quinta-feira, 2 de abril de 2015

A religião e as guerras em nome de Deus


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Pense em uma palavra detestada, odiada, abominada, repudiada, execrada e marginalizada. Pensou? Não, é pior que isso. Tomara que você não se assuste e nem caia de cadeira ao ouvir isso: religião. Vou repetir: r-e-l-i-g-i-ã-o. O poder que essa palavra tem sobre as pessoas é destruidor. Alguns se insuflam de ódio só de ouvir a palavra. Outros fazem guerra por ela ou contra ela. Uma minoria insignificante de “retrógados” e “reacionários” ainda ousa perder o seu tempo defendendo-a. Que sacrilégio!

Nenhuma palavra ou conceito até hoje foi mais atacado e vilipendiado do que a religião. As pessoas parecem sentir prazer em despejar sua cólera nela, e qualquer ataque de fúria contra ela nunca parece ser o bastante. Falar mal da religião e colocar sobre ela todos os problemas do mundo está na moda. Quem detesta a religião em nossa cultura é considerado um refinado “intelectual”, que recebe o aplauso de todos e o apoio incondicional de crentes e descrentes, de teístas e ateístas. Coitada da religião. Até David Robertson, homem de sabedoria destacável, disse em suas Cartas para Dawkins: “Eu odeio a religião!”[1]. Se até ele detesta, então quem poderá defendê-la?

Eu me lembro de ter escrito em 2010 um artigo chamado “Religiosidade e Vida Cristã”[2], em meu website apologiacrista.com. O texto basicamente buscava – veja só que petulância – defender a religião e a religiosidade. Eu não devia ter feito isso. Algum tempo depois, pessoas cristãs, que provavelmente não leram o artigo e só viram o título, me escreveram dizendo que eu era um fariseu, fundamentalista, hipócrita e, é claro, o pior de todos os insultos: religioso!

Eu entendo essas pessoas, porque os pastores das igrejas delas estão todos os domingos descendo o cacete na religião, com chavões super populares e descolados, do tipo: “Mais Jesus, Menos religião”; “Largue a religião e venha para Jesus”; “Sou cristão, religioso não” (ok, eu admito que inventei esta última, mas ficou descolada, é o que importa). Como Gyordano Montenegro disse, “é um tipo de chavão que só atrai adolescentes incultos e adultos que não aprenderam nada desde que foram adolescentes. Qualquer cristão sensato em outra época da humanidade veria nisso a maior tolice e incongruência”[3].

Alguns crentes ficaram particularmente mais irritados depois de eu dizer que não existe um único versículo na Bíblia, nem unzinho, que diga que a religião é algo ruim, ou que não devemos ser religiosos, ou que religiosidade é coisa do capiroto. Elas não admitem ouvir isso porque escutam o contrário, semana após semana, nas igrejas. Não, eles não têm versos que comprovem o contrário, mas o que a Bíblia diz não importa, o que importa é o que o pastor delas diz que a Bíblia diz. Isso sim é o que conta. E para piorar de vez, citei um versículo que afirma[4]:

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1ª Timóteo 1:9)

Como pode isso? Paulo coloca os irreligiosos (e não os religiosos) no mesmo barco dos injustos, obstinados, ímpios, pecadores, profanos, parricidas [que matam o pai], matricidas [que matam a mãe] e homicidas em geral. Como eu não quero ser considerado assassino nem ímpio, prefiro ser “religioso”, que é o inverso de “irreligioso”. O problema que as pessoas têm com a palavrinha horripilante da religião é que elas não entendem nada do significado original dela. Elas pensam que ser religioso significa ser um fariseu, escriba, “mestre da lei”, sinônimo de hipocrisia, falsidade, piedade artificial, adoração sem paixão, repetição de rituais sem sentido ou uma devoção a uma instituição ou denominação religiosa em particular. Mas religião não é nada disso.

Religião, em seu sentido legítimo, vem do latim religare, que significa “religar”, como quando alguém coloca o cabo na tomada. Algumas questões logo vêm à mente. Primeiro, religar o que e a quem? Segundo: por que re-ligar? Religar implica em ligar de novo. Então algo esteve desligado por um tempo. O que isso tem a ver com a fé e o Cristianismo?

Na perspectiva cristã, o homem foi criado para estar em conexão com Deus, relacionado com ele. Diferentemente da crença deísta, os teístas não creem que Deus teve todo o cuidado de criar tudo em seus mínimos detalhes (princípio antrópico), mas depois deixou sua criação largada à sorte ou ao azar. Se você planeja ter um filho e gera um, você presumivelmente não o deixa largado ou abandonado em uma rua qualquer, deixando-lhe completamente desamparado, tendo que se virar por si mesmo. Ao contrário: você cuida daquilo que você planeja. Da mesma forma, Deus cuida dos seus filhos, da criação que é fruto do seu projeto. Ele não é como uma mãe que planeja ter um filho, que dá a luz a ele e depois o abandona em uma vala, deixando-o largado à própria sorte. Não, ele criou o homem para estar em comunhão com ele. Ligado.

Mas então veio o pecado, e o pecado trouxe a separação entre o homem e Deus, pois Deus é santo e não pode conviver com o profano. Desligado. Deus poderia ter deixado o homem desligado para sempre, mas seu amor para com a obra criada o impediu de agir como um deísta. Era necessário religá-lo, e Deus pagaria o preço que fosse necessário para isso. Essa religação é o que chamamos de religião. E é aí que entra em cena a diferença fundamental entre o Cristianismo e todas as demais religiões. Todas as religiões do mundo ensinam o conceito de pecado e separação, mas elas ensinam que o que religa o homem a Deus são as boas obras do próprio homem. Você é um menino bonzinho e por isso vai morar no Céu. Ou seja: o homem que se religa a Deus.

O Cristianismo entende que o homem, por ser naturalmente depravado em função do pecado, não é mais capaz de se religar a Deus por conta própria. Suas próprias boas obras não seriam suficientes para colocá-lo na mesma condição que esteve antes do pecado. Somente Deus pode religar o homem a si mesmo. Isso não depende do próprio homem. Então Deus entra em ação, intervindo no nosso mundo, na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. Ele paga todo o preço necessário para que o homem seja religado a Deus. Ele faz aquilo que nós não poderíamos fazer: ser perfeito. E ele condiciona esta religação à fé nele, que pagou a dívida, assim como alguém tem que depositar no banco um cheque que lhe foi entregue de graça por outra pessoa.

É assim que o Cristianismo chega à conclusão da justificação pela fé, em contraste com todas as outras religiões, que ensinam a justificação por obras. Este foi o ponto em que Martinho Lutero bateu o martelo. A Igreja da época estava martelando no mesmo sentido das outras religiões: faça isso, e vá pro Céu. A fé estava se tornando um elemento secundário. Lutero restaurou o princípio mais básico do Cristianismo, de que o religare é pela fé, e esta fé só pode ser em alguém que cumpriu toda a lei vivendo uma vida perfeita – e este único que foi capaz de viver assim foi Jesus, o único totalmente santo. É a fé em Jesus que nos salva, e Jesus é o religare de Deus para com o homem. Isso é o que distingue o Cristianismo de todas as outras religiões do mundo.

Os neo-ateus sabem perfeitamente contra o que estão lutando quando atacam a religião. Eles não estão atacando uma caricatura da religião, como muitos cristãos fazem. Muitos de nós atacamos a religião por distorcer o significado dela e não entender o religare. Mas os neo-ateus sabem exatamente com o que estão lidando. Eles sabem que a luta deles é contra o próprio religare, porque é contra o próprio Deus que religa. Sua única intenção é obstruir este canal que religa o homem com Deus: a fé. Essa é a razão pela qual empregam todos os esforços em destruir a fé ou menosprezá-la, muitas vezes distorcendo seu verdadeiro sentido.

Mas e as guerras? Pessoas mataram e continuam matando em nome da fé! Isso não significa que a religião é algo do mau, assim como a Capital de Panem em Jogos Vorazes, que Deus é como o Lord Voldemort de Harry Potter e que os religiosos são como os Orcs de O Senhor dos Anéis? É isso que examinaremos a seguir.


As guerras em nome de Deus

Os neo-ateus alegam, com razão, que pessoas matam em nome de Deus. Eles também alegam, com razão, que a religião tem aspectos negativos, e que já foi responsável por muita coisa má no mundo. Eles também alegam, e também com razão, que o mundo seria melhor se não houvesse Inquisição, Cruzadas ou pessoas como Osama Bin Laden. Se Dawkins só ficasse nisso, eu honestamente não teria nada a refutar. Simplesmente viraria a página e pularia para o capítulo seguinte. Não haveria nada de novo. Isso porque todo cristão de bom senso também reconhece e condena todas estas coisas feitas em nome da religião. Não é preciso ser ateu para reconhecer e condenar os erros das religiões.

Dos dez livros que eu já escrevi até hoje (2014), sete foram escritos para refutar, corrigir ou advertir sobre erros – morais, sociais ou doutrinários – existentes dentro da própria comunidade evangélica da qual faço parte[5]. Jesus disse para limpar primeiro o interior do prato, para só depois limpar o exterior dele (Mt.23:26). Em um de meus blogs até publiquei um vídeo onde Christopher Hitchens, que é tão ou mais radical que Dawkins nesta questão, passa dez minutos expondo e denunciando uma série de crimes e atrocidades feitos em nome da fé cristã. Deixei claro que não concordo com uma minoria deles, mas que ele estava certo na grande maioria de seu discurso.

Eu também não teria nenhum problema em publicar página por página de The God Delusion onde Dawkins expõe os males das religiões e acentua tudo aquilo que os religiosos já fizeram de mal no mundo. Eu não sei a razão, mas os neo-ateus em geral pensam que só um ateu pode ver, expor e condenar os erros religiosos, como se nós fôssemos cegos e não pudéssemos fazer o mesmo. Nós podemos, tanto quanto eles, desaprovar e repudiar com todas as forças os pastores que enriquecem em nome da fé ou que só pedem dinheiro na televisão, os padres que abusam de criancinhas, o terrorismo islâmico, bem como as atrocidades históricas, seja da Inquisição ou da venda de indulgências para a salvação.

Invertendo o paradigma, seria como se Dawkins e os outros neo-ateus não pudessem condenar os regimes totalitários oficialmente e declaradamente ateístas, que mataram muitíssimo mais do que os regimes religiosos, só porque Dawkins e os neo-ateus são tão ateus quanto eles eram. Eles podem, e devem, condenar estes regimes com a mesma moral e direito que os religiosos também podem condená-los. Da mesma forma, ninguém precisa ser ateu para condenar os crimes já feitos em nome da fé. Temos o mesmo direito e moral para condená-los, tanto quanto Dawkins e os neo-ateus têm também. Não usamos de dois pesos e duas medidas.

O problema de Dawkins e companhia, que é a razão para este tópico em especial, é que eles extrapolam todos os limites do bom senso ao ir além da mera crítica aos excessos religiosos – coisas que os religiosos também podem fazer e fazem de fato – mas também a afirmar que:

(a) os males causados por uma religião recaem sobre todas elas, como se fossem igualmente más.

(b) o problema não é o extremismo religioso, mas a própria religião em si.

(c) os males causados por extremistas religiosos radicais, terroristas ou malucos recaem sobre todos os cristãos.

(d) o humanismo ateu não leva a nenhum extremismo nem pode causar o mal.

(e) se a religião desaparecer do mundo, os problemas acabam.

Este cinco pontos formam toda a base argumentacional de pessoas como Dawkins, Dennett e Hitchens, e embora seja totalmente fraudulento é desta forma que conseguem convencer algumas mentes instáveis e volúveis até mesmo entre os teístas. Infelizmente, uma mente mais frágil não consegue perceber a fraude nestes cinco pontos. Comecemos com o ponto (a), que é aquele que coloca a culpa de todos os males cometidos por uma religião específica nas costas de todas as outras religiões, que desgraçadamente tem que arcar com o erro de uma religião específica. Robertson denuncia a fraude dizendo:

“Naturalmente, todas as religiões foram indiscriminadamente ajuntadas como uma coisa só. É o equivalente da doutrina do eixo do mal – o mundo está dividido entre os caras bons e os caras maus. Dawkins compartilha esse ponto de vista simplista fundamentalista”[6]

Vamos dar um exemplo prático. Osama Bin Laden e sua facção terrorista formada por extremistas islâmicos colocam alguns de seus comparsas em aviões norte-americanos e os lançam contra as Torres Gêmeas, matando milhares de pessoas. Um observador honesto diria que a culpa é do extremismo islâmico. Ele não diria que a culpa é de todos os muçulmanos, e muito menos que pessoas honestas de outras religiões tenham a culpa também. Mas um neo-ateu fraudulento e desonesto conclui deste episódio que a culpa é da religião em si, e que por isso cristãos, budistas, espíritas, judeus e todos os demais religiosos do mundo são colocados no mesmo barco e indiretamente criminalizados, porque são religiosos.

Assim, o mal causado pelo radicalismo de uma religião específica recai sobre os ombros de quem não tem nada a ver com isso, e onde quer que haja terroristas islâmicos fundamentalistas derrubando prédios ou matando inocentes há um dedo apontado contra os cristãos que condenam estes atos tão ou mais fortemente do que os ateus condenam. Esta técnica é tão fraudulenta e tão descarada que até Sam Harris a expôs e a condenou em uma roda de conversa que teve com Dawkins, Hitchens e Dennett, há alguns anos. Quando Dawkins fez menção a dois extremistas cristãos que mataram médicos abortistas há algumas décadas, Harris tomou a palavra e disse:

“Não podemos colocar isso no mesmo nível. É uma tática da mídia, e de certa forma quase uma obrigação ontológica do ateísmo dizer que todas as crenças são de certa forma equivalentes. A mídia diz: ‘os muçulmanos possuem seus extremistas, e nós temos os nossos’. Mas há um desequilíbrio aí, isso não é uma equação real. A violência que está se produzindo sob a égide do Islã não se pode comparar com o fato de que temos pessoas que mataram médicos abortistas há uma década. Este é um dos problemas que tenho com o conceito de ateísmo. Acho que nos prejudica este discurso onde parece que temos que difundir a luz da nossa crítica do mesmo modo a todas as direções a todo o tempo”[7]

Se até Sam Harris condenou esta técnica inescrupulosa de colocar todas as religiões num mesmo barco e condená-las todas quando uma delas faz algo insano, ou colocar no mesmo nível o extremismo islâmico com o extremismo cristão, então é mesmo de se espantar que ainda haja pessoas problemáticas que ainda sejam atraídas por esta técnica vergonhosa. Como Dawkins se sentiria caso ele fosse culpado pelo ato criminoso de um ateu que esfaqueasse sua esposa ou que fosse traficante de drogas? É desta mesma forma que os cristãos se sentem quando veem os neo-ateus os incriminando por atos extremistas de religiões alheias, que confrontam diretamente a moral cristã.

Afirmar que todas as religiões são igualmente más por causa do extremismo de uma delas é uma falácia tão néscia que os proponentes de tal loucura deveriam sentir vergonha em usar um argumento tão baixo em termos lógicos. Como David Robertson disse, “essa afirmação não tem mais validade do que um homem que divulga que um Rolex não pode ser real porque comprou um relógio falso uma vez, ou uma mulher anunciando que o amor não existe porque certa feita ela teve uma experiência ruim”[8].

Então chegamos ao ponto (b), que é uma tecla na qual Dawkins bate muito: o problema não é o extremismo religioso, mas a própria religião. Ele sabe que se condenar apenas o extremismo não estará fazendo nada a mais do que os próprios religiosos equilibrados já fazem. Então o jeito é apelar, é chutar o balde de uma vez, é destruir o bom senso e culpar toda a religião pelo problema de alguns. Vejamos que deprimente a forma que Dawkins apela neste aspecto, depois de citar alguns exemplos conhecidos de extremismo religioso:

“A mensagem que deve ficar é que devemos pôr a culpa na religião em si, e não no extremismo religioso – como se isso fosse uma perversão horrível da religião de verdade, decente”

A “mensagem que deve ficar” é na verdade uma deturpação grosseira e risível da observação crítica quanto às religiões. Dois extremistas cristãos mataram médicos abortistas há mais de uma década? Então a culpa não é destes extremistas e nem do radicalismo, mas sim do Cristianismo em si, mesmo que o Cristianismo não ensine isso. Católicos mataram pessoas há quase meio milênio, na Inquisição? Então a culpa é do Cristianismo em si, ainda que nenhum católico mate pessoas hoje por causa da fé. Martinho Lutero manifestou opiniões anti-semitas no século XVI? Então o Cristianismo em si é anti-semita e os evangélicos odeiam os judeus.

Esta é a forma desonesta, ordinária e fraudulenta com a qual Dawkins trabalha, culpando a religião em si (incluindo a esmagadora maioria de religiosos decentes e moderados) pelos crimes cometidos por um punhado de gente, às vezes até a um tempo bem remoto. A gente pode até brincar com esta forma ridícula de argumentação. Podemos dizer que porque alguns cientistas foram assassinos e outros até contribuíram para o nazismo então toda a ciência está contaminada, e a “ciência em si” é o problema. É como Robertson disse: “Isso é tão racional quanto eu propor que, porque o Dr. Josef Mengele foi um cientista, todos os cientistas têm culpa e, por conseguinte, a ciência deve ser banida”.

Josef Mengele, para quem não sabe, era um médico nazista que fazia experimentos com judeus nos campos de concentração, torturando-os até a morte para ver o quanto um corpo humano podia aguentar determinada dor. Ele era conhecido como o “Anjo da Morte”. Em suas experiências com humanos, ele injetava tinta azul em olhos de crianças, unia veias de gêmeos, deixava pessoas em taques de água gelada para testar suas resistências, amputava membros e coletava milhares de órgãos para o seu laboratório. Eu vou parar as descrições por aqui, pois há coisas bem piores que não precisam ser mencionadas.

Contudo, por mais cruéis e desumanas que as experiências laboratoriais de Mengele tenham sido, seria estúpido dizer que não devemos repudiar apenas o seu extremismo (e o de outros cientistas semelhantes), mas sim a própria ciência. Mas é com essa lógica deformada que Dawkins conclui que não devemos culpar os extremistas religiosos, mas a religião em si. Por isso A. S. Freitas acentua:

“Dawkins não condena a medicina por erros médicos. A ciência participa ativamente em uma guerra: aquele que for cientificamente mais desenvolvido, maior chance terá de ganhar uma guerra; mas isso não condena a ciência em si; nenhuma lei física propõe a construção de uma arma, mas os homens o fazem pela maldade que há em seus corações. O mesmo se dá em relação à religião”[9]

Em sua obsessão em atacar a religião como um todo, Dawkins chega até ao ponto de dizer:

“Nossos políticos ocidentais evitam mencionar a palavra que começa com R (religião), e em vez disso caracterizam sua batalha como uma guerra contra o ‘terror’, como se o terror fosse uma espécie de espírito ou força, com vontades e razões”

Sim, é isso mesmo. Surpreendentemente, para Dawkins os políticos não estão em guerra contra o terrorismo, mas contra a religião. Isso, obviamente, significa chamar todos os religiosos de terroristas. Ao invés de os terroristas serem vistos como uma minoria de extremistas de outra religião, Dawkins faz tamanho malabarismo mental que transforma a guerra ao extremismo como uma guerra contra toda a religião, como se os Estados Unidos estivessem em guerra contra o Islamismo, ao invés de ser contra os extremistas islâmicos.

Mas Dawkins vai além e diz que a guerra é na verdade contra toda forma de religião, incluindo a cristã. Isso, além de tornar todos os líderes políticos em verdadeiros neo-ateus militantes, é fazer uma caricatura medíocre do verdadeiro sentido da religião. Então ele, depois de citar as atrocidades religiosas cometidas na Índia por extremistas hindus, solta a pérola:

“Assim, o problema da Índia revela-se o problema do mundo. O que aconteceu na Índia aconteceu em nome de Deus. O nome do problema é Deus”

Essa afirmação tosca se torna ainda mais hilária levando em conta que Dawkins não crê que Deus exista, então dizer que “o problema é Deus” equivale a dizer que “o problema não existe”, que não há problema algum. Mas deixemos de lado este aspecto cômico e vamos tentar entender a “lógica” de Dawkins com uma ilustração didática. Pessoas matam por causa do futebol. Cada vez mais se tornam rotineiras as notícias de briga de torcidas organizadas fanáticas por seus clubes, e pessoas que morrem fruto destas brigas. Cada clássico é uma tensão à parte. Podemos dizer seguramente que se o futebol não existisse essas pessoas não teriam morrido. O que aconteceu com esses torcedores foi em nome do futebol. O nome do problema é futebol.

E então? Vamos acabar com o futebol? Vamos fechar todos os estádios, clubes, seleções e colocar um ponto final em todo o mundo da bola? Não. Somente um demente afirmaria uma aberração dessas (ou alguém que odeia futebol!). Obviamente, embora pessoas morram em nome do futebol, o problema é o fanatismo pelo futebol, e não o futebol em si. O futebol pode continuar (graças a Deus!), porque a “lógica” de Dawkins é imprestável.

Ou então tome como exemplo o amor. Coisa maravilhosa, não? Provavelmente não para Dawkins, porque pessoas matam em nome do amor. Quantas vezes você já viu nos noticiários vários casos em que alguém apaixonado por outra pessoa acaba a matando porque não suportou o término do relacionamento? Há alguns anos o caso do assassino Lindemberg Alves ficou muito conhecido no Brasil. Ele havia invadido a casa da ex-namorada, Eloá Pimentel, sequestrando ela e sua amiga Nayara Rodrigues por cinco dias. Ao final dos cinco dias a polícia invadiu o local, Lindemberg ouviu e atirou antes nas duas, matando Eloá e ferindo Nayara. Depois de preso, ele disse em entrevista:

“A intenção era de ficar o máximo de tempo possível com ela, porque eu amava ela. Eu não estava pensando que a polícia ia lá, nem nada. Eu estava pensando em curtir cada minuto com ela, do lado dela”[10]

A maioria das pessoas não vai chamar isso de amor, mas de paixão. Eu concordo. Mas a paixão não é em si mesma algo ruim. Não é ruim que dois namorados ou noivos estejam apaixonados um pelo outro. Deus não criaria a paixão se não fosse por alguma razão útil, nem a seleção natural criaria este sentimento se não fosse necessário. O problema não é a paixão em si, mas o fanatismo, o excesso de paixão que pode levar até uma pessoa normal à loucura. Mas Dawkins, se fosse honesto com sua “lógica”, deveria ser levado a concluir que o que aconteceu com Eloá foi em nome do amor. O nome do problema é amor.

Vamos proibir o amor ou a paixão, então? Não, e isso não seria possível mesmo se Dawkins quisesse. O problema não é a paixão em si, mas o excesso de paixão, quando passa dos limites e a pessoa se vê forçada a fazer literalmente qualquer coisa para ter aquela pessoa, por achar que não consegue viver sem ela. O excesso de paixão funciona como uma droga, mas não a paixão em si.

Ou então pensemos em torno da política. Há miríades de maus políticos que já mataram, especialmente os de índole ateísta. Isso sem falar dos ladrões, corruptos, mensaleiros, petistas e tudo aquilo que há de pior em termos políticos. E quantas vezes você já não viu alguém assassinando um adversário político? Por que Abraham Lincoln e John Kennedy morreram? Eles eram políticos, e, se a política não existisse, eles não teriam sido mortos da forma que foram. Quem os matou só fez isso porque tinha uma visão política diferente, e pensava estar ganhando algo com isso. O que aconteceu com Lincoln e Kennedy foi em nome da política. O nome do problema é política.

Vamos acabar com a política, então? Acabar com vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente? Deixar este país sem leis, sem ordem, sem polícia, vivendo uma anarquia? Não. Isso porque o problema não é a política em si, mas sim o extremismo de alguns dentro da política, que pensam que o fim justifica os meios e por isso acham que não tem problema roubar desde que seja pelo seu partido que irá salvar o mundo. Se Dawkins usasse de critério, teria que acabar não apenas com a religião, mas também com o futebol, com a paixão e com a política.

Mas tem algo que todo mundo gosta e que desde quando a humanidade existe serviu como motivo de guerras e resultou em milhões de mortes: liberdade. Todos gostam de liberdade. Sim, alguns divergem sobre o significado de liberdade. Os comunistas, por exemplo, creem que liberdade é a liberdade deles fazerem o que quiserem e do outro concordar em tudo com eles. Se não concorda, é um “golpista” e será perseguido, caçado e morto. Tente contrariar o governo em Cuba ou na Coreia do Norte para ver o que acontece. Mas mesmo que as pessoas divirjam sobre o significado de liberdade (se vale para todos ou só para si próprio), elas com concordam que liberdade é algo bom.

Mas se tem uma coisa que gerou guerra no mundo foi a liberdade. Colônias em busca da tão sonhada liberdade se rebelaram contra suas metrópoles; escravos que queriam ser livres se juntaram para atacar Roma; operários lutaram para ser livres de seus patrões, e toda a História está cheia de casos onde pessoas, tribos, povos e nações lutaram pela liberdade, e alguns contra a liberdade. Heróis como Espártaco não teriam morrido se não fosse pela liberdade. O que aconteceu com Espártaco foi em nome da liberdade. O nome do problema é liberdade.

Vamos então proibir a liberdade? Não. Algumas guerras pela liberdade foram justas, outras não. Os casos em que houve excesso de alguma parte não servem para impugnar a liberdade em si. Pessoas já fizeram guerra em nome de uma fé religiosa, é verdade, mas também fazem guerra pelos mais variados motivos, que ninguém seria insano de cometer tão absurda generalização ao ponto de dizer que a causa em si é o problema, ao invés de ser o radicalismo em torno daquilo. Como disse Robertson, “o problema não é que os seres humanos sejam basicamente bons e que a religião os torne maus, antes, que usem tudo, inclusive a religião, para justificar o próprio comportamento egoísta”[11].

As pessoas usam muito mais motivos para fazer guerra do que você pensa. A maioria, é claro, se dá por razões políticas, e não religiosas (mas, como vimos, Dawkins não parece ser um anarquista que deseja aniquilar toda a política!). Em 1325, tropas de Modena entraram em Bologna e roubaram um barril de carvalho. Então Bologna declarou guerra para resgatar o barril. O conflito acabou doze anos mais tarde – mas o barril continua em Modena. O barril foi o pretexto usado para a guerra, mas o problema, é claro, não era o barril em si. Assim como o barril, muita gente usa a religião como pretexto para atacar alguém, quando o motivo real é outro.

As Cruzadas, por exemplo, foram antes de tudo batalhas por conquistas de territórios e de novas rotas de comércio. A religião serviu também, mas mais como pretexto. Mesmo se as pessoas envolvidas nem religiosas fossem, é bem provável que as Cruzadas existissem do mesmo jeito, já que a causa real ainda existiria. O outro exemplo bastante citado é o da Irlanda do Norte. É ridículo dizer que aquilo ali é uma guerra religiosa. Há um lado protestante e outro católico, mas isso não significa que a religião tenha sido ou continue sendo a causa do conflito, ao invés de ser um demarcador social. Dawkins chega a reconhecer isso, mas ainda assim insiste que a religião é culpada:

“Sim, sim, é claro que os problemas da Irlanda do Norte são políticos. Realmente houve opressão econômica e política de um grupo sobre o outro, e isso remonta há séculos atrás. Realmente existem ressentimentos e injustiças genuínos, e eles parecem ter pouco a ver com religião; tirando o fato de que – e isso é importante e muitas vezes deixado de lado – sem a religião não haveria rótulos herdados ao longo de muitas gerações. Católicos cujos pais, avós e bisavós estudaram em escolas católicas mandam os filhos para escolas católicas. Protestantes cujos pais, avós e bisavós estudaram em escolas protestantes mandam os filhos para escolas protestantes. Os dois grupos têm a mesma cor de pele, falam a mesma língua, gostam das mesmas coisas, mas é como se pertencessem a espécies diferentes, de tão profunda que é a divisão histórica. E, sem a religião, e a educação de segregação religiosa, a divisão simplesmente não existiria. Os dois teriam se unido por meio de casamentos e há muito tempo se dissolvido um no outro”

A ideia de que a religião é culpada porque foi ela que impediu que os dois se unissem por meio de casamentos é uma apelação bem medíocre para incriminar a religião pelos conflitos na Irlanda do Norte. Será que Dawkins acredita mesmo que, se não fosse pela religião, estes dois grupos que se odeiam tanto por causa de outras razões (como Dawkins admite) iriam se amar e viver de mãos dadas e viver felizes para sempre? É lógico que não.

As mesmas causas que levaram ao conflito são as que o perpetuam. Os dois grupos se odeiam independentemente de religião, e continuariam se odiando mesmo se ninguém mais cresse em Deus. Um grupo não se casaria com o outro, não porque o outro tivesse religião diferente, mas porque alimenta um ódio histórico por razões políticas que fazem com que um veja o outro como um monstro. Como McGrath diz, “não se trata de um fenômeno especificamente religioso. A religião era apenas o demarcador social predominante nessa situação”[12].

Robertson, que já se encontrou com pessoas dos dois grupos na Irlanda do Norte, declarou:

“É mais frequente a religião ser o pretexto, não a causa das guerras e divisões étnicas. Por exemplo, tenho encontrado gente dos dois lados da linha divisória da Irlanda do Norte envolvidos em the Troubles. Nenhum deles achava que estivesse fazendo desordem ou matando por ‘Deus’. Era pela ‘comunidade’ deles, pela ‘tribo’ deles – Deus era apenas uma pessoa útil para se introduzir contra o ante. O IRA, por exemplo, era um grupo marxista que era católico somente no sentido de pertencer a uma comunidade étnica”[13]

E ele ainda conta uma experiência interessante que teve ao conversar com um torcedor do Rangers em uma ocasião:

“Lembro-me de falar a um grupo de jovens do sexo masculino em seu caminho ao estádio Ibrox, casa do Glasgow Rangers, carregando uma flâmula com a declaração ‘Por Deus e pelo Ulster’. Perguntei-lhes se criam em Deus. ‘Não sei – mas somos protestantes!’ ‘Vocês vão à Igreja?’ ‘Não (palavrão apagado). Vamos a Ibrox, por que precisaríamos ir à Igreja?’’ Dawkins, sem dúvida, cita semelhante protestantismo político e étnico como outro exemplo de conflito religioso. Da mesma forma, a guerra entre sunitas e xiitas no Iraque e os conflitos na antiga Iugoslávia são, primordialmente, conflitos étnicos com deuses religiosos tribais sendo invocados como reforços”[14]

De todos os conflitos que há no mundo hoje, somente dois são relacionados pela mídia com a religião: o da Irlanda do Norte e o da Faixa de Gaza. O primeiro já vimos que a religião desempenha papel secundário e subsidiário, servindo como plano de fundo e pretexto das causas reais da existência e permanência dos conflitos, que existiriam com ou sem a religião estar no meio. O segundo, incontestavelmente, é ligado realmente a fatores religiosos em sua origem, mas apenas parcialmente em sua atualidade. Só há um lado que quer matar o outro por razões religiosas.

Desde que Israel voltou a ser um Estado oficial reconhecido pela ONU, tudo o que ele quer é permanecer existindo, da mesma forma que os outros países querem. Isso não tem a ver com religião, tem a ver com sobrevivência e política. Israel quer existir como um Estado judaico e viver em paz. Se isso é um problema, não é o problema religioso – a não ser que a ONU seja considerada uma instituição “religiosa”, já que foi ela quem autorizou e oficializou a criação do Estado de Israel na região.

Não há ninguém que aborde tão bem o confronto na Faixa de Gaza quanto Dennis Prager, que é colunista, radialista, escritor e orador público. Para ele, o problema é que a maioria dos palestinos e muitos outros muçulmanos e árabes não reconhecem o direito de um Estado judaico em Israel existir. Isso acontece desde 1947, quando a ONU votou para dividir a terra chamada Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe. Os judeus aceitaram a partilha da ONU, mas nenhum árabe ou qualquer outro país muçulmano aceitou isso.

Quando o governo britânico decretou a criação do Estado judeu, em 15 de maio de 1948, os exércitos de todos os países árabes vizinhos (Líbano, Síria, Iraque, Jordânia e Egito) atacaram no dia seguinte o recém-criado Estado de Israel a fim de destruí-lo. Porém, para a surpresa mundial, o pequeno Estado judaico sobreviveu. Então isso aconteceu novamente. Em 1967, o ditador egípcio Gamal Abdel Nasser anunciou seu plano, em suas palavras, de “destruir Israel”. Ele deslocou frotas egípcias na fronteira com Israel, e os exércitos dos países árabes circunvizinhos foram também mobilizados para atacar.

No entanto, Israel preventivamente atacou o Egito e a Síria. Israel não atacou a Jordânia, mas a Jordânia o atacou e por isso Israel tomou o controle sobre a terra jordaniana, na margem ocidental do rio Jordão. Pouco tempo depois da guerra, os países árabes foram para Cartum, no Sudão, anunciar seu famoso “três nãos”: sem reconhecimento, sem paz e sem negociações. O que foi que Israel fez? Uma das coisas que Israel fez um pouco depois, em 1978, foi dar toda a Península do Sinai, uma área de terra maior do que o próprio Israel – e com petróleo – de novo ao Egito, porque o Egito, sob uma nova liderança, assinou um contrato de paz com Israel.

Assim, Israel cedeu a terra pelo contrato de paz com o Egito, e tem estado sempre disposto a fazer o mesmo com os palestinos. Tudo o que os palestinos tinham que fazer é reconhecer um Estado judeu e prometer conviver em paz com ele. Mas quando Israel esteve disposto a negociar a terra pela paz, como o fez no ano 2000, quando concordou em dar aos palestinos um Estado soberano em mais de 95% da margem ocidental e toda Gaza, os líderes palestinos rejeitaram a proposta, e em vez disso responderam enviando ondas de terroristas suicidas a Israel.

Enquanto isso, a televisão, o rádio palestino e os currículos escolares continuam cheios de glorificação aos terroristas e demonização dos judeus, e diariamente passando a mensagem de que Israel deveria deixar de existir. Portanto, não é difícil explicar a disputa do Oriente Médio: um lado (Hamas) quer o outro lado (Israel) morto. O lema do Hamas, o governo dos palestinos na Faixa de Gaza, é: “Nós amamos a morte, enquanto os judeus amam a vida”.

Existem 22 Estados árabes no mundo, do Oceano Atlântico ao Índico. Existe apenas um Estado judeu no mundo e é do tamanho do Estado de Nova Jersey. Até o minúsculo El Salvador é maior que Israel. Pense sobre essas duas questões. Se amanhã Israel abaixar suas armas e declarar: “Nós não lutaremos mais”, o que poderia acontecer? E se os países árabes ao redor de Israel também deixassem suas armas e declarassem: “Nós não lutaremos mais”, o que aconteceria? No primeiro caso, haveria uma imediata destruição do Estado de Israel e assassinato em massa do povo judeu. No segundo caso, haveria paz no dia seguinte.

Este é um problema simples de se descrever: um lado quer o outro morto. E, se isso não acontecesse, haveria paz. Nunca houve na área geográfica um Estado chamado Palestina, havia um Estado não-judeu. Israel é o terceiro Estado judeu a existir naquela área. Nunca houve um Estado árabe nem Estado palestino, nem muçulmano ou qualquer outro Estado. Então, por que não pode o Estado judeu ser autorizado a existir?

O que ocorre na Faixa de Gaza não é mais uma guerra santa, ou religiosa. Não é Judaísmo vs Islamismo. É um Estado legítimo e em regime democrático (Israel) tentando preservar seu direto de sobrevivência contra um regime terrorista (Hamas), que nunca respeitou os direitos humanos e é uma das piores facções terroristas do planeta em nossos dias. Eles usam os próprios palestinos como escudo humano, entregando seus civis à morte. Esta facção terrorista, sim, tem motivações religiosas (odeia judeus e não aceita que eles estejam por perto), mas Israel não está em uma guerra religiosa contra os países árabes.

Israel se encontra na mesma condição que os Estados Unidos ao mandar tropas para atacar a Al-Qaeda ou o ISIS. Ele faz isso por razões religiosas? Não. É uma guerra entre Cristianismo vs Islamismo? Óbvio que não. É uma guerra de uma nação democrática contra uma facção terrorista, igual o conflito que Israel vive hoje. Os terroristas do Hamas não falam por todos os muçulmanos. Israel não tem culpa por defender legitimamente seu território. Isso definitivamente não é uma “guerra religiosa”!

Se os terroristas decidissem invadir o Brasil, e o governo brasileiro decidisse se defender e atacar os terroristas, o Brasil é o culpado? Não teríamos que fazer o mesmo que Israel faz hoje, e usar o nosso exército? A diferença é que os terroristas não odeiam brasileiros (a princípio), mas detestam os judeus. E eles reconhecem a legitimidade do Brasil, mas não reconhecem Israel. Se do dia pra noite eles mudassem de ideia em relação ao Brasil e decidissem não reconhecer o nosso país como uma nação de direito e resolvessem aniquilar o povo brasileiro para que a sua vontade prevaleça no mundo todo, teríamos que fazer o mesmo que Israel faz hoje. O conflito é simples de ser entendido e não é nenhuma guerra religiosa, pelo menos não por parte de Israel.

Culpar a religião pelas guerras no mundo, e ainda colocar o Cristianismo no meio disso, é no mínimo leviano. Não há nenhuma guerra legitimamente “religiosa” no mundo hoje, i.e, uma guerra em que um grupo de pessoas que tem tal religião quer aniquilar um grupo de pessoas que tem outra religião, pela única razão de que o outro tem uma religião diferente. Isso não existe no mundo de hoje, e já não existe há muito, muito tempo. Usar como exemplo contrário os terroristas do Hamas ou do Estado Islâmico e colocar sobre o Islamismo toda a culpa por seus terroristas já é errado, mas fazer malabarismo para incluir o Cristianismo e o Judaísmo como culpados pelas legiões de terroristas muçulmanos chega a ser estúpido.

Sequer há uma guerra entre Israel e Palestina, ou entre Israel e um país árabe em especial. A guerra não é de um país contra outro país, mas de um país legítimo em regime democrático (Israel) contra uma facção terrorista (Hamas) que domina aquela região temporariamente. Da mesma forma que quando a polícia invade a favela da Rocinha na busca por traficantes ela não está em guerra contra a favela ou contra o Rio de Janeiro, Israel também não está em luta contra um Estado, mas contra terroristas que estão, neste momento, no comando daquela região, oprimindo o seu próprio povo e usando-os como escudo humano.

O Hamas não representa o povo palestino, da mesma forma que Bin Laden não representava todos os muçulmanos. Israel está em guerra no mesmo sentido que a polícia também está. Um contra o terrorismo, o outro contra o tráfico de drogas. Israel não luta por causa de religião. Ele luta para defender seu território e seu direito legítimo de sobrevivência, contra uma facção terrorista com ideologia de dominação mundial que começa pela destruição dos inimigos em seu “quintal”, neste caso, Israel. Primeiro eles limpam o quintal, só depois avançarão para limpar as outras casas e outras ruas.

É, portanto, totalmente errado culpar o Cristianismo pelos conflitos da Irlanda do Norte, tanto quanto é totalmente errado culpar o Judaísmo pelo conflito na Faixa de Gaza. Se alguém tem culpa, os culpados são somente, como sempre, os terroristas islâmicos. Eu não ouso colocar a culpa dos terroristas islâmicos no islamismo em si, mas mesmo se alguém fizesse isso seria um completo nonsense e non sequitur presumir daí que todas as demais religiões são também culpadas por causa das ondas de terroristas muçulmanos suicidas. Estaríamos caindo no mesmo erro (a) já refutado, o da generalização indevida. Os cristãos e judeus são tão inocentes na questão dos terroristas muçulmanos quanto os ateus são.

Eu não poderia concluir o assunto da guerra na Faixa de Gaza sem antes transcrever aqui algumas palavras de Sam Harris, um dos maiores expoentes do neo-ateísmo e declaradamente anticristão, mas com um diferencial que pesa a seu favor: ele não é esquerdista. Ele ainda tem uma mente sã. Assim, ele pôde fazer uma análise sóbria, equilibrada e racional sobre a guerra em questão sob a perspectiva de um ateu. Isso ocorreu no podcast de 27 de julho de 2014, com o título de “Por que eu não critico Israel?”, que gerou muita polêmica e revolta dos neo-ateus (a maioria dos quais infectados com o distúrbio esquerdista).

Transcreverei aqui as partes mais importantes, que nos ajudam a entender, mesmo que resumidamente, o que ocorre na Faixa de gaza:

“Seja quais forem as coisas terríveis que os israelitas fizeram, também é verdade que eles tem usado mais contenção na sua luta contra os palestinos[15] do que nós americanos ou europeus fizemos em qualquer uma de nossas guerras. Eles têm sofrido mais escrutínio público no mundo do que qualquer outra sociedade já teve enquanto se defendem dos agressores. Os israelenses simplesmente mantém um padrão diferente. E a condenação dada a eles pelo resto do mundo está completamente fora de proporção com o que eles realmente fizeram. É claro que Israel está perdendo a guerra em PR e tem sido assim há anos. Uma das coisas mais irritantes para observadores internacionais sobre a atual guerra na Faixa de Gaza é a perda desproporcional de vidas no lado palestino. Isso não faz sentido moral. Israel construiu abrigos para proteger seus cidadãos. Os palestinos construíram túneis pelos quais eles poderiam realizar aqueles ataques terroristas e sequestrar israelenses. Israel deveria ser responsabilizado por proteger com sucesso sua população em uma guerra defensiva? Eu não penso assim”[16]

Ele também aborda a crucial diferença moral entre Israel e o Hamas:

“A verdade é que existe uma óbvia, inegável e extremamente consequente diferença moral entre Israel e seus inimigos. Os israelenses estão rodeados por pessoas que têm intenções genocidas explícitas em relação a eles. A carta régia do Hamas é explicitamente genocida. Ela olha em relação ao futuro, com base na profecia do Corão, quando a própria terra clamará por sangue judeu, onde as árvores e as pedras vão dizer: ‘Oh, muçulmanos, há um judeu se escondendo atrás de mim. Venha e o mate!’. Este é um documento político. Estamos falando de um governo que foi eleito ao poder pela maioria dos palestinos. O discurso no mundo muçulmano sobre os judeus é absolutamente chocante. Não só existe a negação do Holocausto amplamente difundida, mas também afirmam que ‘o faremos de verdade, se tivermos a oportunidade’. A única coisa mais detestável do que negar o Holocausto é dizer que ele deveria ter acontecido, e se não aconteceu vamos realizá-lo quando tivermos a chance”[17]

E ele prossegue colocando em pauta a mesma questão essencial já feita por Dennis Prager – o que cada lado faria caso tivesse poder para isso:

“Há espetáculos para crianças em territórios palestinos e em outros lugares que ensinam crianças de cinco anos sobre a glória do martírio e sobre a necessidade de matar os judeus. E isso chega ao âmago da diferença moral entre Israel e seus inimigos. Para ver essa diferença moral, você tem que perguntar o que cada um faria se tivesse o poder de fazê-lo. O que os judeus fariam com os palestinos se pudessem fazer o que quisessem? Bom, sabemos a resposta a essa pergunta, porque eles podem mais ou menos fazer o que quiserem. O exército de Israel poderia matar todos em Gaza amanhã. E o que isso significa? Isso significa que, ao soltar uma bomba em uma praia e matar quatro palestinos, como ocorreu semana passada, isso certamente é um acidente. Eles não estão apontando para crianças. Eles poderiam atingir o maior número de crianças que quisessem, mas não estão fazendo isso”[18]

E sobre o lado palestino:

“O que sabemos dos palestinos? O que os palestinos fariam com os judeus em Israel, se o desequilíbrio de poder fosse invertido? Eles nos disseram o que eles fariam. Por alguma razão, os críticos de Israel simplesmente não querem acreditar no pior sobre um grupo como o Hamas, mesmo quando ele declara o pior de si mesmo. Nós já tivemos um Holocausto e vários outros genocídios no século XX. As pessoas são capazes de cometer genocídio. Quando eles nos dizem que pretendem cometer genocídio, devemos ouvir. Há todas as razões para acreditar que os palestinos matariam todos os judeus em Israel, se pudessem. Será que cada palestino apoia o genocídio? Claro que não. Mas um grande número deles e de muçulmanos em todo o mundo apoiaria”[19]

Então ele trata da essencial distinção entre Israel e o Hamas, que pode ser resumida e simbolizada no uso de escudos humanos por este:

“Desnecessário dizer que os palestinos, em geral, e não apenas o Hamas, tem um histórico de usarem alvos não-combatentes inocentes das formas mais chocantes possíveis. Eles se explodem em ônibus e em restaurantes. Eles massacram adolescentes. Eles assassinam atletas olímpicos. Eles agora atiram foguetes indiscriminadamente contra áreas civis. E, novamente, a carta régia de seu governo em Gaza nos diz explicitamente que eles querem aniquilar os judeus, não apenas em Israel, mas em todos os lugares. A verdade é que tudo o que você precisa saber sobre o desequilíbrio moral entre Israel e os seus inimigos pode ser entendido sob o tema dos escudos humanos. Quem usa escudos humanos? O Hamas certamente usa. Eles atiram seus foguetes a partir de bairros residenciais, ao lado de escolas, hospitais e mesquitas. Muçulmanos em outros conflitos recentes, no Iraque e em outros lugares, também usaram escudos humanos. Eles colocam seus rifles sobre os ombros de suas próprias crianças e atiram atrás de seus corpos.
Considere a diferença moral entre o uso de escudos humanos e ser protegido por eles. Essa é a diferença que estamos falando. Os israelenses e outras potências ocidentais estão impedidas, ainda que imperfeitamente, do uso de escudos humanos muçulmanos nesses conflitos, como deveria ser. É moralmente repugnante matar não-combatentes se você pode evitá-los. É certamente abominável disparar através dos corpos de crianças para matar seus adversários. Mas pare um momento para refletir sobre como este comportamento é desprezível, e entender o quanto é cínico. Os muçulmanos estão agindo no pressuposto conhecimento, de fato, que os infiéis com quem lutam, as mesmas pessoas a quem sua religião não faz nada a não ser difamar, serão impedidas pelo uso de escudos muçulmanos. Eles consideram os judeus a desova de macacos e porcos. E ainda contam com o fato de que eles não querem matar não-combatentes muçulmanos.
Agora imagine inverter os papeis aqui. Imagine como seria fátuo, e de fato cômico, para os israelenses tentarem usar escudos humanos para impedirem os palestinos. Imaginem os israelenses segurando suas próprias mulheres e crianças como escudos humanos. Claro, isso seria ridículo. Os palestinos estão tentando matar todos. Matar mulheres e crianças é parte do plano”[20]


(A diferença entre o Hamas e Israel)

Ele prossegue abordando as práticas comuns dos terroristas muçulmanos:

“Há muçulmanos que se explodiram em multidões de crianças, crianças muçulmanas, apenas para atingir soldados americanos que estavam distribuindo doces para elas. Eles cometeram atentados suicidas apenas para enviar um outro suicida para o hospital para aguardar as fatalidades onde, em seguida, explodiu todos os feridos, juntamente com os médicos e enfermeiras que tentavam salvar suas vidas. A cada dia que você ler sobre um foguete israelense que errou o alvo, você pode ler sobre o ISIS[21] no Iraque crucificando pessoas ao lado de uma estrada, cristãos e muçulmanos. Onde está a indignação no mundo muçulmano e na esquerda sobre esses crimes? Onde estão as manifestações, 10 mil ou 100 mil pessoas na capital da Europa contra o ISIS? Se Israel mata uma dúzia de Palestinos por acidente, todo o mundo muçulmano se inflama. Deus me livre se você queimar um Alcorão ou escrever um romance criticando levemente a fé deles. E ainda assim os muçulmanos podem destruir suas próprias sociedades e procuram destruir o ocidente, e você não ouve um pio”[22]

E então conclui:

“Assim, me parece que você tem que ficar do lado de Israel aqui. Você tem um lado que realmente, se pudesse realizar seus objetivos, simplesmente viveria em paz com seus vizinhos, e você tem outro lado que está tentando criar uma teocracia do século VII na Terra Santa. Não há paz a ser encontrada entre essas ideias incompatíveis”[23]

Há muitíssimo mais que poderíamos acrescentar aqui, ao ponto de podermos escrever outro livro apenas para tratar este assunto. Uma das coisas que merecem ser ressaltadas antes de concluirmos essa parte sobre Israel é sua prática de avisar ao inimigo onde vai atacar, antes de atacar. O tenente-coronel David Ram, um dos comandantes das tropas israelitas, afirmou:

“Antes de bombardearmos ou atacarmos um lugar do Hamas, nós avisamos antes. Não existe um único exército no mundo que avisa antes de atacar. Nenhum exército. Nenhum, nenhum, nenhum. Eu estudei na Alemanha, nos Estados Unidos, eu estudei em muitos países e não existe essa de avisar antes. Nós avisamos antes”[24]

Nenhum exército do mundo avisa ao inimigo onde vai atacar, pela razão óbvia de que este aviso prévio abaixa enormemente a efetividade do ataque e dá tempo e chance do inimigo se precaver ao ataque. Numa guerra, um ataque bom é um ataque certeiro, rápido, imprevisível. Nenhum exército avisa antes. Mas Israel avisa. E ele avisa para que a população civil palestina (os não-combatentes) possa fugir dos locais que serão atacados de modo que suas vidas sejam poupadas. Israel usa de mais cautela, precaução e misericórdia em sua guerra do que qualquer civilização ocidental já usou em suas próprias batalhas.

Mesmo assim, às vezes palestinos civis ainda morrem, pois a facção terrorista do Hamas deliberadamente coloca alguns civis nestes lugares de ataque para que morram e depois tenham pretexto para culpar Israel diante da mídia internacional. Eles, os terroristas, não jogam limpo as regras do jogo. Para eles não há regras, o que importa é o genocídio israelense que eles só não fizeram até hoje porque Israel possui um avançado sistema anti-mísseis (que lhe custa muito caro, por sinal). Assim como seria risível esperar que Israel usasse sua própria população civil como escudo humano na guerra, seria risível esperar que o Hamas usasse da mesma humanidade para com os israelenses e avisassem antes de atacar – quando sabemos que eles atiram seus foguetes para onde aponta o nariz, contanto que o nariz esteja apontando para qualquer lugar em Israel[25].

Qualquer um pode comparar a moralidade de Israel com a moralidade do Hamas, que está expressa no estatuto oficial da organização terrorista, que data de 1988. Confira algumas partes que confirmam de forma explícita tudo aquilo que foi analisado aqui[26]:

Art. 7º – O Profeta, que as bênçãos e a paz de Alá recaiam sobre ele, disse: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por matá-los e mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: ‘Oh! Muçulmanos, Oh! Servos de Alá, há um judeu por detrás de mim, venha e mate-o, exceto se se tratar da árvore Gharkad, porque ela é uma árvore dos judeus” (registrado na coleção de Hadith de Bukhari e Muslim).

Art. 13º – As iniciativas, as assim chamadas soluções pacíficas e conferências internacionais para resolver o problema palestino se acham em contradição com os princípios do Movimento de Resistência Islâmica, pois ceder uma parte da Palestina é negligenciar parte da fé islâmica (...) Não há solução para o problema palestino a não ser pela jihad (guerra santa). Iniciativas de paz, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e uma farsa (...) Como consta do Hadith: “O povo de Al-Sha’m é o açoite (de Alá) na Sua terra. Por meio dele, Ele se vinga de quem Ele quer, dentre os Seus servos. Os hipócritas não podem ser superiores aos crentes, e devem morrer em desgraça e aflição”.

Art. 15º – No dia em que o inimigo conquista alguma parte da terra muçulmana, a jihad (guerra santa) passa a ser uma obrigação de cada muçulmano. Diante da ocupação da Palestina pelos judeus, é necessário levantar a bandeira da jihad (guerra santa). Isso exige a propagação da consciência islâmica nas massas, localmente (na Palestina), no mundo árabe e no mundo islâmico. É necessário instilar o espírito da jihad (guerra santa) em toda a nação, reunir todas as fileiras dos combatentes da jihad (guerra santa) envolvendo os inimigos.

Art. 32º – Deixar o círculo do conflito com o sionismo [judeus] é um ato de alta traição; todos os que o fazem devem ser amaldiçoados. “Quem (quando combatendo os infiéis) vira as costas para eles, a menos que seja uma manobra de batalha, ou para se juntar a outra companhia, incorre na ira de Alá, e sua morada deverá ser o inferno. Seu destino será do maior infortúnio” (Alcorão, 8:16).

Como vemos, o Hamas convida oficialmente o povo muçulmano à guerra “santa” contra os judeus, repudia completamente qualquer tentativa de paz na região, amaldiçoa aqueles que não quiserem matar os judeus e, por fim, tem a intenção de matá-los em cada canto do mundo, até mesmo se um deles se esconder em árvores para se proteger. A loucura chega a tal ponto que até as árvores falam para ajudar a massacrar os judeus. O mais importante de tudo isso é que este documento tenebroso não é uma produção feita por meia dúzia de psicopatas ou por uma minoria de rebeldes, mas sim o documento oficial que pauta as ações do Hamas, contra quem Israel está lutando.

Em outras palavras, é obrigação social de cada combatente do Hamas agir em conformidade com este estatuto. Aqueles que agirem assim não estarão fazendo nada além da sua obrigação, de acordo com a perspectiva deles. Com Israel é o exato oposto. O estatuto israelense atual não propaga o genocídio palestino e nem a perseguição, mas apenas a manutenção de sua própria sobrevivência, direito este que lhe é conferido pela ONU. Israel está numa guerra defensiva procurando a paz contra uma entidade terrorista; o Hamas está em uma guerra ofensiva procurando o genocídio contra um Estado democrático de direito.

Podemos resumir tudo isso da seguinte forma: um lado (os terroristas do Hamas) realmente luta por razões religiosas. Eles têm uma ideologia islâmica de dominação mundial, da qual os judeus encabeçam a lista de genocídios. O outro lado (Israel), contudo, não luta por razões religiosas. Ele luta por sobrevivência, e esta sobrevivência é legitimamente apoiada pela ONU, que sancionou a criação do Estado de Israel por razões que não tem nada a ver com a religião. O conflito atual na Faixa de Gaza, portanto, não é uma guerra religiosa, a não ser de um lado só, na conta dos terroristas islâmicos – algo que não é novidade nenhuma.

Perdendo as duas cartas na manga – o da guerra irlandesa e o da guerra palestina – não restam guerras “religiosas” no mundo hoje para os neo-ateus usarem como argumento. Vamos resumir então nossa refutação aos argumentos (a), (b) e (c) do neo-ateísmo:

a)     Os males causados pelo extremismo de uma religião (como o islã) não recaem sobre todas as outras. A generalização indevida, frequentemente utilizada pelos neo-ateus, é uma falácia tão estupidamente ridícula que nem Sam Harris, um dos principais “cavalheiros do neo-ateísmo”, dá crédito a ela. Tanto quanto os ateus não são culpados pelos atos terroristas de radicais islâmicos, os cristãos, judeus, espíritas, budistas, hindus, etc, também não são. As religiões não são iguais.

b)    O problema não é, de modo algum, a religião em si, e sim o extremismo religioso. Culpar a religião em si pelos extremismos de uma religião ou de alguns religiosos é outra falácia medíocre, igualmente refutada com facilidade. Da mesma forma que não culpamos o futebol em si por causa das pessoas que morrem pelo futebol, que não culpamos o amor em si por causa das pessoas que morrem por amor, que não culpamos a liberdade em si pelas pessoas que matam em nome da liberdade, que não culpamos a política em si por causa dos maus políticos ou de quem mata por razões políticas, também é insincero, tolo e desonesto colocar a culpa na religião em si por causa de uma minoria de religiosos radicais que colocam uma bomba nas costas e explodem um prédio, ou que fazem qualquer outra coisa má.

c)     Não há conflitos realmente religiosos no mundo hoje, i.e, guerras causadas e perpetuadas unicamente por causa da religião, quando um grupo quer matar o outro porque tem uma religião diferente. Sim, há grupos em guerra contra outros grupos e estes grupos possuem diferentes religiões, mas as religiões em si não são a razão da guerra, mas um demarcador social. Irlandeses não matam uns aos outros pela religião, nem os judeus defendem seu território em nome da fé. Os únicos que matam por religião, no mundo de hoje, são os terroristas muçulmanos – e culpar todas as religiões por causa deles é voltar à falácia (a).

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] David Robertson, Cartas para Dawkins, Segunda Carta.
[2] Disponível em: http://apologiacrista.com/index.php?pagina=1085066338. O lugar onde você pode me xingar depois de ler este texto é:  http://apologiacrista.com/index.php?pagina=contactos.
[4] Algumas traduções, por razões óbvias, não vertem por “irreligiosos”, preferindo trocar por “profanos” ou “ímpios”. Contudo, o original grego traz a palavra bebelos, que pode significar profano, ímpio ou irreligioso [sem religião] (Concordância de Strong, 952). Considerando que os dois adjetivos anteriores já tinham sido usados por Paulo no mesmo versículo e ele não seria estúpido de repetir desnecessariamente a mesma coisa duas vezes, o sentido deve ser mesmo de “irreligiosos”, i.e, “sem religião”.
[5] Refiro-me a todo o conjunto de igrejas que se consideram evangélicas, desde as mais tradicionais até as mais pentecostais. Não estou me referindo a um denominação A ou B em específico, como se uma única igreja fosse sozinha a responsável por todos os erros.
[6] David Robertson, Cartas para Dawkins, Sétima Carta.
[8] David Robertson, Cartas para Dawkins, Quarta Carta.
[9] A. S. Freitas, As Máscaras do Ateísmo, p. 123.
[11] David Robertson, Cartas para Dawkins, Sétima Carta.
[12] Alister McGrath, O Delírio de Dawkins.
[13] David Robertson, Cartas para Dawkins, Terceira Carta.
[14] ibid.
[15] Nota: Sam Harris repetidamente se refere ao Hamas como “os palestinos”. Eu considero de crucial importantância fazer uma correta distinção entre a facção terrorista do Hamas e “os palestinos” (os civis inocentes e não-combatentes). Harris não parece fazer esta distinção a princípio, embora ela esteja implícita por aquilo que ele diz em seguida, dirigindo-se especificamente ao Hamas.
[16] Disponível em: http://www.samharris.org/blog/item/why-dont-i-criticize-israel. Uma tradução para o português pode ser vista em: https://www.youtube.com/watch?v=r27KAFDSfbU 
[17] ibid.
[18] ibid.
[19] ibid.
[20] ibid.
[21] ISIS é o nome de outra facção terrorista muçulmana, ainda pior do que o Hamas, conhecida como “Estado Islâmico”.
[22] ibid.
[23] bid.
[25] Para aqueles que quiserem entender melhor o conflito entre Israel e o terrorismo, sugiro este ótimo vídeo de 30 min de duração: https://www.youtube.com/watch?v=JTRaKDqjhLA
[26] O estatuto do Hamas pode ser conferido em sua totalidade em: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/documentos/integra-do-estatuto-do-hamas/

2 comentários:

  1. Parabéns por todos os esclarecimentos !!!!

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  2. Só um comentário? Ninguém mais se atreveu a ler esse texto? Pois deveria ser lido, além de explicar muita coisa, acalmaria um pouco essa onda de militância neo-ateista desvairada.

    Sou agnóstico, e digo que seu texto é da hora mesmo. Concordo plenamente contigo. Ateus não deveriam seguir os pensamentos de Dawkins. O cara é uma falácia ambulante.

    O fato é que, do ponto de vista existencial, a ciência sempre vai desbancar a religião, já que a ciência se baseia principalmente na observação dos fatos, retórica e lógica, e a fé é de certa forma a negação da observação.

    Mas é aí que está a maravilha da cultura da religião, a fé pode estimular as pessoas a fazerem coisas maravilhosas, simplesmente por acreditar em algo igualmente maravilhoso, existente ou não.

    Mas, ao invés disso, temos um lado tentando censurar o outro, por conta de uma infantil dor briocular.

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