte, o ladrão deverá pagar trinta vezes o valor do furto; se tais bens pertencerem a um homem libertado que serve ao rei, este alguém deverá pagar 10 vezes o valor do furto, e se o ladrão não tiver com o que pagar seu furto, então ele deverá ser condenado à morte.

Como é mais do que óbvio que o ladrão não teria dinheiro para pagar trinta vezes o valor do roubo (senão nem precisaria ter roubado), a pena de morte por um roubo qualquer era inevitável. E se fosse pego em flagrante roubando, também:

22º Se estiver cometendo um roubo e for pego em flagrante, então ele deverá ser condenado à morte.

O Código de Hamurabi também previa a pena de morte para alguém que arrombasse uma casa (invasão de propriedade), coisa que a lei de Moisés não punia com tamanha severidade:

21º Se alguém arrombar uma casa, ele deverá ser condenado à morte na frente do local do arrombamento e ser enterrado.

O Código de Hamurabi previa pena de morte até por ajudar um escravo a fugir ou por abrigar um escravo fugitivo:

15º Se alguém tomar um escravo homem ou mulher da corte para fora dos limites da cidade, e se tal escravo homem ou mulher, pertencer a um homem liberto, este alguém deve ser condenado à morte. 16º Se alguém receber em sua casa um escravo fugitivo da corte, homem ou mulher, e não trazê-lo à proclamação pública na casa do governante local ou de um homem livre, o mestre da casa deve condenado à morte.

Em direto contraste a isso, a lei de Moisés é muito mais flexível. Ela permitia que o escravo fugisse, que ele se refugiasse entre os israelitas, que continuasse vivendo onde quisesse e pelo tempo que quisesse, e também proibia que alguém o oprimisse ou que o entregasse ao seu senhor:

“Se um escravo refugiar-se entre vocês, não o entreguem nas mãos do seu senhor. Deixem-no viver no meio de vocês pelo tempo que ele desejar e em qualquer cidade que ele escolher. Não o oprimam” (Deuteronômio 23:15-16)

Uma das leis mais esquisitas do Código de Hamurabi é a que diz:

128º Se um homem tomar uma mulher como esposa, mas não tiver relações com ela, esta mulher não será esposa dele.

Parece que as mulheres eram vistas somente como uma propriedade do homem, alguém que está ali com o único propósito de que o homem tenha relações sexuais. O Antigo Testamento apresenta um quadro totalmente diferente em relação às mulheres. É nos dito que a mulher é feita à semelhança de Deus, tanto quanto o homem (Gn.1:27), que o filho deveria honrar a mãe tanto quanto honra ao pai (Êx.20:12), que tanto o pai como a mãe deveriam ser respeitados (Lv.19:3), que o ensino da mãe deveria ser seguido (Pv.6:20), que a esposa é uma “benevolência do Senhor” (Pv.18:22), que a mulher não poderia ser desprezada (Pv.23:22), que o marido é da mulher assim como a mulher é do marido (Ct.6:3), e até a pena para um casal adúltero era a mesma para o homem e a mulher que pecavam (Lv.20:10).

116º Se o prisioneiro morrer na prisão por mau tratamento, o chefe da prisão deverá condenar o mercador frente ao juiz. Caso o prisioneiro seja um homem livre, o filho do mercador deverá ser condenado à morte; se ele era um escravo, ele deverá pagar 1/3 de uma mina em outro, e o chefe de prisão deve pagar pela negligência.

Aqui vemos o filho do mercador sendo condenado à morte sem ter feito nada. O mercador é quem teve a culpa, mas por alguma razão ele não é sequer responsabilizado caso o prisioneiro não fosse um escravo, e no lugar dele quem tinha que morrer era o filho, que não tinha nada a ver com isso! A lei de Moisés apresenta um forte contraste a isso, pois diz:

"Pais não devem ser condenados à morte por conta dos filhos, e os filhos não devem ser condenados à morte por conta dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado” (Deuteronômio 24:16)

Lei semelhante a esta é aquela que pune com a morte o filho de um construtor por causa de um erro não-intencional do construtor:

229º Se um construtor construir uma casa para outrem, e não a fizer bem feita, e se a casa cair e matar seu dono, então o construtor deverá ser condenado à morte. 230º Se morrer o filho do dono da casa, o filho do construtor deverá ser condenado à morte.

E essas não são as únicas vezes em que o Código de Hamurabi prevê pena de morte para o filho por causa do erro do pai:

209º Se um homem bater numa mulher livre e ela perder o filho que estiver esperando, ele deverá pagar 10 shekels pela perda dela. 210º Se a mulher morrer, a filha deste homem deve ser condenada à morte.

De forma misteriosa e sem sentido, se um homem batesse numa mulher grávida e essa mulher grávida morresse, nada acontecia com o homem agressor, mas sim com a filha deste homem, que tinha que ser condenada à morte! Além disso, nota-se claramente o desprezo para vida dentro do ventre, o feto. Matar o feto resultava em míseros 10 shekels de prejuízo, enquanto o prejuízo pela morte da mulher era total, a pena de morte. A lei de Moisés, ao contrário, coloca em igualdade a vida humana no ventre e fora dele. O homem que feria uma mulher grávida e que fizesse esse bebê dentro dela morrer tinha a mesma penalidade de quem matava a própria mulher – vida por vida (Êx.21:23). A vida humana no ventre era valorizada tanto quanto a vida fora dele.

132º Se o "dedo for apontado" para a esposa de um homem por causa de outro homem, e ela não for pega dormindo com o outro homem, ela deve pular no rio por seu marido.

Essa é uma das leis mais terríveis. Bastava que alguém dissesse que certa mulher era adúltera, e mesmo sem apresentar nenhuma prova ou evidência disso a mulher tinha que “pular no rio”. Isso, na linguagem da época, não tinha a ver com aulas de natação, mas com isso:

Se alguém fizer uma acusação a outrem, e o acusado for ao rio e pular neste rio, se ele afundar, seu acusador deverá tomar posse da casa do culpado, e se ele escapar sem ferimentos, o acusado não será culpado, e então aquele que fez a acusação deverá ser condenado à morte, enquanto que aquele que pulou no rio deve tomar posse da casa que pertencia a seu acusador.

Ou seja: “pular no rio” era uma espécie de superstição, onde alguém era obrigado a se jogar em um rio profundo, e se afundasse (sempre afundava) era um “sinal” de que a pessoa era mesmo culpada! Se milagrosamente escapasse da morte no rio pela ajuda dos deuses – e sem ferimentos! – aí sim a mulher seria considerada “inocente”. Basicamente, bastava alguém acusar levianamente uma mulher de adultério, e essa mulher estava fadada à morte.

143º Se ela não for inocente, mas deixar seu marido e arruinar sua casa, negligenciando seu marido, esta mulher deverá ser jogada na água.

“Deixar seu marido”, i.e, se divorciar, era punido com pena de morte para a mulher, mas não há nada semelhante a isto em relação ao homem que quisesse deixar sua mulher. A lei de Moisés, em contraste, não previa punição para quem quisesse se divorciar, embora dissesse que Deus detesta o divórcio e prefere que o casamento seja até que a morte os separe. Jesus inclusive mencionou uma cláusula onde o divórcio é moralmente justificável, que é em casos de adultério (traição), de acordo com Mateus 19:9.

146º Se um homem tomar uma esposa e ela der a este homem uma criada que tiver filhos deste homem, então a criada assume posição de igualdade com a esposa. Porque a criada deu filhos a seu patrão, ele não pode vendê-la por dinheiro, mas ele pode mantê-la como escrava, entre os criados da casa. 147º Se ela não tiver dado filhos a este homem, então sua patroa poderá vendê-la por dinheiro.

Mais uma vez a mulher é vista como uma mercadoria qualquer, cuja única função no mundo é dar filhos. Se desse filhos, não poderia ser vendida; se não desse, “venda-a por dinheiro”!

193º Se o filho de uma amante ou prostituta desejar a casa de seu pai, e desertar a casa de seu pai e mãe adotivos, indo para casa de seu pai, então o filho deverá ter seu olho arrancado.

O filho de uma prostituta ou amante era considerado de segunda classe e sem direitos. Nem sequer poderia viver na casa de seu pai legítimo, senão teria o seu olho arrancado. Nada disso aparece na lei de Moisés, que não faz restrição alguma para que um filho viva na casa de seu pai legítimo, independentemente de ser fruto de um relacionamento conjugal ou extraconjugal.

201º Se ele quebrar o dente de um homem livre, ele deverá pagar 1/3 de uma mina em ouro. 202º Se alguém bater no corpo de um homem de posição superior, então este alguém deve receber 60 chicotadas em público.

Aqui começam as leis de discriminação ao povo mais pobre, de classe inferior. A sociedade da época era dividida entre os awilum (homens livres, proprietários de terra), os muskênum (classe média, funcionários públicos) e os wardum (escravos). Na lei acima vemos que quebrar o dente de um muskênum era muito menos importante do que quebrar o dente de um awilum, onde tinha que receber nada a menos que sessenta chicotadas, sendo poucos os que sobreviviam a tamanha selvageria. Em contraste a isso, a lei de Moisés dizia:

“Não farás acepção da pessoa pobre, nem honrarás o poderoso” (Levítico 19:15)

O Código de Hamurabi também dizia:

203º Se um homem que nasceu livre bater no corpo de outro homem seu igual, ele deverá pagar uma mina em ouro. 204º Se um homem livre bater no corpo de outro homem livre, ele deverá pagar 10 shekels em dinheiro. 205º Se o escravo de um homem livre bater no corpo de outro homem livre, o escravo deverá ter sua orelha arrancada.

Mais uma vez, as leis de preconceito. A pena pelo mesmo crime era significativamente aumentada dependendo do grau social do agredido. Aqui a ordem seguida é: (1) homem que nasceu livre; (2) homem que se tornou livre; (3) homem que ainda não é livre (escravo).

206º Se durante uma briga um homem ferir outro, então o primeiro deve jurar que "Eu não o feri de propósito" e pagar o médico para aquele a quem machucou. 207º Se o homem morrer deste ferimento, aquele que o feriu deve proferir o mesmo juramento, e se o falecido tiver sido um homem livre, o outro deverá pagar 1/2 mina de ouro em dinheiro. 208º Se ele era um homem liberto, ele deverá pagar 1/3 de uma mina.

O preço a ser pago pelo crime depende do nível social da vítima. É mais caro quanto mais “importante” for o indivíduo. É digno de nota que leis assim não existem no Antigo Testamento, e a lei de Moisés dizia explicitamente que era a mesma lei que valia desde o israelita até o estrangeiro:

“Vocês terão a mesma lei para o estrangeiro e para o natural. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 24:22)

O tratamento para com o estrangeiro em Israel também tinha que ser o mesmo tratamento devido aos próprios israelitas:

“O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:34)

No Código de Hamurabi, a lógica de “olho por olho”, “dente por dente” e “vida por vida” não vale quando a agredida é uma mulher grávida, em que o agressor não é punido com a pena capital, mas somente a pagar certa quantia em dinheiro (que qualquer rico teria):

211º Se uma mulher de classe livre perder seu bebê por terem batido nela, a pessoa que bateu deverá pagar cinco shekels em dinheiro à mulher. 212º Se esta mulher morrer, ele deverá pagar 1/2 mina.

A situação piora quando a agredida é uma criada, onde a quantia em dinheiro é muito mais baixa:

213º Se ele bater na criada de um homem, e ela perder seu bebê, ele deverá pagar 2 shekels em dinheiro. 214º Se esta criada morrer, ele deverá pagar 1/3 de mina.
O preconceito também era evidente quando o que estava em jogo era o salário de um médico:

215º Se um médico fizer uma grande incisão com uma faca de operações e curar o paciente, ou se ele abrir um tumor (em cima do olho) com uma faca de operações, e salvar o olho, o médico deverá receber 10 shekels em dinheiro. 216º Se o paciente for um homem livre, ele receberá cinco shekels. 217º Se ele for o escravo de alguém, seu proprietário deve dar ao médico 2 shekels.

Outra coisa que o Código de Hamurabi não trata e parece não dar a menor atenção é aos pobres. As leis são todas regidas para favorecer o mais rico e deixar o pobre cada vez mais pobre. A lei de Moisés, no entanto, é surpreendentemente mais atenta aos necessitados do que qualquer conjunto de leis da época. Nas ofertas pelo pecado, por exemplo, o que estava prescrito era uma ovelha, mas se a família fosse pobre poderia oferecer apenas dois pombinhos:

“Se não tiver recursos para oferecer uma ovelha, trará pela culpa do seu pecado duas rolinhas ou dois pombinhos ao Senhor: um como oferta pelo pecado e o outro como holocausto... Se, contudo, não tiver recursos para oferecer duas rolinhas ou dois pombinhos, trará como oferta pelo pecado um jarro da melhor farinha como oferta pelo pecado. Mas sobre ela não derramará óleo nem colocará incenso, porquanto é oferta pelo pecado” (Levítico 5:7,11)

Outra lei social muito à frente de seu tempo, presente nas páginas do Antigo Testamento, é aquela que proibia a cobrança de juros para os pobres. Não há nada próximo a isso em qualquer outro conjunto de leis da época:

“Se alguém do seu povo empobrecer e não puder sustentar-se, ajudem-no como se faz ao estrangeiro e ao residente temporário, para que possa continuar a viver entre vocês. Não cobrem dele juro algum, mas temam o seu Deus, para que o seu próximo continue a viver entre vocês. Vocês não poderão exigir dele juros nem emprestar-lhe mantimento visando lucro” (Levítico 25:35-37)

A lei de Moisés também proibia que alguém colhesse até as extremidades de sua lavoura, com a finalidade de deixar os alimentos da terra para os pobres que passassem por ali:

“Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até às extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:9-10)

“Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Deuteronômio 24:19)

Mais uma vez, não é preciso dizer que lei como essa não existia em nenhum outro povo da época, onde a colheita total era vista como um direito do proprietário da terra e se um pobre colhesse alguma coisa de sua propriedade seria considerado ladrão, e punido com a morte. Que enorme contraste com a lei de Moisés!

Na lei do Antigo Testamento, Deus também demonstrava seu cuidado e apreço pelos pobres ao proibir que alguém continuasse com o penhor de um homem pobre depois do pôr-do-sol (quando os trabalhadores voltavam do trabalho e iam para casa), e obrigava que o salário do homem pobre fosse pago diariamente e antes do pôr-do-sol, para conseguir sobreviver:

“Se o homem for pobre, não vá dormir tendo com você o penhor. Devolva-lhe o manto ao pôr-do-sol, para que ele possa usá-lo para dormir, e lhe seja grato. Isso será considerado um ato de justiça pelo Senhor, o seu Deus. Não se aproveitem do pobre e necessitado, seja ele um irmão israelita ou um estrangeiro que viva numa das suas cidades. Paguem-lhe o seu salário diariamente, antes do pôr-do-sol, pois ele é necessitado e depende disso. Se não, ele poderá clamar ao Senhor contra você, e você será culpado de pecado” (Deuteronômio 24:12-15)

Mas de todos os casos o exemplo mais notável e extraordinário de ajuda aos pobres era a lei do jubileu, feita exclusivamente para impedir que alguém ficasse miserável:

“Consagrem o quinquagésimo ano e proclamem libertação por toda a terra a todos os seus moradores. Este lhes será um ano de jubileu, quando cada um de vocês voltará para a propriedade da sua família e para o seu próprio clã” (Levítico 25:10)

“[A propriedade] será devolvida no jubileu, e ele então poderá voltar para a sua propriedade” (Levítico 25:28)

O propósito do ano do jubileu, que acontecia a cada período de cinquenta anos, era devolver os terrenos aos seus donos originais. Desta forma, alguém que contraía uma dívida muita grande com algum credor e era obrigado a vender sua propriedade não perpetuava sua pobreza para as demais gerações, pois ainda em vida ele teria gratuitamente a sua propriedade de volta, para começar de novo do zero a sua vida e da sua família. Não apenas isso, mas de cada sete em sete anos todas as dívidas eram quitadas, de modo que era impossível que o rico ficasse cada vez mais rico, e nem o pobre permaneceria na pobreza:

“No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: Todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas” (Deuteronômio 15:1-2)

A mesma lei de Moisés deixava claro que estes princípios de ajuda social, infinitamente mais úteis e benéficos do que um Bolsa Família, existiam “para que não haja nenhum pobre no meio de vós” (Dt.15:4). No Brasil, em pleno século XXI, o pobre recebe uma ajuda do governo numa quantia ínfima de pouco mais de cem reais por família(!), mas continua com todas as dívidas para pagar (que se acumulam cada vez mais) e sem moradia apropriada para viver, e é isso o que perpetua a sua pobreza, mesmo com a infinitesimal ajuda social do governo. Em Israel, há 3400 anos, o pobre tinha a cada sete anos suas dívidas totalmente quitadas e suas propriedades restauradas, e isso sim era efetivo para tirá-lo da pobreza.

Estas leis, exclusivas do Antigo Testamento e sem qualquer paralelo com qualquer outra lei dos demais povos da época, representava um progresso gigantesco em termos de ajuda aos mais necessitados. Nem Dawkins, nem qualquer outro ateu do mundo, desde o mais moderado até o mais fanático, é capaz de mostrar uma única lei antiga dentro de um período de trinta séculos depois da lei de Moisés que se equiparasse nestes aspectos de ajuda social e amparo aos mais pobres. A lei de Moisés foi um verdadeiro marco na história em favor dos mais carentes.

Nela, também é evidente a ênfase na ajuda às viúvas e aos órfãos, que geralmente eram os que mais passavam necessidade. Leia estes textos do Antigo Testamento e tente achar este Deus “injusto, intransigente, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e malévolo” que Dawkins pinta:

“Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno. Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito” (Deuteronômio 10:17-19)

“Não oprimam a viúva e o órfão, nem o estrangeiro e o necessitado. Nem tramem maldades uns contra os outros” (Zacarias 7:10)

“Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva” (Isaías 1:16-17)

“Não maltratem nem oprimam o estrangeiro, pois vocês foram estrangeiros no Egito. ‘Não prejudiquem as viúvas nem os órfãos; porque se o fizerem, e eles clamarem a mim, eu certamente atenderei ao seu clamo’” (Êxodo 22:21-23)

“Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva” (Deuteronômio 27:19)

“O Senhor protege o estrangeiro e sustém o órfão e a viúva, mas frustra o propósito dos ímpios” (Salmos 146:9)

Em Isaías, Deus diz:

“O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda” (Isaías 58:6-8)

Outros avanços morais na lei de Moisés em relação ao seu tempo têm relação com a proibição ao sacrifício humano, prática esta muito comum nos povos antigos. Em lugar disso, o máximo que poderia ser sacrificado em oferta a Deus eram alguns tipos específicos de animais (como as ovelhas), e mesmo esses animais eram reaproveitados, já que os sacerdotes e os levitas comiam este animal ofertado, de modo que o sacrifício não era um “desperdício” (Lv.7:6). Havia alguns casos onde até as próprias pessoas comuns podiam comer do sacrifício oferecido a Deus:

“Quando vocês oferecerem um sacrifício de comunhão ao Senhor, ofereçam-no de modo que seja aceito em favor de vocês. Terá que ser comido no dia em que o oferecerem, ou no dia seguinte; o que sobrar até ao terceiro dia será queimado” (Levítico 19:5-6)

É irônico e até cômico que alguns ateus esbravejem contra a Bíblia por causa do sacrifício de alguns animais prescritos na lei de Moisés, quando estes mesmos ateus comem estes mesmos animais (ou outros) em seu cotidiano (o próprio Dawkins afirmou não ser vegetariano). Ou seja: se um animal é morto para ser ofertado a Deus a depois comido, é uma atrocidade terrível da pior crueldade, mas se quem afirma isso também come um animal [morto] é coisa normal, não tem problema nenhum, é lógico. Eles mostram que o problema não é com a morte do animal em si (já que eles comem animais todos os dias no almoço e na janta), mas com Deus. O que é estranho, já que eles não creem que Deus exista (e que diferença há em se ofertar ao nada para depois comer, em lugar de somente comer?).

A lei de Moisés era também um avanço em relação à adoração, pois apresentava um forte contraste com os outros povos que mutilavam seus próprios corpos numa tentativa de agradar a Deus (algumas dessas religiões pagãs continuam fazendo isso até hoje). Ravi Zacharias escreveu:

“Tome, por exemplo, várias formas de práticas e de adoração orientais. Enquanto escrevia este livro, presenciei muitas. Numa delas, os devotos tinham ganchos espetados pelo corpo. Tinham facas atravessando a pele do rosto e pequenas lanças atravessando a língua. Visões como estas deixam visitantes, adultos e crianças, horrorizados. Temos de perguntar: por que os mesmos intelectuais que criticam as formas ocidentais de espiritualidade não fazem o mesmo com esses grupos?”[3]

É digno de nota que não há nada parecido com isso no judaísmo ou no Cristianismo; ao contrário, o que Jesus prescreve é para adorarmos a Deus “em espírito e em verdade” (Jo.4:24), e não com mutilações ou autoflagelo.

A lei de Moisés representava um avanço moral até mesmo em relação aos soldados. Enquanto nos outros povos os soldados eram obrigados a lutar não importava o que fosse, na lei mosaica havia várias circunstâncias em que era permitido que um soldado se ausentasse da batalha para cuidar da esposa e da família, ou de seu campo ou vinha. Até mesmo os que não tinham coragem suficiente para lutar eram poupados da batalha. Ninguém era obrigado a lutar pelo exército, como ocorre nos dias de hoje, onde muitos são recrutados e vão para a guerra contra a sua vontade:

“Os oficiais dirão ao exército: ‘Há alguém que construiu uma casa e ainda não a dedicou? Volte ele para sua casa, para que não morra na guerra e outro a dedique. Há alguém que plantou uma vinha e ainda não desfrutou dela? Volte ele para sua casa, para que não morra na guerra e outro desfrute da vinha. Há alguém comprometido para casar-se que ainda não recebeu sua mulher? Volte ele para sua casa, para que não morra na guerra e outro case-se com ela’. Por fim os oficiais acrescentarão: ‘Alguém está com medo e não tem coragem? Volte ele para sua casa, para que os seus irmãos israelitas também não fiquem desanimados’” (Deuteronômio 20:5-8)

Levítico 19:11-18, junto aos famosos dez mandamentos (tão conhecidos que eu nem farei questão de passar aqui), são um resumo do progresso moral da lei do Antigo Testamento em relação às leis dos outros povos da época:

Levítico 19
11 "Não furtem. "Não mintam. "Não enganem uns aos outros.
12 "Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus. Eu sou o Senhor.
13 "Não oprimam nem roubem o seu próximo. "Não retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista.
14 "Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas tema o seu Deus. Eu sou o Senhor.
15 "Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça.
16 "Não espalhem calúnias entre o seu povo. "Não se levantem contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor.
17 "Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado.
18 "Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor”.

No desespero em tentar amenizar as várias evidências de um avanço moral da lei de Moisés em relação às demais leis da época, Dawkins solta a pérola que só poderia ter sido dita por alguém que nunca leu a Bíblia na vida:

“A Bíblia é um guia da moralidade entre membros do mesmo grupo, contendo instruções para o genocídio, para a escravização de forasteiros e para a dominação do mundo”

Por “moralidade entre membros do mesmo grupo”, ele quer dizer que todas as instruções morais do Antigo Testamento para Israel limitam-se somente aos israelitas. Em outras palavras, quando a lei diz ao judeu: “amem o próximo”, o que ela está querendo dizer é: “ame outro judeu”. Esta interpretação risível da lei de Moisés é aplicada por Dawkins até a Jesus Cristo(!), dizendo:

“Jesus foi um devoto da mesma moralidade entre membros do mesmo grupo – associada à hostilidade a forasteiros – que era tida como certa no Antigo Testamento. Jesus era um judeu leal. Foi Paulo quem inventou a idéia de levar o Deus judeu aos gentios. Hartung usa um tom mais duro do que eu me atreveria: ‘Jesus teria se revirado no túmulo se soubesse que Paulo estava levando seu plano para os porcos’”

Como é que alguém que afirma algo tão demente pode querer ser levado a sério?

Nós já passamos aqui algumas passagens da lei de Moisés no Antigo Testamento que falam sobre o trato para com os estrangeiros (os não-israelitas que Dawkins diz que o Antigo Testamento despreza), mas vale a pena ver de novo algumas delas:

“Vocês terão a mesma lei para o estrangeiro e para o natural. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 24:22)

“O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:34)

“Se alguém do seu povo empobrecer e não puder sustentar-se, ajudem-no como se faz ao estrangeiro e ao residente temporário, para que possa continuar a viver entre vocês. Não cobrem dele juro algum, mas temam o seu Deus, para que o seu próximo continue a viver entre vocês. Vocês não poderão exigir dele juros nem emprestar-lhe mantimento visando lucro” (Levítico 25:35-37)

“Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até às extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 19:9-10)

“Não se aproveitem do pobre e necessitado, seja ele um irmão israelita ou um estrangeiro que viva numa das suas cidades. Paguem-lhe o seu salário diariamente, antes do pôr-do-sol, pois ele é necessitado e depende disso. Se não, ele poderá clamar ao Senhor contra você, e você será culpado de pecado” (Deuteronômio 24:14-15)

“Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno. Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito (Deuteronômio 10:17-19)

Não oprimam a viúva e o órfão, nem o estrangeiro e o necessitado. Nem tramem maldades uns contra os outros” (Zacarias 7:10)

Não maltratem nem oprimam o estrangeiro, pois vocês foram estrangeiros no Egito. (Êxodo 22:21)

Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva” (Deuteronômio 27:19)

“A assembleia deverá ter as mesmas leis, que valerão tanto para vocês como para o estrangeiro que vive entre vocês; este é um decreto perpétuo pelas suas gerações, que, perante o Senhor, valerá tanto para vocês quanto para o estrangeiro residente” (Números 15:15)

Não neguem justiça ao estrangeiro e ao órfão, nem tomem como penhor o manto de uma viúva” (Deuteronômio 24:17)

"’Eu virei a vocês trazendo juízo. Sem demora vou testemunhar contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente e contra aqueles que exploram os trabalhadores em seus salários, que oprimem os órfãos e as viúvas e privam os estrangeiros dos seus direitos, e não têm respeito por mim’, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:5)

Só nestes textos vemos que:

• A lei para o israelita era a mesma lei que valia para o estrangeiro. Ou seja: se a lei manda amar o próximo, isso vale para os israelitas e para os não-israelitas.

• O estrangeiro tinha que ser tratado da mesma forma que o natural da terra.

• O estrangeiro era amado por Deus e também tinha que ser amado pelos israelitas.

• O estrangeiro tinha que ser ajudado financeiramente pelos israelitas, assim como se ajuda a viúva e o órfão.

• O estrangeiro tinha direitos, assim como o natural da terra.

• Era proibido oprimir, maltratar, fazer injustiça ou se aproveitar de um estrangeiro.

Essa lei veterotestamentária para com os estrangeiros era tão mais avançada em relação aos seus tempos que ela é usada até hoje nas democracias mais evoluídas. Recentemente Obama anunciou um plano de imigração que protege cinco milhões de imigrantes da deportação, e como justificativa disse: “Meus companheiros americanos, nós somos e sempre seremos uma nação de imigrantes. Nós também já fomos forasteiros"[4]. Onde vemos algo parecido a isso na história antiga? Foi em Deuteroronômio 10:19, onde Deus diz:

“Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito” (Deuteronômio 10:17-19)

E isso não é tudo. Qualquer leitor bíblico que já tenha lido o livro de Jonas deve ter ficado impressionado com a misericórdia de Deus para com os ninivitas. O povo de Nínive, que era a antiga capital da Assíria, vivia muito longe de Israel e era um dos povos mais detestados pelo israelita comum e patriota, o típico nacionalista. Como foi que Deus tratou os ninivitas? Ele fez questão de enviar Jonas, um hebreu, para viajar por muito tempo até Nínive, a fim de pregar a mensagem de arrependimento aos ninivitas e poupar aquela nação da destruição.

Isso aconteceu mesmo a contragosto do próprio Jonas, que tentou fugir e foi engolido pelo grande peixe (esta é a parte da história que você conhece). Mas o mais interessante é a continuação, que diz que Jonas pregou em Nínive e os ninivitas realmente se arrependeram. O relato continua mostrando a indignação de Jonas ao ver que o povo de Nínive havia se arrependido:

Jonas 4
1 Mas Jonas ficou profundamente descontente com isso e enfureceu-se.
2 Ele orou ao Senhor: "Senhor, não foi isso que eu disse quando ainda estava em casa? Foi por isso que me apressei em fugir para Társis. Eu sabia que tu és Deus misericordioso e compassivo, muito paciente, cheio de amor e que promete castigar mas depois se arrepende.
3 Agora, Senhor, tira a minha vida, eu imploro, porque para mim é melhor morrer do que viver".
4 O Senhor lhe respondeu: "Você tem alguma razão para essa fúria?”
5 Jonas saiu e sentou-se num lugar a leste da cidade. Ali, construiu para si um abrigo, sentou-se à sua sombra e esperou para ver o que aconteceria com a cidade.
6 Então o Senhor Deus fez crescer uma planta sobre Jonas, para dar sombra à sua cabeça e livrá-lo do calor, e Jonas ficou muito alegre.
7 Mas na madrugada do dia seguinte, Deus mandou uma lagarta atacar a planta de modo que ela secou.
8 Ao nascer do sol, Deus trouxe um vento oriental muito quente, e o sol bateu na cabeça de Jonas, a ponto de ele quase desmaiar. Com isso ele desejou morrer, e disse: "Para mim seria melhor morrer do que viver".
9 Mas Deus disse a Jonas: "Você tem alguma razão para estar tão furioso por causa da planta?" Respondeu ele: "Sim, tenho! E estou furioso a ponto de querer morrer".
10 Mas o Senhor lhe disse: "Você tem pena dessa planta, embora não a tenha podado nem a tenha feito crescer. Ela nasceu numa noite e numa noite morreu.
11 Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?”

Convenhamos que essa seria uma péssima forma de retratar ódio aos não-judeus! Deus demonstrou uma misericórdia e compaixão tão grande para com Nínive que deixou até o próprio profeta irado, pois não queria que os ninivitas se arrependessem e fossem salvos – seu senso de justiça lhe dizia que Deus devia condená-los e ponto. Deus não apenas decidiu salvar Nínive, como deu também uma bela lição ao profeta no que diz respeito a amar os não-judeus. Um ateu tem todo o direito de achar que essa história nunca aconteceu de fato, mas não pode honestamente dizer que o Antigo Testamento ensina o ódio aos não-judeus, quando Jonas e todo o resto da Bíblia ensinam a amar o não-israelita.

Diante disso tudo, somente um poço de ignorância bíblica poderia afirmar ou concordar com a mazela de que a lei do Antigo Testamento prescrevia a moralidade somente para com outro israelita. Eu não me admiro que Dawkins tenha acreditado nisso, pois já sabemos que o seu conhecimento bíblico é vergonhoso. Eu me admiro, sim, que os leitores de Dawkins aceitem tão passiva e acriticamente as infâmias e tolices presentes em seu livro, ao invés de eles mesmos abrirem a Bíblia e avaliarem a veracidade de cada argumento.

Mas e quanto a Jesus? Teria sido ele “um devoto da mesma moralidade entre membros do mesmo grupo”, que contrariaria Paulo em sua decisão de levar o evangelho aos não-judeus? Isso é ainda mais ridículo. Se teve alguém na história antiga que ensinou o amor a todo o gênero humano, expandindo o conceito de “próximo” a todas as pessoas da terra, este alguém foi Jesus. Não é preciso abrir muitos textos bíblicos desta vez, pois todos devem se lembrar da parábola do bom samaritano, contada por Jesus. Um levita e um sacerdote passam perto de um homem quase morto e não fazem nada, e então um samaritano passa por ali e ajuda aquele homem, e Jesus diz que este (o samaritano) era o “próximo”.

Quem eram os sacerdotes? Eram os judeus mais honrados e venerados entre os israelitas, que serviam no Templo. Quem eram os levitas? Eram nada a menos que a tribo escolhida, separada e santificada para o Senhor, dentre todas as tribos de Israel. Jesus fez questão de usar como exemplo dois casos de típicos israelitas que todo mundo consideraria o “próximo”, aqueles a quem devemos amar, respeitar, fazer o bem. Mas nenhum deles fez alguma coisa para ajudar o homem jogado à beira da estrada. E então Jesus cita um samaritano. Quem eram os samaritanos? Eles eram nada a menos que o povo mais detestado pelos judeus na época, a escória, os “ímpios”, tudo aquilo que era o mais distante do conceito de “próximo”.

Os samaritanos eram para os israelitas o que Israel é hoje para o Hamas, ou o que os Estados Unidos são para a Al-Qaeda, ou o que a família, os cristãos, os fetos, os judeus, o trabalho, a verdade e os ricos são para os marxistas. Mas Jesus usa este mesmo grupo tão detestado pelos israelitas da época e os chama de “próximos”, aqueles a quem deveríamos amar como a nós mesmos (Mt.22:39). Jesus foi o maior exemplo de amor e de tolerância para com o diferente.

Ele até rejeitou o entendimento judaico de sua época sobre os “filhos de Abraão”, que era entendido como a descendência natural do patriarca, os filhos segundo a carne. No lugar disso, Jesus disse que todo aquele que pratica as obras que Abraão praticou é um filho espiritual de Abraão, e essa descendência espiritual eram os verdadeiros filhos do pai da fé (Jo.8:39-40,44), incluindo, logicamente, os não-judeus que também creem em Cristo. Paulo não fez nada a mais do que Jesus já tinha preparado. Ele não inventou uma doutrina nova, mas sistematizou um conceito mais abrangente, o qual já era existente. A acusação de Dawkins é, portanto, leviana e falsa.

Dawkins também acusa o Deus do Antigo Testamento de ser ciumento. Mas o ciúme de Deus, como mostra Robertson, “é da mesma forma que um homem espera que sua esposa seja ciumenta se ele começar a dormir com outras mulheres, ou ciumento do mesmo modo que sou protetor dos meus filhos. É sobre proteção, cuidado e honra, não no sentido negativo de inveja”[5].

É impressionante a capacidade que este senhor tem de distorcer absolutamente tudo do caráter do Deus do Antigo Testamento. Ele chega ao cúmulo de usar uma interpretação particular das Testemunhas de Jeová sobre um texto do Apocalipse para fundamentar um suposto “preconceito” contra as mulheres, já que os 144 mil seriam homens, quando o texto em questão é claramente simbólico, em linguagem típica do Apocalipse, onde quase nada é literal. E também foi capaz de dizer que o texto bíblico não é confiável porque mostra Abraão fingindo que Sara é sua irmã em duas ocasiões diferentes, como se nenhuma pessoa pudesse cair no mesmo pecado.

O problema de Dawkins é que ele fala da Bíblia com a mesma propriedade que eu poderia falar sobre física quântica. Alguém com um conhecimento de causa tão superficial deveria se resumir à sua limitação ao invés de se arriscar a palpitar sobre a Bíblia, um campo que ele desconhece completamente, o que fica cada vez mais patente quanto mais ele escreve. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé, “quando a ciência sai do laboratório, ela é sempre opressora”[6]. Seria melhor que Dawkins continuasse no laboratório.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] Citado por Richard Dawkins em “Deus, um Delírio”.
[3] Ravi Zacharias, Por que Jesus é diferente?
[5] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 4.

2 comentários:

  1. Lucas e sobre a passagem em Levitico que Deus trata o leproso de forma injusta? Pq
    ele tem que ser morto?

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    1. Eu não conheço nenhuma passagem que diga que o leproso tinha que morrer. O que realmente vigorava em Israel em relação aos leprosos eram as cidades de refúgio, que eram ao todo sete cidades afastadas do restante do povo, para onde estes leprosos iam, e isso não por preconceito contra eles, mas por uma razão bastante simples: a lepra era uma doença EXTREMAMENTE CONTAGIOSA, e se deixasse eles vivendo junto com as outras pessoas, em pouco tempo todo mundo estaria contaminado. É por isso que era necessário afastá-las do resto do povo, para um local mais isolado, por questão de saúde pública. Mas nunca vi um texto bíblico sequer que mandasse matar um leproso por ser leproso.

      Abraços.

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