quinta-feira, 2 de abril de 2015

Crer é também pensar


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Há mais de duas décadas, John Stott escrevia o famoso livro cristão “Crer é Também Pensar”, onde demonstrava, através de inúmeros argumentos e raciocínios bíblicos, que a fé não é algo que se creia irracionalmente, totalmente desprovido de evidências, mas algo que se fundamenta e é apoiado também pela razão. Alguns teólogos contestam isso, sempre sugerindo o texto de João 20:29, em que Jesus diz a Tomé:

“Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” (João 20:29)

No entanto, Tomé não era alguém que não tinha evidência nenhuma da ressurreição de Jesus. Ele tinha o testemunho ocular de todos os outros discípulos, que haviam radicalmente mudado de ânimo ao verem que Cristo estava vivo. Jesus não disse para Tomé crer sem evidência alguma. Da mesma forma, ele não nos pede para crer sem evidências. Em meu livro anterior, “As Provas da Existência de Deus”, discorri por todo o capítulo 5 e 6 sobre as evidências da ressurreição de Jesus[1].

Se Jesus não tivesse ressuscitado e seus discípulos tivessem inventado uma estória sobre a ressurreição, eles não teriam perdido a primeira oportunidade em que se viram em “apuros” para negar a fé no Salvador. Ninguém aceita sofrer e morrer por causa de algo que sabe que é uma mentira. No entanto, os discípulos sustentaram a crença na ressurreição de Jesus até o último instante de suas vidas, o que é uma evidência da honestidade e sinceridade de seus testemunhos sobre a ressurreição de Jesus e seus vários aparecimentos pós-ressurreto. Se os discípulos de Jesus tivessem negado a fé nele ao serem perseguidos e condenados à morte, saberíamos que a ressurreição era meramente uma estorinha inventada.

O que os “céticos” querem que acreditemos é que uma dúzia de discípulos atravessaram a guarda romana bem armada, que guardava vigia do túmulo ao custo de sua própria vida, rolaram a enorme e pesada pedra que fechava o sepulcro, roubaram o corpo de Jesus para inventarem uma estória da ressurreição e depois sofreram por toda a vida e morreram por esta mentira fabricada intencionalmente. Não é preciso ser muito cético para perceber que esta visão não é nem um pouco plausível. A não ser para quem esteja preso em um pressuposto de que intervenções divinas não são possíveis, a ressurreição de Jesus é a alternativa mais provável.

Em suma, o que Jesus estava dizendo a Tomé não era para que este cresse sem evidências, mas sim que ele não precisava de uma evidência extraordinária para crer – bastava seguir o curso natural das evidências que já tinha em mãos. Da mesma forma, nós não vemos Jesus pessoalmente (eu, pelo menos, nunca o vi!), mas não precisamos vê-lo pessoalmente para crer que ele existiu historicamente (temos centenas de provas históricas a este respeito) ou que ele ressuscitou dentre os mortos (temos evidências lógicas e científicas sobre isso também)[2]. A fé não é antagônica à razão, mas, em um sentido bíblico e cristão, fé é confiar naquilo que você tem boas razões para crer.

Essa é a grande falácia no sistema neo-ateísta: eles pensam que é necessário evidências extraordinárias para crer em Deus. Muitos por aí dizem que creriam se Deus (ou um anjo, conforme outras versões) aparecesse diante deles, fisicamente. Nós já vimos que isso é um blefe, porque, mesmo se isto acontecesse, eles continuariam descrendo do mesmo jeito. Essas mesmas pessoas que dizem que “creriam se vissem um Ser transcendental pessoalmente” são as mesmas que acusam de “alucinação” e “delírio” aquelas outras que afirmam terem visto de fato um anjo pessoalmente, ou seja, mesmo que esses ateus vejam um anjo eles não creriam na existência do anjo, mas pensariam que se trata de alguma alucinação ou algo do tipo. Logo, o “desafio” do ateu, no fundo, não passa de um blefe.

Mas há outros problemas com a tese da “evidência extraordinária”. Isso porque, em primeiro lugar, ela parte do princípio de que Deus quer se mostrar pessoalmente a todo mundo, e então, se não o vemos, é porque Ele não existe. Mas quem disse que Deus iria querer aparecer a todos, deste jeito? De onde eles tiraram a ideia de que Deus é obrigado a se mostrar desta forma? E se Deus simplesmente tivesse boas razões para não querer aparecer tão abertamente deste jeito? Se Deus aparecesse a todo mundo desta forma tão “extraordinária”, ninguém poderia honestamente decidir crer ou não crer – esta decisão estaria pré-determinada, pois seria, na prática, impossível não crer. O livre-arbítrio do homem seria violado, e este não é o modus operandi da atuação divina. Deus não costuma violentar o livre-arbítrio de suas criaturas. Se Deus existe, ele vai se revelar conosco através das coisas criadas, e não por violação do livre-arbítrio.

De que forma ele vai se revelar através das coisas criadas? Não estando dentro delas, o que seria uma contradição de termos. Se o Universo é criação de Deus, nós não poderíamos encontrar Deus em alguma parte dentro do Universo, da mesma forma que não encontramos os arquitetos ou engenheiros de uma casa por meio de suas paredes ou teto, mas nem por isso concluímos que aquela casa não tem arquitetos e engenheiros! Um ser que cria a matéria não pode ser contingente a ela. Se Deus criou toda a matéria, ele necessariamente tem que ser independente dela, assim como o arquiteto é independente de sua obra, e não parte da parede da casa. Da mesma forma, o pintor não é parte do quadro pintado. Ele é externo à sua própria criação.

É por isso que Deus é, por definição, imaterial e transcendental. Essa é a razão pela qual ele teve que se transformar em um homem (na pessoa de Jesus) quando veio a terra, ao invés de vir como Deus.

Ninguém fala melhor sobre isso do que C. S. Lewis, quando disse:

“Procurar Deus – ou o Céu – pela exploração espacial é como ler ou assistir todas as peças de Shakespeare na esperança de encontrá-lo num dos personagens, ou Stratford num dos lugares. Shakespeare está de certa forma presente em todos os momentos de cada peça. Mas nunca está presente da mesma maneira que Falstaff ou Lady MacBeth (personagens criados por ele). Tampouco está difuso em uma peça como uma espécie de gás”[3]

Podemos saber que Deus existe, ou que há uma forte possibilidade dele existir, através de argumentos como o cosmológico, o teleológico, o moral, as profecias cumpridas na Escritura, as evidências da ressurreição de Jesus e a própria intuição que nos diz que há um Deus e que este Universo é um projeto, e não um fruto do acaso ou sorte – mas não podemos encontrá-lo literalmente em alguma parte do Universo, razão pela qual ele nunca vai aparecer, como Deus, a alguma pessoa da terra. Para além disso, podemos dizer que Deus de fato já apareceu física e pessoalmente entre nós, na pessoa de Jesus Cristo. Aqueles que vivam na época viram os milagres, e nós que vivemos hoje podemos confirmar que estes milagres aconteceram porque as testemunhas oculares destes milagres não hesitaram em permanecer firmes nestes testemunhos mesmo diante da perseguição e morte.

Deus, portanto, se revela (não-fisicamente) na natureza (argumento cosmológico e teleológico), se revela em nossos corações (argumento da lei moral), se revela nas Escrituras (argumento das profecias cumpridas) e se revela na pessoa de Jesus Cristo (argumento da historicidade e ressurreição de Jesus). O que mais os ateus querem? Seja lá o que for, de uma coisa podemos ter certeza: eles não tem desculpas para a descrença, pois não é por falta de evidências que eles não creem. Eles estão, como já dizia o apóstolo Paulo, “indesculpáveis” (Rm.1:20).

Como se tudo isso não fosse suficiente, compare essas coisas com as possibilidades do inverso delas ser verdadeiro. Isso mesmo: inverta o quadro, e faça o ceticismo deles se voltar contra eles mesmos. Seja cético em relação às teorias dos céticos. Este é o maior problema dos neo-ateus: eles não são suficientemente céticos. Eles são demasiadamente céticos em relação às crenças cristãs, mas nem um pouco céticos em relação às suas próprias crenças. Quem, em sã consciência e em juízo perfeito, sem nenhuma influência externa ou pressupostos, iria realmente acreditar que todo o Universo, ou qualquer coisa que seja, foi criado do nada? Quem, honestamente falando, iria pensar que “era uma vez o nada... e, de repente, Bang – uma matéria surgiu!”? Ninguém. Se isso já é ridículo pensando no senso comum de “nada” (i.e, um “espaço vazio”), imagine então com aquilo que realmente a ciência entende por “nada” – i.e, sem tempo, sem espaço, sem matéria! Crer que o Universo surgiu disso é, realmente, um delírio!

Ou então pense no argumento teleológico, mais uma vez. Com tantas constantes antrópicas (que vimos no capítulo 6), qual é a chance matemática de tudo ter sido fruto do “acaso” ou de “muita sorte”? Nós vimos que a chance é, literalmente, zero. Ou, se você preferir, uma chance de uma em zilhões. Mesmo assim, os ateus são céticos em relação à crença em um Projetista, mas são extremamente crédulos em relação às suas próprias crenças cegas no acaso. Se os “céticos” fossem céticos para com as suas próprias teses, eles seriam os primeiros a perceber o quão estúpidas elas são, e seriam também os primeiros a admitir que a crença em Deus é mais racional.

Mas eles estão cegos, porque exercem ceticismo somente para um lado, e nenhum ceticismo para com o outro. Isso faz com que eles rejeitem as evidências para o Cristianismo e adotem crenças que não tem qualquer evidência, e que realmente não tem cabimento nenhum no campo da razão. Um diálogo fictício entre um ateu e um cristão publicado na internet resume isso na seguinte fala do ateu:

“Eu acredito que houve uma explosão espontânea, que não sabemos o que a gerou, e que a energia dessa explosão se converteu em matéria, de uma maneira que ainda não sabemos, e que a força aleatória geral deu origem a pequenos sistemas de ordem, de uma maneira que ainda não sabemos, e que esses pequenos sistemas de ordem se reuniram, não sabemos como, para formar essa perfeita harmonia, que ainda não sabemos como funciona”[4]

Você pode fazer o mesmo com todos os outros argumentos presentes neste livro, e verá sempre uma possibilidade, no mínimo, de 50% para mais a favor da fé cristã, e de menos de 50% para o contrário ao que está sendo argumentado. Na vida real, ninguém precisa de evidências “extraordinárias” para crer em algo. Basta que este algo seja mais lógico e coerente, com mais chances de existir do que o que está em oposição a isso, que nós já aceitamos por ser o mais plausível. Por exemplo, quando você está fazendo uma prova de vestibular, você marca uma opção mesmo quando não tem 100% de certeza que ela é a correta. Se você está em dúvida entre a alternativa “A” (com 70% de chances) e a “B” (com 30% de chances), você não fica sem marcar e nem corre para marcar a “B” por não estar 100% seguro quanto à alternativa “A”. Você simplesmente marca a “A”.

Se você parar para pensar, verá que em tudo nessa vida você opta por aquilo que é mais provável, ao invés de optar pelo “menos provável” ou por deixar de optar quando “não tem certeza” de algo. Isso é muito comum na teologia também. Há muitos textos bíblicos que são passíveis de duas ou mais formas diferentes de interpretação, e neste caso cabe ao intérprete analisar ambos os argumentos e decidir pela exegese mais provável. Ele segue as evidências, mesmo quando as evidências não são “esmagadoras”, ou quando não há unanimidade a respeito. Eu penso que há realmente evidências esmagadoras a favor da existência de Deus pelo campo da razão, mas, mesmo que essas evidências não chegassem a 100%, elas ainda assim estariam bem acima dos 50% e, por isso, seria mais plausível crer em Deus do que não crer.

É como demonstrado no quadro abaixo:

OPÇÃO RACIONAL
(Mais Plausível)
OPÇÃO IRRACIONAL
(Um Delírio)
Algo criou o Universo
Nada criou o Universo
Nada vem do nada
O Universo inteiro veio do nada
Toda a complexidade e perfeição do Universo atestam a existência de um Projetista
É tudo fruto do acaso, ou existem infinitos universos paralelos e nós tivemos a sorte de estarmos no “universo certo”!
As centenas de profecias bíblicas que se cumpriram se cumpriram porque Deus preza pelo cumprimento da Sua Palavra
Todas as profecias bíblicas cumpridas se cumpriram por acaso e sorte
A moralidade objetiva existe, e ela é reflexo da natureza imutável de Deus
A moralidade é subjetiva e fabricada pelos caprichos do homem
A vida surgiu de outra vida (Deus)
A vida surgiu da não-vida
Seres conscientes e racionais foram criados por um Ser consciente e racional
A consciência e a racionalidade “evoluíram” da matéria inorgânica e completamente irracional
Os discípulos deram a vida pelo evangelho porque viram o Jesus ressurreto
Os discípulos inventaram uma estória da ressurreição para depois sofrerem e morrerem por ela

À luz destas e de outras comparações que poderíamos fazer, quem está delirando? Qual das duas visões um verdadeiro cético deveria ter desconfiança? Os céticos “autointitulados” tem razões para permanecerem “céticos” em relação ao Cristianismo, quando o que defendem é indiscutivelmente mais irracional? Qual das duas visões exige mais fé?

Assim como Geisler e Turek, eu não tenho fé suficiente para ser ateu! Sou também obrigado a concordar com Robertson quando ele diz que “ser ateu exige uma grande dose de fé”[5]! A “evidência extraordinária”, como vemos, não está na conta dos cristãos, mas dos ateus. É mais “extraordinário” crer que algo vem do nada do que crer que vem de um Ser eterno e não-causado. Se alguma coisa precisa de uma “evidência extraordinária” é a alegação dos ateus, e não a nossa! Deus é a hipótese mais simples se comparado com a sua negação.

Este é o problema dos ateus: eles consideram apenas Deus em si, e não Deus em relação com aquilo que está em oposição a ele. Alguém que só viveu no deserto e nunca viu o gelo na vida poderia considerar uma “alegação extraordinária” demais se alguém lhe dissesse que existem enormes espaços geográficos totalmente cobertos de gelo, mas, se alguém lhe mostrasse uma evidência (fotos, vídeos, testemunhas oculares, etc), a crença em um Pólo Sul, apesar de lhe parecer “extraordinária” demais, lhe seria mais provável em relação à sua negação, onde se veria forçado a negar todas as fotos, vídeos, testemunhos, etc.

Da mesma forma, a crença em Deus pode parecer “extraordinária”, mas é menos extraordinária do que seria imaginar que tudo o que vemos veio do nada, que a nossa consciência simplesmente “surgiu” (sabe-se lá como) da matéria inorgânica, ou na possibilidade matemática de todas as profecias bíblicas terem se cumprido por puro acaso. Deus se torna mais simples em relação à hipótese oponente, e é isso o que importa. No fim das contas, os dois – cristão e ateu – têm fé em algo, mas o cristão tem uma fé racional, enquanto o ateu tem uma fé irracional no “acaso”, que chega a ser quase uma birra para aceitar qualquer coisa que não implique na existência de Deus, ou, como disse Robertson, o “TMD”: Tudo-menos-Deus!

Você pode perceber isso sempre que assiste a um programa de televisão em que algum neo-ateu é entrevistado. Quando alguém pergunta: “O que existia antes do Universo existir?”, o ateu logo responde: “Não sei”. Mas, na verdade, esse “não sei” é uma resposta falsa, pois o que ele realmente crê é que “não sei, mas com certeza não foi Deus!”. Eles fingem ser somente ignorantes, quando na verdade são tendenciosos também: eles se fecham a qualquer possibilidade de Deus estar envolvido. São os pressupostos deles (de que Deus não existe) que os fazem responder “não sei” a esta pergunta e ainda assim dizer com tanta convicção que “não foi Deus” (de outra forma não seriam ateus, que significa “não-Deus”!).

Em termos simples, o ateu é alguém que mantém uma fé irracional em qualquer coisa contanto que esta coisa não seja Deus, enquanto o teísta é simplesmente alguém que, seguindo todas as evidências, conclui que o Universo surgiu por uma causa eterna, não-causada, e também racional, que explica a racionalidade do próprio Universo e a consciência dos seres criados. Isso é o teísmo. Essa é a fé racional.

Mas como chegamos ao Deus cristão, revelado em Jesus Cristo na cosmovisão cristã? Por que Deus não seria somente alguém que criou o Universo com todas as suas leis, que depois nos criou e se ausentou da criação, deixando as coisas como estão, sem intervir em nada? Por que o “Deus verdadeiro” teria que ser o de uma religião específica, e não o Deus dos deístas, que na descrição de Dawkins...

“O Deus deísta é um físico que encerra toda a física, o alfa e ômega dos matemáticos, a apoteose dos projetistas; um hiperengenheiro que estabeleceu as leis e as constantes do Universo, ajustou-as com uma precisão e uma antevisão extraordinárias, detonou o que hoje chamamos de big bang, aposentou-se e ninguém nunca mais soube dele”

Por que esse não seria o “verdadeiro Deus”?

Porque é irracional crer que alguém teria o trabalho de fazer tudo aquilo para depois “se aposentar e ninguém nunca mais saber dele”. Em termos gerais, coisas criadas por alguém são coisas cuidadas por alguém. Você não apenas compra ou adota um cachorro ou gato de estimação para depois largá-lo na rua; ao contrário, você cuida dele com o carinho de um pai. Ou então, se você for um empreendedor que decide abrir um negócio, você não vai abrir o negócio e depois abandoná-lo e não querer nem saber mais dele; ao contrário, você irá se envolver com este negócio, ainda que nomeie outros para administrarem a empresa.

Com Deus é a mesma coisa. Ele cuida de nós como um pai, e se envolve em seu projeto assim como o dono de uma empresa interage com os seus liderados. Nós somos os administradores desta terra, assim como os gerentes administram uma empresa, mas isso não significa que o dono não queira saber da empresa ou a tenha abandonado! Dizer que Deus criou todo o Universo e as criaturas, para depois deixá-los a esmo, seria como dizer que Bill Gates, após criar a Microsoft, chutou o balde e não ficou nem aí com a continuidade deste projeto. Mas se é ridículo pensar isso sobre Bill Gates, quanto mais seria pensar isso de Deus, que criou algo tão imensuravelmente maior e mais importante, e que tem muito mais condição de cuidar da sua própria criação!

Se nós temos um forte instinto de cuidar daquilo que é nosso e de administrar aquilo que nós criamos, então com toda a probabilidade Deus não é alguém ausente que não se importa com a sua criação, mas sim um Pai que cuida com amor e se envolve de alguma maneira com o seu projeto. Isso, junto ao argumento da moralidade (que já vimos no capítulo 7 deste livro), nos leva à crença de que Deus é mais que um Projetista: ele é um ser pessoal. E, se Deus é um ser pessoal, nós deveríamos esperar que ele se relacionasse com a criação de alguma forma que não ficasse ausente. É daí que surgem as religiões, cada qual afirmando possuir este meio de transmissão das palavras de Deus para com o coração do homem.

Mas como podemos saber que o Cristianismo é a religião verdadeira, e não tantas outras milhares de religiões que já existiram ou que ainda existem no mundo? É aí que regressamos ao ponto já exposto na introdução ao capítulo 9 deste livro: o Cristianismo é a única religião que pode realmente ligar o homem a Deus. É inegável que o ser humano se afundou no pecado e que caminha para a morte. Deus poderia ter deixado as coisas por isso mesmo, mas, se o fizesse, não seria onibenevolente. Deus deu uma opção ao homem, o homem optou errado, mas Deus lhe dá uma chance de reverter esta condição espiritual.

Mas, agora que o homem já havia decidido ficar longe de Deus, o próprio homem em si perdeu a possibilidade de se religar com o Criador por seus próprios meios. A humanidade já fez a sua escolha, e essa escolha é pelo pecado. Nós pecamos todos os dias. Se há alguma religação (religião) a ser feita, ela deve partir de Deus para com o homem, e não do homem para com Deus. É por isso que Deus teve que enviar Jesus e condicionar a salvação unicamente à fé nele: porque, se não fosse por isso, não haveria outro jeito. Se alguma religião é verdadeira, essa religião tem que ser o Cristianismo – todas as outras partem de baixo para cima, no que o homem pode fazer para Deus (salvação por obras), e não no que Deus fez para com os homens (salvação pela fé).

A salvação não pode ser pelas obras porque, por melhor que nossas obras sejam, elas nunca serão perfeitas para nos ligar a um Deus perfeito. As obras não são capazes de fazer este elo. Todos nós pecamos, e pecamos todos os dias. Mesmo alguém que vive de fazer caridade e que não comete nenhuma falha grave, também perde a cabeça de vez em quando, e com certeza já mentiu, já xingou alguém, já julgou o próximo, já roubou coisas pequenas e já cometeu delitos que são suficientes para obstruir este canal das boas obras que nos levam a Deus. Por melhor que as nossas obras possam ser, elas nunca serão totalmente perfeitas, pois estamos sempre mesclando nossas boas ações com más ações. Talvez estas obras imperfeitas fossem suficientes para nos ligar a um Deus imperfeito, mas somente obras perfeitas podem nos ligar a um Deus perfeito.

Pense de outra maneira. Norman Geisler e Frank Turek deram uma ilustração muito boa no livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu”. Eles escrevem:

«Um jovem é levado diante de um juiz por dirigir embriagado. Quando seu nome é anunciado pelo meirinho, percebe-se um suspiro no tribunal – o réu é o filho do juiz! O juiz espera que seu filho seja inocente, mas a evidência é irrefutável. Ele é culpado.

O que o juiz pode fazer? Ele é pego num dilema entre a justiça e o amor.

Uma vez que seu filho é culpado, merece punição. Mas o juiz não deseja punir seu filho por causa do grande amor que tem por ele.

Relutantemente anuncia:

– Filho, você pode escolher entre pagar uma multa de R$ 5.000,00 ou ir para a cadeia — o filho olha para o juiz e diz:

– Mas, pai, eu prometi que vou ser bom de agora em diante! Serei voluntário no programa de distribuição de sopa aos necessitados. Vou visitar uma pessoa de idade. Vou abrir uma casa para cuidar de crianças que sofreram abuso. Nunca mais vou fazer outra coisa errada de novo! Por favor, deixe-me ir, implora o filho. Nesse momento, o juiz pergunta:

– Você ainda está bêbado? Você não consegue fazer tudo isso. Mas mesmo que pudesse, os seus atos bondosos futuros não podem mudar o fato de que você já é culpado por ter dirigido embriagado.

De fato, o juiz percebe que boas obras não podem cancelar más obras! A justiça perfeita exige que seu filho seja punido por aquilo que fez. Sendo assim, o juiz repete:

– Sinto muito, meu filho. Assim como eu gostaria de permitir que você fosse embora, estou atado pela lei. A punição para esse crime é pagar R$ 5.000,00 ou ir para a cadeia – diz o juiz. O filho apela a seu pai:

– Mas pai, você sabe que eu não tenho R$ 5.000,00. Deve existir outra maneira de evitar a cadeia!

O juiz levanta e tira sua toga. Desce do seu lugar elevado e chega no mesmo nível em que está seu filho. Olhando bem direto em seus olhos, põe a mão no bolso, tira R$ 5.000,00 e estende ao filho. O filho está surpreso, mas ele entende que existe apenas uma coisa que pode fazer para ser livre: aceitar o dinheiro. Não há nada mais que possa fazer. Boas obras ou promessas de boas obras não podem libertá-lo. Somente a aceitação do presente gratuito de seu pai pode salvá-lo da punição certa.

Deus está numa situação similar à daquele juiz – ele está preso num dilema entre sua justiça e seu amor. Uma vez que todos nós pecamos em algum momento de nossa vida, a infinita justiça de Deus exige que ele puna aquele pecado. Mas por causa do seu amor infinito, Deus deseja encontrar uma maneira para evitar nos punir.

Qual era a única maneira de Deus permanecer justo mas não nos punir por nossos pecados? Ele deve punir um substituto sem pecado que voluntariamente aceita a punição que nos é devida (sem pecado significa que o substituto deve pagar por nossos pecados, e não pelos seus próprios; voluntário porque seria injusto punir um substituto contra sua vontade). Onde Deus pode encontrar um substituto sem pecado? Não na humanidade pecaminosa, mas apenas em si mesmo. Na realidade, o próprio Deus é o substituto. Assim como o juiz desceu de seu lugar para salvar seu filho, Deus desceu dos céus para salvar você e eu da punição. Todos nós merecemos a punição. Eu mereço. Você merece.»

Este é o ponto em questão: boas obras não cancelam más obras. O homem ainda seria merecedor da morte ainda que tivesse cometido um único pecado contra Deus em toda a vida – e sabemos perfeitamente bem que cometemos muito mais erros do que isso! Portanto, se existe um Deus perfeito, nós só podemos chegar até ele através de um caminho perfeito. Não por nossas próprias obras, porque nossas obras não são perfeitas. Isso descarta logo de cara todas as religiões que ensinam salvação por obras (na prática isso significa todas, exceto o Cristianismo). Ensinar salvação por obras é dizer que podemos fazer por nós mesmos aquilo que jamais poderíamos fazer por nós mesmos.

Mas, se não é por obras, como seria? O que poderia ser este canal perfeito que nos ligaria a Deus? A resposta é curta e objetiva: Jesus. Nossas próprias obras não são perfeitas para nos ligar a Deus, mas as dele foram. Cristo pagou o preço em nosso lugar, e é, portanto, somente pela fé nele que podemos ser salvos. Jesus, ao descer à terra e viver uma vida perfeita, nos deu o presente da salvação, e agora cabe a nós somente aceitarmos este presente, pela fé nEle. Essa fé não é uma “boa obra”, é somente a não rejeição ao sacrifício de Cristo em nosso favor. Ninguém, portanto, pode se ensoberbecer pensando que conseguiu a salvação pelo esforço próprio.

Roger Olson faz a seguinte analogia:

“Imagine um aluno que esteja passando fome e prestes a ser despejado de seu dormitório por falta de dinheiro. Um professor bondoso dá a esse aluno um cheque de R$ 1.000,00 - o suficiente para que ele pague seu aluguel e coloque uma boa quantidade de comida em sua dispensa. Imagine, pensando mais além, que o aluno que foi resgatado leve o cheque até o banco, assine e deposite o cheque em sua conta (o que faz com que seu extrato fique com R$ 1.000,00 positivos). Imagine também que o aluno então começa a andar pelo campus se gabando de que ele mereceu receber a quantia de R$ 1.000,00. Qual seria a resposta das pessoas caso soubessem a verdade acerca da situação? Eles acusariam o aluno de ser miserável e ingrato. Mas suponha que o aluno diga: ‘Mas o fato de eu endossar o cheque e o depositar em minha conta é o fator decisivo para que eu conseguisse o dinheiro, então eu fiz uma boa obra que mereceu, ao menos, parte do dinheiro, não mereci?’ Ele seria ridicularizado e possivelmente ainda seria ignorado pelos demais por ser uma pessoa insensata”[6]

Essa doutrina da substituição penal é rechaçada pelos neo-ateus, que não conseguem entender o conceito de salvação pela graça (através da fé), e não pelo merecimento (através das obras). Christopher Hitchens mostrou não entender nada do conceito cristão de “perdão” ao escrever:

“Em meu livro, argumento que posso pagar sua dívida ou até mesmo ir para a prisão em seu lugar, mas não posso absolvê-lo do que você fez. Infelizmente, essa fantasia exorbitante chamada ‘perdão’ anda de mãos dadas com uma advertência igualmente extrema – a saber, a rejeição de uma oferta tão sublime”[7]

Às pessoas como Hitchens, C. S. Lewis já respondia:

“A que a maioria das pessoas conhecem é a que já mencionei – a de que fomos absolvidos do castigo porque Cristo se ofereceu para ser castigado em nosso lugar. Ora, à primeira vista, parece uma teoria bastante tola. Se Deus estava disposto a nos perdoar, por que não nos perdoou de antemão? E por que, além disso, castigou um inocente em lugar dos culpados? Se pensarmos o castigo na acepção policial e judicial da palavra, isso não tem sentido nenhum. Por outro lado, se pensarmos numa dívida, é muito natural que uma pessoa, possuindo bens, salde os compromissos daquela que não os possui. Ou, se tomarmos a expressão ‘cumprir a pena’ não no sentido de ser punido, mas sim no de ‘aguentar as consequências’ e ‘pagar a conta’ - ora, todos sabem que, quando uma pessoa cai num buraco, o problema de tirá-la de lá geralmente recai sobre os ombros de um bom amigo. Em que tipo de ‘buraco’ caíra o homem? Ele procurara ser auto-suficiente e se comportara como se pertencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero – só isso pode nos ‘tirar do buraco’. Esse processo de rendição, movimento de marcha a ré a toda velocidade, é o que o Cristianismo chama de arrependimento”[8]

Sendo o Cristianismo a única religião que pode efetivamente religar o homem a Deus (que é o significado de “religião”), o Cristianismo é, portanto, a única religião verdadeira, o que significa nada a mais do que dizer que o Cristianismo é a única forma de realmente religar o homem a Deus. Todas as outras religiões são tentativas (frustradas) para fazer a mesma coisa por outros meios, que começam pelo homem e não por Deus. Dizer que as outras religiões são “falsas” não significa dizer que elas não sejam religiões, ou que elas não tenham algo de bom, significa simplesmente dizer que elas não funcionam quando o assunto é salvação, ainda que possam trazer algo de bom em outras áreas. Assim como há várias chaves numa casa, mas uma funciona para abrir a fechadura da porta da sala, assim também Jesus é a única “chave” que nos abre a porta da salvação – nenhuma outra funciona. É por isso que Jesus disse:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14:6)

Jesus é o canal perfeito. Jesus é a chave que abre a porta. Jesus é o caminho que nos leva a Deus. Jesus é aquele que nos livra da morte, pois morreu para que nós pudéssemos viver. Ele pagou o preço do pecado para que aqueles que nele creem não pereçam, mas tenham a vida eterna. Quanto, porém, àqueles que deliberadamente escolheram rejeitá-lo, só há um preço a pagar pelos seus pecados: a morte. A morte é o salário do pecado (Rm.6:23), é o curso natural de todo ser humano que tenta alcançar a Deus por meio de si mesmo (obras imperfeitas), e não por meio de Cristo (obras perfeitas).

As outras chaves podem até servir para abrir outras portas, mas aquela porta é só aquela chave que abre. Da mesma forma, há muitas religiões que estimulam o homem a fazer o bem ao próximo e que servem para muitas coisas declaradamente boas – e nenhum cristão contesta isso –, mas só há uma religião que possa ligar o homem a Deus na questão de salvação, que é a fé em Jesus Cristo, onde está fundamentado aquilo que conhecemos como Cristianismo. Uma vez que Deus decidiu perdoar o mundo através de Jesus, os que forem condenados serão condenados pelo perdão que recusaram. O prof. Rodrigo Silva ilustrou isso com uma parábola, onde diz:

«Uma vez, nos Estados Unidos, durante a época do faroeste, um homem foi condenado à forca porque lutou contra um outro e o matou. Aquele homem foi condenado e alguns da cidade pediram clemência por aquele homem e escreveram uma carta ao governador, dizendo:

– Perdoe este homem, por favor.

O governador falou:

– Eu acho que eu vou perdoá-lo, mas antes de perdoá-lo deixe-me levar o perdão dentro de uma Bíblia e ver quem eu estou perdoando.

O governador então se disfarçou de padre (ou de pastor, segundo outras versões), colocou a carta de perdão dentro da Bíblia e foi até a cadeia. Quando ele chegou na cadeia, o homem começou a gritar lá do fundo:

– Saia daqui! Eu não tenho nada pra te ouvir!

O governador respondia:

– Calma, meu amigo. Eu tenho algo interessante para você aqui.

Mas o prisioneiro continuava gritando:

– Suma daqui! Eu cuspo em você e nesse Deus!

– Calma, meu filho. Deixe eu te mostrar o que eu tenho aqui dentro.

– Eu não quero saber de você! Se você vier aqui eu jogo alguma coisa em você!

E aquele líder religioso, que na verdade era o governador, tristemente deu as costas e saiu. Quando ele se afastou, o carcereiro chegou ao prisioneiro e disse:

– Você é um louco! Você é um louco!

– Por quê?

– Aquele cara que você mandou embora não era um líder religioso. Sabe quem era aquele homem? Ele era o governador do estado, e ali dentro estava a sua carta de perdão. Você ia estar solto!

No dia da execução, deixaram o prisioneiro falar suas últimas palavras. Ele olhou para a multidão e disse:

– Eu quero apenas dizer nesta manhã que eu não estou sendo condenado aqui à morte por causa do crime que eu cometi. Eu estou sendo condenado por causa do perdão que eu recusei.

Quando a condenação ocorrer, ninguém será condenado por causa dos pecados que cometeu, mas sim pelo perdão que recusou»[9]

Quando queremos transmitir uma mensagem a alguém, geralmente fazemos isso através de duas maneiras: falando com ela pessoalmente, ou escrevendo uma carta a ela. Deus fez as duas coisas: ele enviou Jesus, que é “a imagem do Deus invisível” (Cl.1:15), e também a Bíblia, que é a carta escrita de Deus para nós, onde está registrada as próprias coisas que foram ensinadas por Jesus enquanto ele esteve entre nós. É por isso que faz sentido acreditar na Bíblia: ela é a única forma de transmissão das palavras de Deus, razão pela qual ela mesma tem sido chamada de a “Palavra de Deus”. A lógica segue como demonstrada a seguir: 

(a)   Deus existe.
(b)   Deus é um ser pessoal, que deseja interagir com os seres criados.
(c)    Ele fez isso pessoalmente através de Jesus e também pelas Escrituras.
(d)   Se Deus é perfeito, seus meios de interação devem ser perfeitos.
(e)   Portanto, Jesus e a Bíblia são perfeitos (livres de erros).

Negar que o meio de transmissão da palavra divina (Escrituras) seja perfeito é o mesmo que dizer que Deus, um ser perfeito, não teve a capacidade de transmitir sua mensagem com exatidão. É por isso que cremos que, embora a Bíblia seja um livro humano e escrito por homens, ela é também um livro divino e inspirado por Deus. Em outras palavras, Deus respeitou o estilo e personalidade de cada escritor sacro, mas preservou a Sua Palavra de conter erros teológicos, ou seja, de obstruir este canal pelo qual o homem pode ter conhecimento de Deus e das coisas divinas. É, portanto, logicamente consistente crer na inspiração da Bíblia, uma vez que se crê na existência de Deus e na sua revelação através de Jesus.

Mas por que deveríamos crer em tudo? Por que não pegamos simplesmente as partes que gostamos na Escritura, e rejeitamos as que não gostamos? Afinal, não é exatamente isso o que os teólogos liberais tem feito nos últimos séculos? É aí que entra a fé, mas, novamente, uma fé que não vem desprovida de razão. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, e Deus é inteiramente perfeito, então a Bíblia deve ser inteiramente perfeita, e não “perfeita em partes”. Em outras palavras, não existe a “Palavra de Deus dentro das Escrituras”; ao contrário, a Palavra de Deus é a Escritura! Por isso, embora seja absolutamente impossível termos confirmações históricas ou arqueológicas de todas as [milhares de] coisas que a Bíblia narra, sabemos que tudo o que a Bíblia narra é a verdade, porque é a palavra de Deus.

Como vimos brevemente no capítulo 3, absolutamente tudo o que a arqueologia já descobriu confirmou os relatos bíblicos, e não houve até hoje uma única descoberta arqueológica que contradissesse a Bíblia. Mesmo assim, é virtualmente impossível que os arqueólogos descubram tudo sobre a Bíblia, da mesma forma que nem os evolucionistas têm todos os fósseis de todas as espécies de transição, mas creem na existência destes fósseis mesmo assim. Nós não temos evidências de tudo, mas o que temos de evidências nos assegura a confiabilidade daquilo que ainda não temos.

Por exemplo, nós não temos alguma “prova” de que Jesus vai voltar, mas a volta de Jesus faz parte das profecias de Daniel, que acertou todas as outras profecias sobre tudo aquilo que profetizou (v. cap. 3). Se Daniel acertou nas profecias de todas as outras coisas que profetizou, por que deveríamos duvidar desta profecia em especial? Pense na seguinte analogia: se alguém no século XV tivesse predito a ascensão de Hitler, o nazismo, o comunismo, a queda do muro de Berlim (na data certa), a destruição das Torres Gêmeas e o fim do mundo para 2100, alguém que viveu naquela época iria desdenhar (e com razão) da veracidade destas profecias, mas alguém que vivesse no século XXI e tivesse testemunhado o cumprimento de todas as outras predições estaria certamente mais atento – para dizer o mínimo – sobre a profecia final (futura).

Da mesma forma, Daniel previu com exatidão todos os acontecimentos já detalhados no capítulo 3 deste livro, os quais se cumpriram com perfeição, e também previu a volta do Messias, no final da “septuagésima semana”. Se as outras predições de Daniel tivessem falhado, os ateus teriam razões de sobra para questionar também o cumprimento da última e mais importante de todas as profecias. Mas como todas elas acertaram, são os cristãos que tem excelentes razões para confiarem no cumprimento da profecia.  

De certa forma, os cientistas (inclusive os cientistas ateus) também trabalham com certo conceito de “fé”. Não é possível provar, cientificamente falando, que as leis do Universo se aplicam em todo o Universo e desde o início dos tempos. A ciência não conseguiu explorar todas as partes do Universo para descobrir isso, e nem existe desde sempre para nos revelar tudo com precisão sobre o passado. Isso é tomado como verdade a priori para a ciência ter fundamento, ou, em outras palavras, é uma fé racional. Funciona basicamente assim: se esta parte do Universo funciona deste jeito neste lugar, então presumivelmente este padrão se aplica às outras partes do Universo também.

Da mesma forma, os cristãos não têm “provas”, por exemplo, de que uma virgem deu à luz ao Messias, mas se o padrão da Escritura é revelar a verdade, então este relato deve ser verdade também. Absurdo por absurdo, nós e os ateus estamos no mesmo patamar: da mesma forma que ninguém nunca viu uma virgem dar a luz, também ninguém até hoje viu alguma coisa surgir do nada. Mas os ateus creem no absurdo de que todo o Universo veio do nada, e ao mesmo tempo zombam do outro “absurdo” da virgem dar à luz! Eles zombam dos “absurdos cristãos”, mas eles mesmos creem em seus próprios “absurdos”. Se fôssemos crer ou descrer em algo somente pelo quanto que este algo parece ser “absurdo”, jamais sairíamos do zero a zero.

Mas há uma coisa que desempata o jogo: os milagres. Os ateus não creem em milagres (violação das leis naturais), e portanto não podem explicar seus próprios “absurdos”. Em outras palavras, o ateu se vê obrigado a aceitar seus absurdos por fé, mesmo não crendo em “fé”; ele tem que crer em um “milagre”, mas não crê em milagres. O cristão, por outro lado, por crer em Deus, aceita a possibilidade de milagres existirem, pois, se Deus existe, milagres são possíveis. Não há, portanto, um “paradoxo” para o cristão: tudo se desvenda quando passamos a crer que é possível que “absurdos” aconteçam de vez em quando.

Um programa de computador tem certos padrões bem fixos e que não mudam, mas se o dono ou o programador deste programa decidir mudar o sistema criado por ele, ele pode fazer isso quando quiser e como quiser. Da mesma forma, o Universo apresenta certos padrões fixos (dentre os quais certamente incluímos que virgens não dão à luz!), mas o criador de toda a matéria tem o poder de alterar os padrões em situações extraordinárias, e é a esse desvio do “padrão” que damos o nome de “milagre”. Em outras palavras, as possibilidades de uma virgem dar à luz é a mesma de a vida ter surgido ao acaso ou do nada criar algo: a diferença é que eu creio em milagres porque acredito em Deus, tornando isso possível, e os ateus não creem em Deus, permanecendo na impossibilidade – mas crendo assim mesmo.

O “absurdo” ateísta continuará “absurdo” para sempre e nunca deixará de ser “absurdo”, porque eles tiram “Deus” do jogo. O “absurdo” cristão pode continuar a ser “absurdo” diante dos padrões naturais, mas existe a possibilidade de acontecer pela intervenção sobrenatural aos padrões naturais, porque existe um Deus que faz com que milagres (intervenções) sejam possíveis. O “impossível” ateísta nunca deixará de ser “impossível”, mas, se Deus existe, “tudo é possível para aquele que crê” (Mc.9:23). Essa é a diferença entre o cristão e o ateu: a fé torna possível os “impossíveis” do teísta, mas o impossível para ateu continua sendo impossível para sempre, e ele mesmo assim é obrigado a continuar crendo nisso que é impossível!

Alguns ateus ainda questionam a Bíblia dizendo: “Mas você crê em um livro velho escrito por homens? Você acredita em um pedaço de papel?”. Eles não têm ideia de quão ridícula que é essa afirmação. Todos os livros ateístas que eles seguem também foram escritos por homens – e “A Origem das Espécies” está se tornando mais velha a cada dia. Isso não significa que seja errado seguir estes livros ou que estes livros necessariamente não contenham a verdade – da mesma forma que a Bíblia, também escrita por homens e há muito tempo atrás, tem que ser avaliada pelo seu conteúdo, e não por argumentos simplórios e superficiais.

Em uma de suas palestras, o prof. Adauto Lourenço contou:

“Se eu lhe perguntasse: ‘Qual é a sua idade?’, você iria dizer quantos anos você tem. Mas se eu lhe perguntasse: ‘Por favor, me prove!’, você poderia pegar sua certidão de nascimento, sua cédula de identidade ou sua carteira de motorista e falar: ‘Aqui está a evidência’. E eu diria o seguinte: ‘Você acredita em um pedaço de papel? Você está dizendo que toda a evidência que você tem da sua idade é um pedaço de papel?’. Então você responde: ‘Também tem meu pai e minha mãe’. E eu responderia: ‘Pior ainda, então você crê em testemunhos também!’. Você acredita em um pedaço de papel e acredita em testemunhas. Por que então tem tanta dificuldade em crer na Bíblia, que também é um pedaço de papel e foi escrita por testemunhas?”[10]

O que deve ser levado em consideração não é se a Bíblia é “um pedaço de papel”, se foi escrita por homens ou se é um livro velho. O que importa é o seu conteúdo, e seu conteúdo revolucionou todo o mundo moderno tanto moral quanto socialmente, transformou milhões de vidas para melhor, trouxe consolo aos que estavam sem esperança, trouxe vida aos que estavam desanimados, trouxe amparo para os que estavam aflitos, mudou a perspectiva do mundo no que tange a assuntos globais como escravidão, opressão de mulheres, opressão aos pobres, preconceito racial, infanticídio e imoralidade, e seus ensinamentos sobre amar ao próximo como a si mesmo e de dar a outra face modificaram totalmente a forma de pensar até então, e criaram uma base sólida para a moralidade e prosperidade do século XXI, que agora está sendo ameaçada pelos humanistas neo-ateus. Se esse for o pedaço de papel em questão, então sim, eu tenho muito orgulho em seguir um livro velho, escrito por homens e incomparável a qualquer outra obra já escrita pelo homem.

Dawkins ainda diz em seu livro:

“Existem coisas estranhas (como a Trindade, a transubstanciação, a encarnação) que não nos cabe compreender. Nem tente entendê-las, porque a tentativa pode destruí-las. Aprenda a se satisfazer chamando-as de mistérios”

É interessante notar que, ironicamente, quem realmente “aprende a se satisfazer chamando de mistérios” são os ateus. O próprio Dawkins costuma declarar sempre que o que havia antes do Big Bang é um “mistério”, que a forma pela qual a primeira vida surgiu é um “mistério”, que a existência de múltiplos universos é “possível, mas não sabemos”, e sempre quando é inquirido sobre temas como livre-arbítrio (que é negado por deterministas como ele) responde dizendo que “não sei”, ou que “não sabemos” (como se ele falasse por toda a comunidade científica!), ou a mais clássica de todas as desculpas: “eu não estou interessado em debater sobre isso no momento”!

Na verdade, todo o ateísmo é um enorme e gigantesco mistério. Os ateus são os mais crentes que existem, pois mesmo sem saber nada sobre coisa alguma, ainda assim dizem com tanta segurança que Deus não existe! O que pode explicar tanta certeza, mesmo sem saber nada sobre nada? É simples: a fé. Os ateus têm fé, e somente fé, de que Deus não existe, e então, mesmo sem saber nada sobre qualquer assunto relevante, colocam essa fé ateísta em ação para encher o peito e dizer: “Deus não existe”! A diferença é que o cristão não hesita na hora de dizer que tem fé em alguma coisa, ele é suficientemente honesto para reconhecer isso. O ateu, em contrário, é um crente dissimulado, que não confessa sua própria fé, e nem quer admitir para os outros que é ateu somente porque tem fé que Deus não existe, e por nenhuma razão além disso.

Por Cristo e por Seu Reino,

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


        




[1] No parágrafo seguinte farei uma exposição bastante breve do argumento, que, é lógico, suscitará contra-argumentações, pois não é possível abordar algo tão complexo dentro de tão poucas linhas. É por essa razão que recomendo a leitura dos argumentos dentro de seu contexto mais amplo, lendo a obra indicada ou acessando diretamente o conteúdo em meu blog sobre ateísmo, nos seguintes links:
1)
http://ateismorefutado.blogspot.com.br/2014/12/as-evidencias-da-ressurreicao-de-jesus.html
2)
http://ateismorefutado.blogspot.com.br/2014/12/as-provas-da-autenticidade-do-sudario.html 
[2] Ver links acima.
[3] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[5] David Robertson, Cartas para Dawkins, Segunda Carta.
[6] Roger Olson, Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 255-256.
[7] Christopher Hitchens, O Cristianismo faz bem para o mundo?
[8] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.

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