quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dawkins refutou o argumento cosmológico?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Chegamos agora à parte que deveria ser a mais importante de um livro chamado Deus, um Delírio: a refutação aos argumentos teístas para a existência de Deus. Paradoxalmente, no entanto, esta tem sido considerada por muitos críticos como a parte mais fraca do livro. Dawkins escreveu um livro com 528 páginas, das quais apenas míseras cinco páginas tratam do argumento cosmológico[1], que é o principal argumento usado pelos teístas. Uma vergonha. Diversos físicos teístas, filósofos e teólogos já escreveram livros inteiros sobre o argumento cosmológico, e Dawkins pensa que os refutou em cinco páginas repletas de falácias e de escárnio neo-ateísta.

Até o agnóstico Marcus Valério, que muito elogiou o livro de Dawkins, sublinhou que achou “particularmente superficial o capítulo 3, que se dedica aos argumentos para a existência de Deus, visto que são muito brevemente apresentados e mal são refutados”[2]. Esta superficialidade assustadora no tratamento dos ateus para com os argumentos teístas para a existência de Deus não é exclusividade de Dawkins. Dennett dedicou somente sete páginas de seu livro para tratar de todos os argumentos da existência de Deus, enquanto Harris e Hitchens nenhuma.

Se um cristão está preocupado com a veracidade dos argumentos teístas para a existência de Deus, poderá ficar tranqüilo ao ler os livros de Dawkins e companhia, que só servirão para fortalecer a fé do crente. O fato de os cavaleiros do neo-ateísmo evitarem ao máximo os argumentos da existência de Deus e no lugar disso só atacarem a religião é a prova mais clara de que os argumentos teístas são mesmo plausíveis.

Primeiramente, vamos aos argumentos da forma que estão expostos no livro de Dawkins:

a)     O Motor que Não é Movido. Nada se move sem um motor anterior. Isso nos leva a uma regressão, da qual a única escapatória é Deus. Alguma coisa teve de fazer a primeira se mover, e a essa alguma coisa chamamos Deus.

b)    A Causa sem Causa. Nada é causado por si só. Todo efeito tem uma causa anterior, e novamente somos forçados à regressão. Ela só é concluída por uma causa primeira, a que chamamos Deus.

c)     O Argumento Cosmológico. Deve ter havido uma época em que não existia nada de físico. Mas, como as coisas físicas existem hoje, tem de ter havido algo de não físico para provocar sua existência, e a esse algo chamamos Deus.

Em resposta a isso, Dawkins basicamente se resume a empregar duas técnicas falaciosas que são constantemente repetidas pelos neo-ateus:

a)     Deus é o argumento das lacunas.
b)    Se foi Deus quem criou tudo, então quem criou Deus?

E junto a estas duas falácias de nível estudantil ele ainda adiciona uma terceira um pouco mais sofisticada, que é:

c)     Deus é complexo, e portanto seria ainda mais improvável do que qualquer explicação mais simples.

A primeira alegação ateísta se sustenta da seguinte maneira:

• Há uma Causa para o Universo.
• Nós não sabemos qual é essa Causa.
• Então essa Causa é Deus.

Basicamente, é isso o que eles pensam dos argumentos teístas em geral. É como se os teístas argumentassem: “Puxa vida, eu não sei o que pode ter causado isso. Então foi Deus!”. Deus, portanto, seria simplesmente uma peça para preencher uma lacuna, uma opinião que surge da ignorância, e não uma conclusão que siga logicamente as premissas. Este entendimento errôneo emerge do fato de que a maioria deles é ignorante quanto ao significado de “Deus” que expomos no argumento cosmológico. O argumento cosmológico não implica, de forma alguma, que esta Causa primeira seja o Deus abraâmico, ou Jesus de Nazaré.

“Deus” no argumento cosmológico é somente a conclusão das premissas que sustentam algo que deve ser não-causado, transcendental, eterno, onipotente, invisível e atemporal. Esta Causa primeira, que chamamos Deus, pode ser o Deus judaico-cristão, mas o argumento cosmológico em si abrange qualquer conceito teísta de Deus, até mesmo o do deísmo (em que este Deus decide não intervir na Terra hoje). Há outros argumentos que nos levam à conclusão de que este Deus é um ser pessoal que se importa com o homem (como o argumento moral, que veremos no capítulo seguinte) e que este Deus pessoal é o judaico-cristão em especial[3]. O argumento cosmológico aponta que Deus existe. Os outros argumentos apontam que Deus é este que existe.

Fazendo esta importante distinção, podemos ignorar as acusações injuriosas de pessoas que não entendem o argumento cosmológico e pensam que ele é um non sequitur. Seria um non sequitur se a conclusão de que Jesus é Deus (para citar um exemplo) surgisse como conclusão da premissa que diz que “o Universo teve uma Causa primeira externa a si mesmo”, mas dizer que existe uma Causa primeira e chamar esta Causa primeira de “Deus”, no sentido de algo eterno e fora do Universo que deu início à matéria e ao tempo, é somente a conclusão lógica das premissas:

Premissa 1: Tudo o que tem início tem uma causa (externa) à sua existência.

Premissa 2: O Universo não é eterno. Ele veio à existência.

Conclusão: Se o Universo veio a existir, ele teve uma causa (alguém o criou).

Este Criador, a Causa, é necessariamente não-causado (consequentemente, deve ser eterno), ou senão cairíamos em uma regressão infinita de causas.

A Causa primeira também deve imaterial, uma vez que criou o tempo, o espaço e a matéria, o que nos leva a concluir que ela está fora do tempo, do espaço e da matéria.

A Causa primeira também deve ser transcendental, pois transcende o espaço e o tempo, que foram criados por ela.

A Causa primeira também deve ser onipotente, pois o Universo inteiro foi criado por ela. Isso não significa ter o poder para executar contradições lógicas (como criar um círculo quadrado, um solteiro casado, um número que seja par e ímpar ao mesmo tempo ou uma pedra tão grande que não possa carregar). Onipotência implica em ter poder para fazer tudo aquilo que é possível de ser feito, e não em fazer aquilo que não pode ser feito, i.e, aquilo que é autocontraditório[4].

A Causa primeira também deve ser auto-existente, i.e, que existe por si mesma. Se existisse por causa de outro não seria a Causa primeira, e sequer existiria uma Causa primeira, pois entraríamos em uma regressão infinita de causas anteriores. É necessário que esta Causa primeira exista por si mesma.

A Causa primeira também deve ser infinitamente inteligente, para criar o Universo com uma precisão tão incrível que permita a sua própria existência e a existência de vida inteligente. O famoso físico Stephen Hawking afirmou que se a taxa de expansão um segundo depois do Big Bang houvesse sido menor até do que uma parte em dez mil milhões de milhões, o Universo teria entrado outra vez em colapso antes de alcançar seu presente estado. Se tivesse sido maior do que uma parte em um milhão então as estrelas e os planetas não teriam sido capazes de adquirir forma.

Há somente duas coisas que se encaixam na maioria das definições lógicas desta Causa primeira: objetos abstratos (como números) ou uma mente pessoal e inteligente. Mas objetos abstratos não podem causar nada. O número 7, por exemplo, não pode dar início à matéria e ao tempo, assim como um conceito abstrato (como o amor) também não pode. Somente uma mente transcendental e inteligente pode criar coisas, dando início à matéria e ao tempo. Desta forma, o argumento cosmológico não é o argumento da ignorância, mas uma conclusão lógica das premissas que nos levam à existência de uma Causa primeira com as características que definem Deus.

O ateu não pode mais apelar ao argumento das lacunas, porque não há qualquer lacuna aqui. Os teístas não argumentam na base do “não sabemos, então é Deus”. Deus não surge para suprir a falta de conhecimento sobre algo, mas exatamente como a definição daquilo que se conclui logicamente das premissas sobre o Universo. “Deus” é o nome dado ao conjunto de características desta Causa primeira que necessariamente existe eternamente e por si mesma.

Se o ateu quiser refutar a existência de Deus (Causa primeira) no argumento cosmológico, será obrigado a contrapor a premissa 1 (de que tudo o que teve início teve uma causa) ou a premissa 2 (de que o Universo teve um início). O problema é que estas duas premissas são absolutamente certas, tanto à luz da filosofia quanto à luz de nosso conhecimento científico sobre o Universo, razão pela qual é extremamente raro vermos alguém negando a premissa 1 ou a 2 (o próprio Dawkins hesita em fazer isso em seu livro).

Do nada, nada vem. Os ateus que afirmam que “era uma vez o nada, e, de repente, Bang” estão delirando (para usar uma palavra na qual Dawkins é bem familiar). Se eu lhe perguntar: “Se eu te dou uma porção de nada, o que você faz com isso?”, você não responde, pois sabe que é idiotisse, uma impossibilidade. Você não pode fazer nada com a “porção” de nada, justamente porque é nada! É importante observar que quando dizemos que o Universo não veio do “nada” não estamos nos referindo à inexistência da matéria ou de algo visível, mas de literalmente nada. Rov Abraham Varghese corretamente observou:

“O engano fundamental dos ateus é bastante antigo e consiste no erro de tratar o ‘nada’ como sendo um tipo de ‘algo’. Ao longo dos séculos, pensadores que consideraram o conceito de ‘nada’ foram bastante cuidadosos em apontar que o ‘nada’ não é um tipo de entidade. O nada absoluto significa a ausência de leis, de vácuos, campos, energia, estruturas, de entidades físicas ou mentais de qualquer tipo – e ausência de ‘simetrias’. O ‘nada’ não tem propriedades ou potencialidades. O nada absoluto não pode produzir algo, dado um tempo infinito. Na verdade, não pode existir tempo no nada absoluto”[5]

Os físicos afirmam que o próprio tempo e o espaço, assim como a matéria, foram criados no Big Bang. O “nada”, portanto, é absoluto. Não havia absolutamente nada antes do Big Bang, e o nada não pode ter criado algo. É por isso que cremos que existia (e existe) uma Causa primeira fora do Universo, que deu início a tudo o que existe, e que necessariamente deve ser eterna (senão teria que ter sido criado por outro, e este outro por outro, e assim sucessivamente, não resolvendo o problema). Qual visão é mais plausível? A de que algo criou o Universo, ou a de que nada criou o Universo, mas que estamos aqui mesmo assim? Por que existe algo ao invés de nada?

É necessária uma medida de fé indiscutivelmente superior para crer que o nada criou o tempo, o espaço e a matéria, do que a medida de fé necessária para crer em algo logicamente muito mais consistente: o de que algo criou o tempo, o espaço e a matéria. Dawkins tanto se orgulha pelo uso da razão e das evidências (distorcendo tanto uma como a outra), mas paradoxalmente crê em algo absurdamente ridículo e logicamente impossível, que se contrapõe fortemente à razão e às evidências, que é a tese de que o Universo veio do nada. Os teístas se apoiam na lógica; os ateus, em uma fé cega no impossível.

Então Dawkins tira a sua segunda carta na manga, que é uma técnica tão velha e juvenil que é de se espantar que tenha sido usado por uma mente inteligente, que é a primitiva charada: “Quem criou Deus?”. Eu me lembro de ter ouvido pela primeira vez esta indagação quando tinha dez anos. Uma menininha da escola havia perguntado isso no meio da aula a uma coordenadora daquela escola cristã, e o mais lastimável é que aquela coordenadora se embolou toda, enrolou e não soube responder!

Os tempos passam, mas os ateus ainda insistem em usar argumentos de nível de crianças de dez anos, e ainda encontram imbecis que engolem tamanha infantilidade ou que não sabem contrapor algo tão estúpido. A resposta simples, fácil, óbvia e objetiva ao dilema “quem criou Deus” é: ninguém. Ponto. Todos aqueles que insistem que Deus deve ser criado afirmam isso por ignorância da premissa filosófica que sustenta que tudo o que tem início tem uma causa, e não que tudo o que existe tem uma causa. Deus não teve “início”, portanto não tem “causa”. Eles deturpam ligeiramente o princípio filosoficamente aceito, para incluir qualquer coisa dentro do conceito de “tudo”, o que incluiria não apenas Deus, mas qualquer outra coisa que explicasse Deus.

Quem criou x? Foi y. E quem criou y? Foi z. E quem criou z? Foi w. E quem criou w? Foi b. E quem criou b? Foi a. E quem criou a...? Eu vou parar aqui senão posso esgotar as teclas do teclado, e também porque qualquer pessoa inteligente deve ter percebido que para que qualquer esquema de causa e efeito se complete deve haver uma causa primeira, da qual já tratamos, uma causa não-causada por ninguém, e que é a causa primária de todas as outras causas. Sem esta Causa primeira nada teria sentido, e nada teria surgido. Eu e você não existiríamos.

Dawkins, obstinadamente, não consegue entender que não há solução alguma em exigir uma sucessão infinita de causas, pois disse:

“Pode até ser um designer sobre-humano — mas, se for esse o caso, certamente não será um designer que simplesmente apareceu e começou a existir, ou que sempre existiu. Se (coisa em que não acredito nem por um instante) nosso universo foi projetado, e a fortiori se o projetista ler nossos pensamentos e nossas ações com conselhos, perdão e redenção oniscientes, esse projetista tem de ser o produto final de algum tipo de escada cumulativa ou guindaste, quem sabe uma versão do darwinismo em outro universo

Mas se o projetista não é eterno, sendo somente o produto final de uma escala cumulativa ou guindaste, isso nos levaria a perguntar: quem o criou? Algo que não é eterno teve uma causa externa à sua existência. Isso levaria Dawkins a responder que este projetista foi criado por outro projetista, e este projetista por outro projetista, e este projetista por outro projetista, e assim sucessivamente. No fim das contas, a sugestão de Dawkins não resolve absolutamente nada. Ela ainda nos leva a um dos dois lados da moeda: ou um ser eterno existe, ou o nada absoluto criou alguma coisa. Dawkins sabe que é muito mais racional crer que algo criou tudo, ao invés de crer que nada criou tudo, mas resiste a esta conclusão óbvia, pois derrubaria por completo sua crença de que Deus é “um delírio”.

David Quinn expôs isso a Dawkins em seu debate com ele, mas parece que este ainda segue sem entender[6]:

Quinn – É uma categoria diferente dizer: “Olha, vamos estudar a matéria e como ela se organiza em formas particulares”, e dizer: “evolução”. Outra questão muito diferente é perguntar: “De onde a matéria surgiu para que tudo isso tivesse início?”. E se você quiser, terá de buscar a resposta fora da matéria, e então estará usando categorias filosóficas e teológicas.

Dawkins – Como você pode afirmar que foi Deus se você não pode responder de onde Deus surgiu?

Quinn – Porque você precisa de uma causa não-causada para explicar as coisas existentes. Vi em seu livro que você apresenta uma contra-argumentação que, francamente, penso ser um bogus. Você vem com a ideia do regresso ao infinito matemático, mas isto não se aplica ao argumento de causas não-causadas e motores não-movidos porque não estamos falando de matemática, nós estamos falando sobre existência e nada pode existir a menos que se tenha uma causa não-causada. E esta causa não-causada e o motor não-movido é, por definição, Deus.

É por isso que, se algo existe, uma Causa primeira deve existir por necessariedade. Ou nada existiria, ou uma Causa primeira existiria. Como eu e você estamos aqui, então a opção do nada (regressão infinita) é inválida, e a da Causa primeira (um ser eterno) é a mais plausível. Não é curioso que alguns ateus famosos, como o químico Peter Atkins, tenham chegado ao cúmulo do ridículo em afirmar que nós não existimos na realidade? Vejamos o que Atkins afirmou em seu debate mais recente com Craig, em 2011:

“O que a ciência faz é simplificar as perguntas que precisam ser respondidas. Estamos nos movendo de maneira cuidadosa, imaginativa e confiável para compreender o início do Universo, pela identificação das perguntas que realmente precisam ser respondidas. Não existe nada aqui. Eu afirmo isto. Mas é uma forma extremamente interessante de nada. Não havia nada antes e não há nada agora. Mas foi por um qualquer evento no início do Universo que isto se tornou uma forma extremamente interessante de nada, que aparenta ser alguma coisa[7]

Neste momento a própria plateia começou a rir, não acreditando que um físico ateu tão conhecido estivesse dizendo tamanha imbecilidade. Mas ele, persistente e perseverante, prosseguiu dizendo:

“Talvez isto seja metafísico. Talvez soe estúpido[8]

Talvez?

É surpreendente ouvir isso das mesmas pessoas que dizem que as crenças religiosas são irracionais e de que a existência de Deus é preguiça intelectual. Atkins faz de seu palco um show de Stand Up, com o título de: “TDM” (Tudo-Menos-Deus).

Mas por que eles precisam chegar a este ponto?

Porque eles entendem as consequências lógicas do poderoso argumento cosmológico. Eles sabem que, se nós existimos, também deve existir uma Causa primeira. Mas seu ódio e repulsa a Deus é tão grande, que sua obstinação em negar a existência dEle os leva ao ponto de negar sua própria existência! A cegueira e o fanatismo ateu é tão gritante que os leva a conclusões ridículas, que eles jamais chegariam se a crença em Deus não estivesse em jogo. O argumento cosmológico os coloca cada vez mais contra a parede, obrigando-os a recuar e a fazer concessões até o limite no qual se veem obrigados a negar a existência deles mesmos, bem como de tudo o que existe.

Não é nem preciso dizer que, se eu não existo, não há qualquer razão para discutir sobre Deus ou sobre coisa alguma. As coisas da vida só são discutidas sob a premissa de que existimos. Nada na vida importa se estamos em uma matrix, se nossos cérebros estão em sendo alimentados em um tubo passando a impressão de que existimos, se nossa vida é um sonho ou experiência que existe somente na imaginação de algum outro ser, se o passado foi criado há cinco minutos aparentando ser mais velho ou se tudo em nossa memória não existiu realmente, mas foi injetado em nós. Se vivemos e fazemos isso ou aquilo, somente fazemos sob a premissa de que existimos. E a premissa de que existimos nos leva, no fim das contas, à conclusão de que uma Causa primeira, que chamamos Deus, existe também.

Deus, portanto, não foi criado por ninguém, ele sempre existiu. Existe uma Causa primeira, e não uma regressão infinita de causas que nunca solucionariam nada no fim das contas. O Universo não pode ser esta Causa primeira, este ponto de partida, porque os físicos já provaram que o Universo (tempo, espaço e matéria) teve início no Big Bang, refutando a tese anticientífica antes crida, de que o Universo fosse eterno. Um Universo eterno não precisaria de Deus. Um Universo eterno seria a causa de si mesmo, autoexistente. Mas todas as evidências científicas mostraram que esta noção de Universo estava errada, levando-nos à conclusão de que a Causa primeira não é o próprio Universo, mas algo fora do Universo, com as características que nos definem Deus[9].

É por isso que esta objeção de Dawkins é infantil, como expõe David Robertson:

“‘Quem criou Deus?’ é uma questão que eu esperaria de alguém com seis anos de idade. ‘Quem criou Deus então?’ é a crítica que eu esperaria desse. Fico verdadeiramente surpreso em descobrir o mais famoso ateu do mundo (agora que o filósofo Antony Flew bandeou-se) e Lente de Oxford servindo-se dele, usando-o como o fundamento intelectual de seu ateísmo”[10]

Então Dawkins lança à mesa a sua cartada final, esta sim que pode enganar mais leigos, pois vem com uma aparência mais séria que as alegações anteriores: Deus é, por definição, um ser complexo, e, portanto, colocar Deus como explicação exigiria uma explicação maior ainda. Esta objeção falha em pelo menos três pontos cruciais. O primeiro é o de que não necessitamos de uma explicação da explicação. O Ph.D em filosofia, William Lane Craig, explica isso em seu livro apologético “Em Guarda”:

“Para reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ter uma explicação da explicação. Essa é uma questão elementar da filosofia da ciência. Se um grupo de arqueólogos, em suas escavações, encontrassem objetos que se parecessem com flechas e alguns cacos de cerâmica, seria plenamente justificável que eles inferissem que tais artefatos eram produtos de alguma civilização desconhecida, e não um resultado aleatório da sedimentação e metamorfose, mesmo que eles não tivessem ainda uma explicação de quem foi essa civilização ou de onde ela viera. Da mesma forma, se um grupo de astronautas se deparasse com um amontoado de máquinas em algum ponto da superfície lunar, seria plenamente justificável que eles inferissem que isso era um produto de agentes inteligentes, mesmo que eles não tivessem a mais remota ideia de quem fossem esses agentes e de como eles tinham chegado ali.
Assim, a fim de reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ser capaz de explicar a explicação. Na verdade, tal exigência levaria a uma regressão infinita de explicações, de modo que nada poderia jamais ser explicado e a ciência estaria destruída! Pois antes que uma explicação pudesse ser aceitável, você precisaria ter uma explicação para ela, e então uma explicação para a explicação da primeira explicação, e assim por diante... nada jamais poderia ser explicado.
Por isso, no caso em questão, a fim de reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para o surgimento do design no universo, ninguém precisa ser capaz de explicar o Designer. O fato de o Designer ter ou não uma explicação é uma questão que pode ser deixada em aberto para futuras investigações”[11]

Em segundo lugar, há muitos filósofos e teólogos que negam que Deus seja um ser complexo. O próprio Craig, por exemplo, contraria a opinião de Dawkins no mesmo livro, dizendo:

“O erro fundamental de Dawkins está em presumir que um Designer divino seja tão complexo quanto o Universo. Isso é decididamente falso. Como uma mente pura, sem um corpo, Deus é um ente notavelmente simples. Uma mente (ou alma) não é um objeto físico composto de partes. Em contraste com um Universo contingente e diversificado, com todas as suas inexplicáveis constantes e quantidades, uma mente divina é algo surpreendentemente simples. Por certo que tal mente pode ter ideias complexas – pode estar pensando, por exemplo, em um cálculo infinitesimal – mas essa mente em si é um ente espiritual incrivelmente simples. Dawkins evidentemente confundiu as ideias de uma mente, que podem na verdade ser complexas, com a própria mente em si, que é um ente incrivelmente simples. Portanto, postular que há uma mente divina por trás do Universo representa em definitivo um avanço em termos de simplicidade, qualquer que seja seu valor”[12]

Em terceiro lugar, mesmo se os notáveis filósofos que defendem a tese de que Deus seja simples estiverem todos errados, o que isso prova? Deus não poderia ser a explicação para o Universo por ser mais complexo que o próprio Universo? Esta afirmação é uma falácia por si só. Naturalmente, é comum que algo criado seja menor em complexidade do que o seu criador. Tome por exemplo um relógio de pulso, que é muito menos complexo do que o ser humano, que o produziu. O homem (mais complexo) é a explicação para o relógio (menos complexo), e não há nenhuma incongruência nisso.

Até mesmo os mais sofisticados computadores são muito menos complexos do que o cérebro humano de quem o produziu. Nosso cérebro reconhece um rosto em fração de segundos, pois milhões de células nervosas trabalham simultaneamente na solução do mesmo problema, enquanto o computador processa gradualmente as informações que recebe. O cérebro possui 100 bilhões de neurônios, e cada um deles está ligado a 10 mil outros, sendo capaz de receber 10 mil mensagens ao mesmo tempo. De todo este gigantesco volume de informação ele tira uma única conclusão, a qual é comunicada a milhares de outras células[13].

Nosso cérebro é capaz de produzir mil trilhões de conexões ao mesmo tempo. Ele é preenchido por bilhões de células, sendo que cada polegada cúbica do cérebro contém pelo menos 100 milhões de células nervosas. Embora possua apenas pouco mais de um quilograma de massa, é o mais complexo e ordenado arranjo de matéria em todo o Universo, e calcula-se que se a substância branca de um único cérebro humano fosse desenrolada formaria um cordão longo o suficiente para dar duas voltas ao redor do globo terrestre[14].

Portanto, temos algo muito complexo (o cérebro humano) criando algo muito menos complexo do que ele (um computador). Se o computador fosse capaz de pensar, ele cairia em um equívoco falacioso se conjecturasse que não poderia ter sido criado por um ser humano, já que o ser humano é mais complexo que ele. Ele jamais poderia presumir que o ser humano não é a explicação para ele, sob a alegação de ser mais complexo. Mas ele estaria certo se ignorasse essa falácia dawkiniana e presumisse que um ser mais complexo é a explicação para a sua existência.

Se, portanto, é natural que seres mais complexos criem coisas menos complexas, por que Deus não poderia ser a explicação para o Universo menos complexo do que ele? Como Robertson disse a Dawkins, “poderia ser uma boa ideia descobrir quem Ele é, parar de enterrar a sua cabeça na areia e parar de brandir seu punho a um Deus que diz que não pode existir porque, a fim de existir, ele teria de ser mais complexo que o senhor. Ele é”[15].

Dawkins infelizmente incorre em outra falácia, que é a de confundir e misturar os campos da física e da biologia. Robertson não pôde deixar de corrigi-lo neste ponto também:

“No seu lugar, percebo que é contrassenso porque o âmago do seu credo é que evolução significa que tudo principia do simples e se torna mais completo, logo, porque é esse o caso (e qualquer projetista teria que ser incrivelmente complexo) Deus não pode existir. Mas, mesmo se admitirmos que isso é verdade para a biologia, biologia não é tudo. Como Joe Fitzpatrick argumenta, ‘Dawkins é metodologicamente confuso, tomando um princípio da ciência biológica e fazendo-o um princípio universal’”[16]

A. S. Freitas também observa este equívoco patente em Dawkins:

“Sua insistência em aplicar a Deus as leis particularmente envolvidas em sua área do conhecimento, não chega a ser tão estranha se aludirmos ao fato de que, na verdade, ele cogita o funcionamento da seleção natural até mesmo para outras áreas do conhecimento, como para a cosmologia. Francamente, é indicativa a possibilidade de se tratar de um caso de envolvimento obsessivo com um princípio científico, onde é esquecido o fato de que mesmo a ciência é pródiga em variedades circunstanciais. O resultado não poderia ser outro: quase chega a sentenciar que só há ciência onde a seleção natural é aplicável”[17]

Dawkins comete o mesmo erro básico que alguns criacionistas incorrem ao dizer que a teoria da evolução é falsa porque ela contradiz a lei da termodinâmica. Mas a lei da termodinâmica vale para o campo da física e não para a biologia. Os criacionistas que fazem uso deste argumento confundem a física com a biologia. Dawkins faz o inverso: confunde a biologia com a física. Ambos estão, é lógico, equivocados, pois os princípios que regem um campo não são necessariamente os mesmos que regem outro campo. Dawkins é um biólogo que quer forçar a física a se dobrar diante de seus pressupostos biológicos, o que é inadmissível.

Craig também observa que a simplicidade não é o único fator a ser considerado pelos cientistas na busca da verdade. Ele escreve:

“Existem muitos outros fatores além da simplicidade que os cientistas pesam quando estão determinando qual é a melhor explicação, como o poder da explicação, seu escopo e assim por diante. Uma explicação que possua um escopo mais amplo pode ser menos simples que uma explicação concorrente, mas ainda assim ser preferida por explicar mais coisas. A simplicidade não é o único critério, nem mesmo o mais importante para se avaliar teorias”[18]

A conclusão que inferimos de tudo isso é que há fortes razões para crermos que Deus não é um ser complexo (embora possa ter ideias complexas), e mesmo se o próprio ser fosse em si mesmo complexo, isso em nada invalidaria a opção de Deus como sendo a mais viável diante da impossibilidade do nada criar alguma coisa, ou deste Universo ser eterno – isso porque frequentemente vemos seres complexos criando coisas menos complexas, e porque o que vale para a biologia não necessariamente vale para outros campos, como a física.

Deus, sendo complexo ou simples, permanece sendo a alternativa mais simples para a explicação do Universo quando comparamos com as outras opções disponíveis. Deus não apenas é a posição mais plausível, mas é a única posição plausível, dado o fato científico da finitude do Universo e da impossibilidade do nada criar alguma coisa. O argumento cosmológico, portanto, nem de longe foi refutado pelas fraquíssimas objeções de Dawkins, pobres ao ponto de fortalecerem ainda mais o argumento teísta para a existência de Deus.

Há outros ateus que com frequencia admitem a veracidade da primeira e da segunda premissa e até mesmo de sua conclusão lógica, mas rejeitam que esta Causa seja Deus. O que eles não entendem é que as características da Causa primeira são as características de um Deus teísta. “Deus” é somente o nome dado para o conjunto de características desta Causa primeira, mas poderíamos chamar de qualquer outra coisa. Alguns ateus, surpreendentemente, aceitam as características, mas rejeitam Deus, que é exatamente a junção das características da Causa primeira.

Lewis Wolpert, um biólogo ateu, aceitou em seu debate com Craig que existe uma Causa primeira, mas sustentou a tese de que fosse apenas um “super-computador”. Eu já transcrevi esta parte interessante do debate em meu outro livro, mas não posso deixar de transcrevê-la aqui também[19]:

Wolpert – Mas essa causa não precisa ser Deus.

Craig – Lembre-se que eu lhe dei um argumento para sustentar que essa causa é atemporal, não-espacial, imaterial, muito poderosa e pessoal.

Wolpert – Eu acho que é um computador.

Craig – Computadores são projetados por pessoas.

Wolpert – Não, este computador se auto-projetou.

Craig – Isso é uma contradição de termos.

Wolpert – Por que é uma contradição?

Craig – Um computador para funcionar precisa de tempo.

Wolpert – Esse é um computador especial!

Craig – Certo, mas precisa ser logicamente coerente.

Wolpert – É logicamente coerente. Este computador é fantástico!

Craig – Além disso, é preciso ser um ser pessoal. O computador é um objeto físico.

Wolpert – Não. Este computador não.

Craig – Veja, o que você está chamando de computador é, na verdade, Deus. Não-físico, eterno, atemporal, auto-existente, onipotente, pessoal...

A plateia no mesmo instante compreendeu o argumento e interrompeu Craig com uma salva de palmas. Wolpert, que depois disso ficou sem respostas e apenas sorriu constrangidamente, era tão crente quanto Craig, apenas dava a Deus um nome diferente, tal como seria se alguém me chamasse de “Antônio” ao invés de “Lucas” (não negando a minha existência, mas dando um outro nome a essa existência). Ambos criam em uma Causa primeira criadora do Universo, pessoal, atemporal, eterna, transcendental, imaterial, inteligente e poderosa.

A diferença não estava na crença, mas na simples nomenclatura. Os crentes teístas tradicionalmente sempre chamaram esta Causa de Deus. Os crentes ateus, como Wolpert, preferem chamar de “super-computador”. A existência de Deus parece não ser nem mesmo alvo de discussão. Os ateus já não mais discutem sobre se este Deus existe, mas sim sobre como chamá-lo[20].

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] Dawkins condensou as três primeiras vias de Tomás de Aquino em uma só, o que chamamos de argumento cosmológico.
[3] Tais como o argumento das profecias, das orações e do dom de línguas (que vimos no capítulo 3 deste livro), além do argumento da ressurreição de Jesus (que vimos em meu livro anterior, “As Provas da Existência de Deus”, capítulo 6), da veracidade da Bíblia e da autenticidade do Novo Testamento (também em meu livro anterior, capítulo 7).
[4] Com frequencia vemos cristãos dizendo que Deus é o “Deus do impossível”, Aquele que faz o impossível acontecer. Esta frase estaria errada? Não necessariamente, desde que se entenda corretamente esta afirmação. Quando dizemos que Deus faz o “impossível”, não estamos nos referindo a contradições lógicas (como as demonstradas no texto), que sequer podem ser consideradas “coisas” de fato, mas sim que Deus pode fazer coisas logicamente possíveis, porém impossíveis aos olhos do homem, pois não podem ser colocadas em prática por ele. Há muitas coisas logicamente possíveis de serem feitas, porém que o homem não pode fazer por sua própria limitação humana – mas Deus pode. Por exemplo, o homem não pode curar um cego de nascença ou ressuscitar os mortos (são coisas humanamente impossíveis), mas Deus pode, porque Deus é o criador da matéria que está doente ou morta. Neste sentido, e não no sentido de permitir contradições lógicas (como um “solteiro casado”) é que Deus “faz o impossível”.
[5] Rov Abraham Varghese em “Um Ateu Garante: Deus Existe” (Apêndice A).
[8] ibid.
[9] Eu não vou expor estas evidências científicas aqui, porque o próprio Dawkins, que está sendo refutado, concorda com elas. Ele também garante que as evidências mostram um Universo finito, senão nem sequer poderia ser considerado cientista, ou teria que derrubar cada uma das evidências de um Universo finito e no lugar delas expor outras evidências a seu favor. Isso nem ele nem ninguém é capaz de fazer, pois teria que refutar, para começar, o próprio Einstein e sua teoria da relatividade, que implica em um início absoluto do tempo, espaço e matéria. Se alguém quiser se aprofundar melhor nestas evidências, recomendo a leitura do livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu” (Norman Geisler e Frank Turek), do livro “Em Guarda” (William Lane Craig) ou de forma mais simplificada no livro: “As Provas da Existência de Deus” (Lucas Banzoli e Emmanuel Dijon).
[10] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 6.
[11] William Lane Craig, Em Guarda, p. 134.
[12] William Lane Craig, Em Guarda, p. 135.
[15] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 6.
[16] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 6.
[17] A. S. Freitas, As Máscaras do Ateísmo, p. 129.
[18] William Lane Craig, Em Guarda, p. 135.
[20] Tome como exemplo o reino animal. Tanto o homem branco quanto os nativos indígenas conhecem o crocodilo, mas eles os chamam de forma diferente. Uma tribo indígena que nunca teve contato com o homem branco conhece o crocodilo, reconhece a sua existência, mas o chama de uma forma totalmente diferente que o homem branco faz. Ambos sabem que o crocodilo existe, a diferença está apenas na nomenclatura. A mesma coisa ocorre na questão de Deus. Muitos ateus creem na existência de Deus, mesmo não o reconhecendo como sendo Deus, preferindo dar um outro nome, questionando o rótulo e não a existência do ser em questão. Recusar-se a chamar Deus de Deus, mas crer na existência de uma Causa primeira com as mesmas características que os teístas atribuem a Deus, não é questionar Deus coisa nenhuma.

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