quarta-feira, 1 de abril de 2015

Refutando argumentos contra a veracidade da Bíblia


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Dawkins também dedica um tópico do seu livro para o “Argumento das Escrituras”, onde ele basicamente apenas repete ad nauseam uma série de acusações soltas e mentirosas, tentando formar um argumento pelo acúmulo de informações levantadas, ainda que nenhuma seja tratada com um mínimo de profundidade. Esta é a parte mais fraca do livro, pois o próprio Dawkins assumidamente não entende muito de teologia. Por isso os argumentos dele vêm de terceiros, são mal feitos e mal formulados (geralmente os mesmos argumentos toscos que encontramos em qualquer blog de quinta na internet) e ele sequer se preocupa em interagir com os argumentos contrários, isto é, com as refutações que apologistas cristãos têm dado há séculos a estas falácias. Ele traz à tona argumentos velhos e já refutados, como se fossem uma novidade espetacular que detona com o Cristianismo.

A tática que ele se apropria é conhecida como “metralhadora giratória”, onde algum debatedor despreparado prefere disparar uma série de acusações, uma atrás da outra, ao invés de se focar em um ponto e tratá-lo com mais atenção e profundidade, refutando os argumentos contrários e interagindo com eles (que é a forma decente de se fazer uma refutação). Embora esta tática fracasse miseravelmente em livros, ela até funciona bem quando o público-alvo é ignorante do assunto, ou em um debate. Quantas vezes você já não deve ter visto um debate político onde o candidato Fulano diz o seguinte para o candidato Beltrano:

Fulano: Você, Beltrano, está envolvido com corrupção [e cita um ou mais casos rapidamente], é apadrinhado por maus políticos, é financiado pelos bancos, é um fundamentalista, é fascista, governa para as elites, não dá a mínima para os mais pobres, é contra as minorias, fez declarações preconceituosas [e novamente cita um ou mais casos de passagem], é contra os direitos das mulheres, onde você governou aumentou a criminalidade, a violência e a insegurança; você cortou gastos na educação, fechou [cite um número] hospitais, deixou o transporte público acabado, aumentou os impostos, abaixou o salário mínimo e é reacionário!!! Rebata!!!!

Então o coitado do candidato Beltrano tem no máximo dois minutos para responder tudo isso, o que é óbvio que ele não vai conseguir. Mesmo se todas as acusações forem completamente falsas, ele só conseguiria rebater decentemente cada uma delas se tivesse muito mais tempo, o que ele não dispõe. Então ele no máximo consegue refutar uma ou duas acusações, e no final o candidato Fulano sai proclamando “vitória”, como se tivesse “calado” o candidato Beltrano, que “não soube refutar”, ou que “fugiu da pergunta”, que “não foi capaz de responder”, etc.

Esta tática da metralhadora giratória é muito usada por comunistas e “revolucionários” em geral. Como eles sabem que não tem argumento para ser debatido com mais profundidade (porque todos eles são facilmente destruídos em cinco minutos de debate inteligente), então eles apelam para o ajuntamento de vários argumentos mencionados de passagem para dificultar a refutação do outro candidato. Dawkins faz exatamente isso, mas contra a Bíblia. Não é preciso nem ser teólogo para desmascarar tantas pérolas juntas, quando dispomos de tempo para analisar cada uma delas. Comecemos por quando ele fala sobre os evangelhos, dizendo:

“Desde o século XIX, teólogos acadêmicos vêm defendendo que os evangelhos não são relatos confiáveis sobre o que aconteceu na história do mundo real. Todos eles foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus, e também das epístolas de Paulo, que não mencionam quase nenhum dos supostos fatos da vida de Jesus”

Dawkins começa fazendo questão de dizer que não é ele quem afirma aquilo, mas alguns “teólogos acadêmicos”. Esta é uma tática muito usada por pessoas que tem pouco ou nenhum conhecimento sobre um determinado tema, e com medo de afirmar algo tão categórico em uma coisa que desconhece prefere se ausentar da discussão e dizer que é tal pessoa disse tal coisa. É como se estivesse dizendo: “se algo estiver errado, a culpa é dele!”.

Mas estes tais “teólogos acadêmicos”, a quem ele se refere, não passam de um punhado de pseudos-teólogos, que nem merecem o título de “teólogos” de fato, pois fazem parte de uma minoria anticristã de “liberais” que tem por única finalidade destruir qualquer coisa que a Bíblia afirme, mesmo sem evidência nenhuma de que a Bíblia tenha afirmado errado. É o ceticismo pelo ceticismo, a crítica pela crítica. Não se busca construir algo com base em argumentos, mas somente negar o que já existe. Em outras palavras, são ateus disfarçados de “teólogos”, que não tem o menor crédito na comunidade teológica séria.

Qual foi o argumento oferecido para sustentar a ideia de que os evangelhos foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus e das epístolas de Paulo? Dawkins não deu sequer uma sugestão, muito menos um argumento, pois ele jogou tudo nas costas dos tais “teólogos acadêmicos” tão importantes que ele não cita nenhum nome. E o pior é que ele nem mesmo cita argumentos que estes “teólogos” possuem, porque também não possuem nenhum. Então basicamente todo o argumento dele neste ponto não passa de um “ouvi dizer” e de um “é possível”, e o leitor é induzido a crer nisto sem evidência nenhuma.

Contra a alegação destes teólogos liberais a quem Dawkins se apoia na defesa da tese de que os evangelhos foram escritos a partir de 90 d.C, temos o seguinte:

a)     Os próprios evangelhos atestam que são antigos. Todos eles falam como se o templo e a cidade de Jerusalém ainda estivessem em pé na época em que foram escritos. Para negar isso deveria haver um argumento forte de que todos os evangelhos são obras fraudulentas feitas por inescrupulosos que não mediam esforços para enganar o povo e fazer parecer que escreviam em uma data quando escreviam em outra, mas não existe nenhuma evidência disso.

b)    A tese de que os evangelistas inventaram uma estória é também facilmente refutada. Uma das evidências é apresentada por Norman Geisler e Frank Turek, que dizem: “Todos os quatro evangelhos dizem que as mulheres foram as primeiras testemunhas do túmulo vazio e as primeiras a saberem da ressurreição. Uma dessas mulheres era Maria Madalena, que Lucas admite ter sido uma mulher possuída por demônios (Lc 8.2). Isso jamais teria sido inserido numa história inventada. Uma pessoa possessa por demônios já seria uma testemunha questionável, mas as mulheres em geral não eram sequer consideradas testemunhas confiáveis naquela cultura do século I. O fato é que o testemunho de uma mulher não tinha peso num tribunal. Desse modo, se você estivesse inventando uma história da ressurreição de Jesus no século I, evitaria o testemunho de mulheres e faria homens – os corajosos – serem os primeiros a descobrir o túmulo vazio e o Jesus ressurreto. Citar o testemunho de mulheres especialmente de mulheres possuídas por demônios – seria um golpe fatal à sua tentativa de fazer uma mentira ser vista como verdade”[1].

c)     Há também várias provas arqueológicas de que eles foram mesmo escritos antes de 70 d.C, ou seja, dentro do curto período de uma geração desde a morte de Jesus, e na mesma época das epístolas de Paulo. Por exemplo, a arqueologia confirmou a correta localização e a descrição de cinco entradas no tanque de Betesda, tal como João escreveu (Jo.5:2). Como Geisler e Turek apontam, “escavações realizadas entre 1914 e 1938 revelaram o tanque, e ele era exatamente como João o havia descrito. Uma vez que essa estrutura não mais existia depois de os romanos terem destruído a cidade no ano 70 d.e, é improvável que qualquer outra testemunha não ocular pudesse tê-lo descrito com tal nível de detalhes”[2].

Há uma infinidade de evidências de que os evangelistas escreveram antes de 70 d.C e que foram testemunhas oculares, mas para poupar tempo citarei aqui apenas a lista de evidências em torno de Atos dos Apóstolos, feita por Colin Hemer (estudioso clássico e historiador)[3]. Os detalhes e a precisão histórica em torno do livro são tão impressionantes que somente uma testemunha ocular poderia representá-los com tamanha exatidão, ainda mais levando-se em conta que depois de 70 d.C Jerusalém foi completamente destruída e arrasada pelos romanos e que dificilmente alguém com a tecnologia da época representaria com tanta precisão a cidade, se tivesse vivido longe dos acontecimentos mencionados no livro.

Lucas registra com exatidão os seguintes pontos que foram confirmados pela pesquisa histórica e arqueológica:

1. A travessia natural entre portos citados corretamente (At 13.4,5);

2. O porto correto (Perge) juntamente com o destino correto de um navio
que vinha de Chipre (13.13);

3. A localização correta da Licaônia (14.6);

4. A declinação incomum mas correta do nome Listra (14.6);

5. O registro correto da linguagem falada em Listra — a língua licaônica (14.11);

6. Dois deuses conhecidos por serem muito próximos — Zeus e Hermes (14.12);

7. O porto correto, Atália, que os viajantes usavam na volta (14.25);

8. A ordem correta de chegada, a Derbe e depois a Listra, para quem vem da Cilícia (16.1; cf. 15.41);

9. A grafia correta do nome Trôade (16.8);

10. O lugar de um famoso marco para os marinheiros, a Samotrácia (16.11);

11. A correta descrição de Filipos como colônia romana (16.12);

12. A correta localização de um rio (Gangites) próximo a Filipos (16.13);

13. A correta associação de Tiatira a um centro de tingimento (16.14);

14. A designação correta dos magistrados da colônia (16.22);

15. A correta localização (Anfípolis e Apolônia) onde os viajantes costumavam passar diversas noites seguidas em sua jornada (17.1);

16. A presença de uma sinagoga em Tessalônica (17.1);

17. O termo correto ("politarches") usado em referência aos magistrados do lugar (17.6);

18. A correta implicação de que a viagem marítima é a maneira mais conveniente de chegar a Atenas, favorecida pelos ventos do leste na navegação de verão (17.14,15);

19. A presença abundante de imagens em Atenas (17.16);

20. A referência a uma sinagoga em Atenas (17.17);

21. A descrição da vida ateniense com debates filosóficos na Agora (17.17);

22. O uso da palavra correta na linguagem ateniense para Paulo (spermagos, 17.18), assim como para a corte (Areios pagos, 17.19);

23. A correta representação do costume ateniense (17.21);

24. Um altar ao "deus desconhecido" (17.23);

25. A correta reação dos filósofos gregos, que negavam a ressurreição do corpo (17.32);

26. Areopagíta (RA e RC) como o título correto para um membro da corte (17.34);

27. Uma sinagoga em Corinto (18.4);

28. A correta designação de Gálio como procônsul, residente em Corinto (18.12);

29. O termo bema (tribunal), superior ao forum de Corinto (18.16s);

30. O nome Tirano, conforme atestado em inscrições do século I em Éfeso (19.9);

31. Conhecidos relicários e imagens de Ártemis (19.24);

32. A muito confirmada "grande deusa Ártemis" (19.27);

33. Que o teatro de Éfeso era um local de grandes encontros da cidade (19.29);

34. O título correto grammateus para o principal magistrado (escrivão) de Éfeso (19.35);

35. O correto título de honta neokoros, autorizado pelos romanos (19.35);

36. O nome correto para designar a deusa (19.37);

37. O termo correto para aquele tribunal (19.38);

38. O uso do plural anthupatoí (procônsules), talvez uma notável referência ao fato de que dois homens estavam exercendo em conjunto a função de procônsul naquela época (19.38);

39. A assembleia "regular", cuja frase precisa é atestada em outros lugares
(19.39);

40. O uso de designação étnica precisa, beroíaios (20.4);

41. O uso do termo étnico asíanos (20.4);

42. O reconhecimento implícito da importância estratégica atribuída à cidade de Trôade (20.7s);

43. O período da viagem costeira naquela região (20.13);

44. A seqüência correta de lugares (20.14,15);

45. O nome correto da cidade como um plural neutro (Patara) (21.1);

46. O caminho correto passando pelo mar aberto, ao sul de Chipre, favorecido pelos fortes ventos noroeste (21.3);

47. A correta distância entre essas cidades (21.8);

48. Um ato de piedade caracteristicamente judeu (21.24);

49. A lei judaica considerando o uso que os gentios faziam da área do templo (21.28. Descobertas arqueológicas e citações de Josefo confirmam que os gentios poderiam ser executados por entrarem na área do templo. Em uma dessas descrições, pode-se ler: "Que nenhum gentio passe para dentro da balaustrada e do muro que cerca o santuário. Todo aquele que for pego será pessoalmente responsável por sua conseqüente execução");

50. A presença permanente de uma coorte romana (chiliarch) em Antônia para reprimir qualquer perturbação na época das festas (21.31);

51. O lance de escadas usado pelos soldados (21.31,35);

52. A maneira comum de obter-se a cidadania romana naquela época (22.28);

53. O tribunal ficando impressionado com a cidadania romana, em vez da tarsiana (22.29);

54. Ananias como sumo sacerdote daquela época (23.2);

55. Félix como governador daquela época (23.34);

56. O ponto de parada natural no caminho para Cesareia (23.31);

57. Em qual jurisdição estava a Cilícia naquela época (23.34);

58. O procedimento penal da província naquela época (24.1-9);

59. O nome Pórcio Festo, que concorda perfeitamente com o nome dado por Josefo (24.27);

60. O direito de apelação dos cidadãos romanos (25.11);

61. A fórmula legal correta (25.18);

62. A forma característica de referência ao imperador daquela época (25.26);

63. A melhor rota marítima da época (27.5);

64. A ligação entre Cilícia e Panfília (27.5);

65. O principal porto para se encontrar um navio em viagem para a Itália (27.5,6);

66. A lenta passagem para Cnido, diante dos típicos ventos noroeste (27.7);

67. A rota correta para navegar, em função dos ventos (27.7);

68. A localização de Bons Portos, perto da cidade de Laséia (27.8);

69. Bons Portos não era um bom lugar para permanecer (27.12);

70. Uma clara tendência de um vento sul daquela região transformar-se repentinamente num violento nordeste, muito conhecido e chamado gregale (27.13);

71. A natureza de um antigo navio de velas redondas que não tinha opção, senão ser conduzido a favor da tempestade (27.15);

72. A localização precisa e o nome desta ilha (27.16);

73. As manobras adequadas para a segurança do navio nesta situação em particular (27.16);

74. A 14ª noite — um cálculo notável, baseado inevitavelmente numa composição de estimativas e probabilidades, confirmada pela avaliação de navegantes experientes do Mediterrâneo (27.27);

75. O termo correto de tempo no Adriático (27.27);

76. O termo preciso (bosílantes) para captar sons e calcular a profundidade correta do mar perto de Malta (27.28);

77. Uma posição que se encaixa na provável linha de abordagem de um navio liberado para ser levado pelo vento do leste (27.39);

78. A severa responsabilidade dos guardas em impedir que um preso fugisse (27.42);

79. O povo local e as superstições da época (28.4-6);

80. O título correto protos tes nesou (28.7);

81. Régio como um refúgio para aguardar um vento sul para que pudessem passar pelo estreito (28.13);

82. Praça de Ápio e Três Vendas corretamente definidos como locais de parada da Via Ápia (28.15);

83. Forma correta de custódia por parte dos soldados romanos (28.16);

84. Condições de aprisionamento, vivendo "na casa que havia alugado" (28.30,31).

Lucas acertou tudo isso sem acesso aos mapas ou às cartas náuticas modernos. Diante de tantas provas contundentes de que Lucas foi uma testemunha ocular dos fatos, o historiador romano A. N. Sherwin-White disse: "Quanto ao livro de Atos, a confirmação de sua historicidade é impressionante (...) Qualquer tentativa de rejeitar sua historicidade básica só pode ser considerada absurda. Historiadores romanos já desprezaram o livro por muito tempo”[4]. Até mesmo o cético William M. Ramsay, especialista clássico e arqueólogo, foi obrigado a admitir:

“Comecei tendo um pensamento desfavorável a ele [o livro de Atos] (...) Eu não tinha o propósito de investigar o assunto em detalhes. Contudo, mais recentemente, vi-me muitas vezes sendo levado a ter contato com o livro de Atos vendo-o como uma autoridade em topografia, antiguidade e sociedade da Ásia Menor. Fui gradualmente percebendo que, em vários detalhes, a narrativa mostrava verdades maravilhosas”[5]

Geisler e Turek ainda questionam: “O que mais ele [Lucas] poderia ter feito para provar sua autenticidade como historiador?”[6]. A situação fica ainda pior para os céticos ateus quando vemos que Atos, o livro que Lucas (como testemunha ocular) escreveu em torno de 62 d.C foi o seu segundo livro a Teófilo, posterior ao evangelho de Lucas (At.1:1-2; Lc.1:1-4), o que significa, é claro, que o evangelho de Lucas é ainda mais antigo que 62 d.C. Por fim, ao lermos as epístolas de Inácio, Policarpo e Clemente (três líderes cristãos posteriores aos apóstolos, que escreveram no final do primeiro século), os vemos citando várias partes do NT, o que implica, evidentemente, que a obra citada é ainda mais antiga[7]:

DOCUMENTOS DO NOVO TESTAMENTO CITADOS POR:
Clemente, escrevendo
de Roma (c. 95 d.C.)
Inácio, escrevendo de
Esmirna, na Ásia
Menor (c. 107)
Policarpo, escrevendo
de Esmirna, na Ásia
Menor (c. 110)
Mateus
Mateus
Mateus
Marcos
Marcos
Marcos
Lucas
Lucas
Lucas
Romanos
João
João
l Coríntios
Atos
Atos
Efésios
Romanos
Romanos
1 Timóteo
l Coríntios
l Coríntios
Tito
2 Coríntios
2 Coríntios
Hebreus
Gálatas
Gálatas
Tiago
Efésios
Efésios
l Pedro
Filipenses
Filipenses

Colossenses
Colossenses

1 Tessalonicenses
2 Tessalonicenses

l Timóteo
l Timóteo

2Timóteo
2 Timóteo

Tito
Hebreus

Filemom
l Pedro

Hebreus
l João

Tiago


l Pedro


2 Pedro


l João


3 João


Apocalipse


Geisler e Turek ainda ponderam: “Uma vez que Clemente estava em Roma e Inácio e Policarpo estavam a centenas de quilômetros de distância, em Esmirna, os documentos originais do NT precisariam ter sido escritos muito tempo antes, caso contrário não poderiam ter circulado por todo o mundo antigo daquela época”[8]. É claro que Dawkins desconsidera tudo isso, porque confia nos tais “teólogos acadêmicos” tão confiáveis que ele sequer cita o nome, nem menciona qualquer argumento destes teólogos tão renomados.

Por fim, o fato de Paulo não fazer menção a muitos aspectos da vida de Jesus (como fazem os evangelhos) em nada tem a ver com a credibilidade bíblica, pois o objetivo era distinto. Enquanto os quatro evangelistas tinham o objetivo de relatar a vida de Jesus, o objetivo de Paulo era o de instruir as igrejas cristãs da época na doutrina cristã. Por isso Paulo não tinha o menor interesse em contar histórias ou fazer biografias, mas apenas em instruir os cristãos naquilo que se deve ou não se deve fazer, naquilo que é doutrinariamente certo e naquilo que é heresia. Como o objetivo é diferente, é lógico que vai mudar o tema.

Tome como exemplo o apóstolo João, que escreveu um evangelho, três epístolas e o Apocalipse. O evangelho é todo dedicado a falar da vida de Jesus. As epístolas são todas dedicadas a instruir os cristãos na doutrina e a fugirem da heresia da época, a do gnosticismo. E o Apocalipse também se difere completamente do evangelho e das epístolas, pois tem o objetivo de passar no papel as visões que ele recebeu, e escrevê-las em forma de profecia.

Mas Dawkins ainda prossegue seus ataques à Escritura, dizendo:

“Todos eles foram copiados e recopiados, ao longo de muitas ‘gerações de telefones sem fio’, por escribas sujeitos a falhas e que, por sinal, tinham suas próprias agendas religiosas”

E o que é que isto tem a ver com falta de credibilidade? O que Dawkins e outras pessoas que não entendem nada de crítica textual pensam é que, se não temos o original em mãos, então todo o conteúdo original se perdeu e não pode ser reconstruído com confiabilidade. Isso é tão falacioso que, se fosse levado a sério, não deveríamos crer em absolutamente nada da história antiga, pois tudo aquilo que conhecemos do passado são de cópias dos manuscritos originais. Mas eu duvido que Dawkins e os neo-ateus descrêem em toda a história antiga e em todos os livros antigos escritos pelos mais diversos autores que conhecemos hoje, como Platão, Heródoto, Josefo, Tácito, Aristóteles, Plínio, etc.

Para chegarmos ao original com precisão, basta termos um bom número de cópias (para compará-las) e, de preferência, com uma breve diferença em relação ao original. O problema dos neo-ateus é que o Novo Testamento ganha disparado de qualquer outro documento da história antiga, tanto em um quesito quanto no outro. Compare, por exemplo, o intervalo em anos entre o original e a cópia mais antiga nos autores mais renomados da antiguidade, e também o número de cópias que possuímos deles:

Autor
Data do Original
Cópia mais Antiga
Intervalo em Anos
Número de Cópias
César
100-44 a.C
900 d.C
1000
10
Platão (Tetralogias)
427-347 a.C
900 d.C
1200
7
Tácito (Anais)
60-100 d.C
900 d.C
800
1
Plínio, o Jovem
61-113 d.C
850 d.C
750
7
Tucídedes
460-400 a.C
900 d.C
1300
8
Suetônio
75-100 d.C
950 d.C
800
8
Heródoto
480-425 a.C
900 d.C
1300
8
Sófocles
496-406 a.C
1000 d.C
1400
193
Lucrécio
75-160 d.C
1200 d.C
1100
2
Cátulo
54 a.C
1550 d.C
1600
3
Eurípides
480-406 a.C
1100 d.C
1300
200
Desmóstoles
383-322 a.C
1100 d.C
1300
200
Aristóteles
384-322 a.C
1100 d.C
1400
49
Aristófanes
450-385 a.C
900 d.C
1200
10

Em comparação, o Novo Testamento tem uma diferença mínima inferior a 200 anos entre a cópia completa mais bem preservada e o original, e de décadas entre o original e o fragmento mais antigo. A diferença fica ainda mais esmagadora quando vemos que possuímos 25 mil cópias antigas do Novo Testamento, em comparação com algumas dezenas (ou nem isso) dos outros autores da antiguidade. A conclusão é óbvia para um bom entendedor: se existe obra antiga confiável, a Bíblia com certeza encabeça a lista.

Mesmo os maiores críticos da Bíblia não usam de critério ao rejeitarem a credibilidade do Novo Testamento, pois eles creem que obras muito menos bem preservadas foram “bem preservadas”, enquanto negam o mesmo patamar ao Novo Testamento. Um exemplo claro disso é Bart Ehrman, também citado em The God Delusion como alguém que “passou de crente fundamentalista na Bíblia para cético ponderado”, que é tão “ponderado” ao ponto de dizer que o evangelho apócrifo de Pedro foi “bem preservado”, enquanto nega o mesmo título ao Novo Testamento. Marcelo Berti apontou esta flagrante contradição e disse:

Há alguns anos atrás nos tínhamos um pedaço do Evangelho de Pedro que não sabíamos bem o que significava. Era um fragmento do tamanho de um cartão de crédito. No século passado foi descoberta uma cópia maior, com páginas do texto. Eles compararam aquilo que tinha naquele evangelho com aquilo que foi encontrado recentemente, e Ehrman diz em seu livro: ‘ficou claro que o Evangelho de Pedro foi bem preservado’. Isso com duas cópias, uma do tamanho de um cartão de crédito e outra com algumas páginas. Ou seja: para Ehrman, o Evangelho de Pedro foi bem preservado – com poucas evidências – mas o Novo Testamento, repleto de evidências (mais de 5 mil), foi ‘mal guardado’![9]

É este tipo de “cético ponderado” que Dawkins exalta em seu livro e glorifica de pé, faltando apenas bradar: “Aleluia!!!”. Incrível também que Dawkins tenha apenas citado um único teólogo que abandonou o Cristianismo por causa da crítica textual, sem citar os milhares de teólogos que se tornaram cristãos ainda mais convictos e devotos depois do estudo do mesmo – e até ateus que se converteram por causa disso. Dawkins claramente não está preocupado em expor a verdade, mas sim em distorcer a verdade e expô-la de forma tendenciosa ao público, de maneira que represente com fidelidade seu neo-ateísmo.

Eu não entrarei mais a fundo na questão da crítica textual, pois, como disse na introdução do livro, os assuntos que foram tratados com abrangência em meu livro anterior (As Provas da Existência de Deus) não serão repetidos aqui, e por essa razão recomendo a todos os que quiserem ler uma abordagem mais completa do tema que se dirijam ao capítulo 7 do livro anterior, que é inteiramente dedicado a refutar Ehrman e suas conclusões completamente equivocadas em torno da credibilidade do Novo Testamento.

Incansável, Dawkins ainda alega:

“Um bom exemplo da cor acrescentada pelas agendas religiosas é a tocante lenda do nascimento de Jesus, em Belém, seguida do massacre dos inocentes por Herodes. Quando os evangelhos foram escritos, muitos anos depois da morte de Jesus, ninguém sabia onde ele tinha nascido. Mas uma profecia do Antigo Testamento (Miquéias 5, 2) tinha levado os judeus à expectativa de que o esperado Messias nasceria em Belém. À luz dessa profecia, o Evangelho de João afirma textualmente que seus seguidores ficaram surpresos com o fato de ele não ter nascido em Belém: ‘Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galileia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?’ (Jo.7:41-42)”

Dawkins cita João de forma completamente descontextualizada. João não estava dizendo que ele cria que Jesus não tinha nascido em Belém, e muito menos que seus seguidores achavam isso. Se ele se desse ao trabalho de ir consultar o contexto do texto bíblico em questão ao invés de copiar argumentos fracassados escritos por terceiros iria perceber que estes que pensavam que Jesus não tinha nascido em Belém eram os descrentes de Jerusalém que estavam ali por acaso, por ocasião da festa judaica dos tabernáculos:

“No último e mais importante dia da festa, Jesus levantou-se e disse em alta voz: ‘Se alguém tem sede, venha a mim e beba’” (João 7:37)

Jesus se dirigiu a Jerusalém por causa desta festa, entrou no templo onde estavam peregrinos de toda Jerusalém e de outras cidades judaicas, e ali, para os descrentes e não para os seus seguidores, ele disse aquelas coisas e foi rechaçado. Os evangelistas são claros ao dizer que, quando Jesus entrou em Jerusalém por esta ocasião, eram poucos os que o conheciam, pois o ministério dele era mais voltado à região da Galileia:

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: ‘Quem é este?’ A multidão respondia: ‘Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia’” (Mateus 21:10-11)

Ou seja: a multidão em Jerusalém não conhecia Jesus, e seus discípulos e seguidores precisaram explicar para eles de onde ele vinha, ou seja, da Galileia, que era onde ele costumava pregar e de onde ele havia saído para entrar em Jerusalém. Então esta multidão de incrédulos que não conhecia nada de Jesus a não ser o relato de que ele pregava na Galileia presumiu que ele havia nascido por lá, e não em Belém. Dawkins de forma traiçoeira faz parecer que eram os próprios discípulos e seguidores de Jesus (ou o próprio João) que pensavam que Jesus não havia nascido em Belém, quando o contexto em seu devido contexto não fala nada disso.

Mas Dawkins, em sua ignorância, continua, dizendo:

“Mateus e Lucas lidaram com o problema de outra forma, concluindo que Jesus devia ter nascido em Belém, no fim das contas. Mas eles chegaram a essa conclusão por caminhos diferentes. Mateus coloca Maria e José em Belém desde sempre, tendo mudado para Nazaré só muito tempo depois do nascimento de Jesus, na volta do Egito, para onde tinham fugido do rei Herodes e do massacre dos inocentes. Lucas, por outro lado, admite que Maria e José moravam em Nazaré antes de Jesus nascer”

Pura mentira! Mateus não diz que Maria e José estiveram em Belém “desde sempre”, ou seja, desde antes de Jesus nascer. Mateus simplesmente não entra nesta questão, e por isso a primeira vez em que a palavra “Belém” aparece no evangelho de Mateus é já depois de Jesus ter nascido, e não antes. Ela se encontra em Mateus 2:1, que diz:

Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém” (Mateus 2:1)

Em síntese, Mateus não fala nada sobre onde José e Maria moravam antes do nascimento de Jesus (este é um aspecto que somente Lucas faz questão de ressaltar), ele se limita apenas a dizer que Maria e José estiveram em Belém depois do nascimento de Jesus, não fala nada sobre se estavam em Belém antes, nem quanto tempo antes. Estas “conclusões” precipitadas feitas em cima do texto bíblico são dawkinianas e pseudo-exegéticas, e não fruto de um exame sério da Bíblia.

Onde José e Maria estiveram segundo os evangelhos:

Antes de Jesus nascer
Nos dias do nascimento de Jesus
Tempos depois do nascimento de Jesus
Nazaré
Belém
Nazaré
Lucas 1:27
Mateus 2:1; Lucas 2:4
Mateus 2:23; Lucas 2:39
Dawkins confunde relatos complementares com relatos contraditórios. Contradição só haveria se Mateus dissesse que Jesus esteve em Belém antes de Jesus nascer (o que contrariaria Lucas), ou se eles entrassem em contradição um com o outro sobre onde Jesus nasceu ou sobre onde esteve tempos depois do nascimento, mas não ocorre nada disso. Ao invés de uma contradição, o que vemos são relatos que se completam, o que é muito típico em uma reconstrução histórica.

Note que nem Marcos nem João dão atenção sobre a infância de Jesus (eles começam narrando a história com Jesus já adulto), mas isso não significa que Jesus não nasceu em lugar nenhum, ou que ele tenha vindo ao mundo já adulto. O que João e Marcos não disseram é complementado por aquilo que os outros evangelistas disseram, e assim ligamos todas as partes do quebra-cabeça que se encaixa perfeitamente bem.

Mas Dawkins continua seus ataques, dizendo:

“Lucas diz que, na época em que Quirino era governador da Síria, César Augusto ordenou a realização de um censo, com fins tributários, e todo mundo tinha que ir ‘para a sua cidade’. José era ‘da casa e da linhagem de Davi’ e portanto tinha de ir para a ‘cidade de Davi, que é chamada de Belém’. Deve ter parecido uma boa solução. Tirando o fato de que, do ponto de vista histórico, ela é completamente absurda”

Dawkins mostra aqui que, além de tudo, ainda é desinformado em termos de história. Sua alegação é fruto de pura ignorância, pois é fato histórico que os romanos faziam recenseamento da forma prevista na Bíblia. Segundo o Monumentum Ancyranun[10], Augusto realizou três recenseamentos no império romano, nos anos de 726, 746 e 767 desde a fundação de Roma, i.e, nos anos 28 a.C, 8 a.C e 14 d.C do nosso calendário gregoriano[11].

O recenseamento presente em Lucas é exatamente este realizado em 8 a.C, o mesmo que os historiadores dizem ter ocorrido quatro anos antes da morte de Herodes, que se passou em 4 a.C. Mas os judeus dificultaram a tentativa dos romanos em contarem todo o povo, razão pela qual nas terras judaicas esse recenseamento só ocorreu tempos mais tarde.

Em 1880 foi encontrada uma inscrição que fala claramente de um recenseamento ocorrido na Síria por ordem de Quirino. O texto em latim diz:

"Q. Aemilius Q. F. Pai. Secundus... iussu Quirini censum egi Apamenae civitatis millium hominum, civium CXVH"

O texto latino se encontra no Corpus Inscriptionum Latinarum (Th. Mommsen) Ill, 1, Suplemento n. 6687,9. Papiros também mostram que, no Egito, de 14 em 14 anos se realizava um recenseamento, prática esta que durou até o terceiro século d.C.

Além disso, como conferimos anteriormente, o próprio livro de Lucas é uma evidência histórica, já que o autor tem sido exaltado pelos críticos em função de sua excelência como historiador e a precisão e detalhes com os quais narrava os acontecimentos – coisas extremamente improváveis de acontecer com alguém que está inventando uma estória – além da confirmação paralela de outras fontes históricas e da arqueologia moderna. Se não fosse pelo fato de Lucas ser cristão e ter escrito livros bíblicos, ninguém iria levantar objeções como fazem hoje, por puro preconceito em se aceitar algo que está na  Bíblia, pela única razão de não crerem na Bíblia. 

Portanto, a única coisa absurda do ponto de vista histórico são as alegações infundadas de Dawkins, que ainda continua:

“Davi, se existiu, viveu quase mil anos antes de Maria e José. Por que diabos os romanos teriam exigido que José voltasse para a cidade onde um ancestral remoto havia vivido um milênio antes? É como se eu fosse obrigado a especificar, digamos, Ashby-de-la-Zouch como minha cidade no formulário do censo, se por acaso eu conseguisse rastrear minha ascendência até o Seigneur de Dakeyne, que chegou junto com Guilherme, o Conquistador, e ali se estabeleceu”

Em primeiro lugar Dawkins não deveria dizer: “Davi, se existiu...”, pois Davi é um personagem bíblico comprovado pela arqueologia. A descoberta da Estela de Tel Dã, em 1993, provou a existência de Davi e seu reinado. Trata-se de uma placa comemorativa que traz a inscrição legível da “casa de Davi”, dizendo:

“Eu matei Jeorão, filho de Acabe, Rei de Israel, e matei Acazias, filho de Jeorão, rei da casa de Davi

No hebraico:

כב.ואלפי.פרש.[קתלת.אית.יהו]רם.בר[אחאב.]
מלך.ישראל.וקתל[ת.אית.אחז]יהו.בר[יהורם.מל]
ך.ביתדוד.ואשם.[אית.קרית.הם.חרבת.ואהפך.א]

Em segundo lugar, o argumento de Dawkins é uma falácia conhecida como reductio ad absurdum, que é quando se tenta provar que algo é errado por ser “ridículo demais”. É inegável que a ideia de um recenseamento como foi feito é algo ridículo, mas isso é um argumento para se negar que o fato ocorreu? Será que Dawkins faz ideia de quantas coisas ridículas os romanos costumavam fazer? Pense em Nero, que ateou fogo em Roma, em seu próprio império. Isso era o mesmo que Barack Obama ser eleito presidente dos EUA e logo depois sair ateando fogo em toda a cidade de Nova York para comemorar o feito. É ridículo, sim. Mas é atestado historicamente, por fontes da época.

Quer outra coisa ridícula que realmente aconteceu entre os romanos? Já imaginou um cavalo, isso mesmo, um cavalo ser senador? Pois foi isso o que Calígula, imperador romano, fez com seu cavalo Incitatus. O cavalo se tornou senador “de respeito” e seu voto tinha peso “dois”, enquanto o voto dos demais senadores tinha peso “um”. O cavalo-senador ainda tinha 18 assessores, ganhava uma fortuna e usava mantas nas cores reservadas ao imperador. Pelo menos ele era ficha limpa. Foi tão bom senador que foi um dos únicos que nunca se envolveu em corrupção e não aceitava dinheiro sujo. Um homem – quero dizer, um cavalo – digno de respeito.

Diante destas e de outras várias maluquices do império romano, o recenseamento de Augusto foi fichinha[12]. Dawkins jamais deveria usar o reductio ad absurdum, ainda mais em se tratando de imperadores romanos, como um “argumento” contra a autenticidade da declaração de Lucas. Além disso, há documentos que provam que era comum o império romano obrigar os habitantes das províncias a fazerem o recenseamento em sua região nativa, como mostra o decreto de Gaio Víbio Máximo, Prefeito do Egito, datado de 104 d.C, que obrigava a "todos os que habitassem fora das suas regiões nativas, voltassem ao seu recanto natal para cumprir a disciplina habitual do recenseamento".

Dom Estêvão Bettencourt acrescenta:

“Este preceito vigente no Egito devia também aplicar-se à Palestina, visto que no Oriente a pertença à família ou estirpe era de importância capital; todo cidadão sabia a que estirpe pertencia. O povo de Israel constava de tribos e famílias bem definidas – o que muito facilitava a realização do censo segundo as normas habituais. Maria acompanhou seu esposo a Belém, porque também ela era de estirpe régia (ou da casa de Davi); cf. Rm 1,3; Lc 1,31s. Além do quê, as mulheres deviam estar sujeitas ao recenseamento na Palestina como no Egito. Mais: pode-se crer que Maria era filha única e, por conseguinte, filha herdeira - o que mais a obrigava ao recenseamento”[13]

Por fim, nos Archiva Romana (Arquivos Romanos) há a descrição de que foram efetuados recenseamentos na Judeia sob Augusto por obra de Sêncio Saturnino, Prefeito da Síria entre 9 e 6 a.C. Isso também consta na obra Contra Marcião, de Tertuliano[14]. É verdade que Tertuliano era um autor cristão (que escrevia no segundo século d.C), mas ele estava debatendo com um descrente, e não iria colocar todo o seu argumento a perder pela inclusão de uma “informação falsa”, se fosse mesmo falsa.

Ele desafiou Marcião a consultar os Arquivos Romanos, da mesma forma que um cristão nos dias de hoje desafiaria um ateu a consultar, por exemplo, a obra Antiguidades Judaicas (de Flávio Josefo), que prova a existência histórica de Jesus. Ninguém que esteja mentindo desafiaria o adversário desta maneira, citando fontes conhecidas da época, que com um mínimo de esforço o oponente poderia averiguar que a informação é falsa e derrubaria por inteiro a credibilidade de toda a argumentação. É óbvio que Tertuliano sabia que a informação era verdadeira, e presumivelmente o próprio Marcião também, que em momento nenhum o contra-argumentou neste ponto.

Mas Dawkins continua:

“Robert Gillooly mostra como todas as características mais essenciais da lenda de Jesus, incluindo a estrela de Belém, a virgindade da mãe, a veneração do bebê por reis, os milagres, a execução, a ressurreição e a ascensão são empréstimos – cada uma delas – de outras religiões que já existiam na região do Mediterrâneo e do Oriente próximo”

Este é com toda a certeza o parágrafo mais mentiroso de todo o livro. Mais uma vez Dawkins não tem nenhum conhecimento de causa e joga toda a credibilidade de seu argumento nas costas de um tal de Robert Gillooly, um ilustre anônimo cuja única informação que se pode obter sobre ele em toda a internet é que ele foi mencionado neste livro, e mesmo assim Dawkins o cita como “autoridade” no assunto! Essa série de afirmações falsas foram claramente copiadas do risível filme Zeitgeist, que já foi refutado trezentas mil vezes pelos mais diversos acadêmicos cristãos e até pelos ateus mais sérios.

Como eu disse na introdução deste livro, eu não vou repetir aqui o que já foi devidamente refutado em meu outro livro (As Provas da Existência de Deus), onde eu dedico dezenas de páginas exclusivamente para refutar ponto por ponto das alegações mentirosas que os neo-ateus inventaram em torno de Jesus ter sido um “plágio” de mitos pagãos. Quem estiver interessado, consulte a refutação completa no livro[15], ou a refutação resumida presente em meu site[16].

E Dawkins continua vomitando desinformação ao dizer:

“Um literalista não devia se preocupar com o fato de Mateus rastrear a descendência de José do rei Davi por 28 gerações intermediárias, enquanto Lucas fala em 41 gerações? O pior é que quase não há coincidências nos nomes das duas listas!”

Duas coisas que Dawkins deveria saber aqui. A primeira é que a genealogia de Mateus é registrada pela linha de José, enquanto a genealogia de Lucas é pela linha de Maria, da seguinte forma:


Davi
|
Salomão
|
Roboão
|
Abias
|
Asa
|
Josafá
. . .
|
|
José - Maria - esposa legal (pai legal)
|
Jesus


Davi
|
Nata
|
Matará
|
Mená
|
Meleá
|
Eliaquim
. . .
|
Heli
|
José - Maria - mãe de fato (marido legal)
|
Jesus

Como Mateus e Lucas traçam suas genealogias partindo de pontos diferentes (Lucas vai de Maria a Adão, enquanto Mateus de José a Abraão), é óbvio que nós não deveríamos encontrar os mesmos nomes mesmo. A segunda coisa que Dawkins deveria saber é que Mateus usa o termo grego gennao (gerou) em um sentido mais amplo, que significa “antepassado de”. Essa palavra é derivada de outra palavra grega, genos, que tem como um de seus significados possíveis o de “descendência de um pessoa em particular”[17]. Não há, portanto, necessidade que haja o mesmo número de “gerações” na lista de Mateus e na lista de Lucas, quando Lucas o usa em sentido estrito, e Mateus em sentido mais amplo[18].

Mas Dawkins prossegue:

“Os quatro evangelhos que chegaram ao cânone oficial foram escolhidos, mais ou menos de forma arbitrária, dentre uma amostra maior de pelo menos uma dúzia, incluindo os evangelhos de Tomás, Pedro, Nicodemo, Felipe, Bartolomeu e Maria Madalena”

Dawkins comete aqui um erro elementar muito constante em críticos da Bíblia, que é a crença de que um concílio (geralmente apontado como o Concílio de Niceia, embora Dawkins tenha se prevenido de cair no mesmo erro e não cita nenhum) tenha arbitrariamente escolhido quais livros permaneceriam no cânon e quais seriam retirados dali, e no final decidiram deixar os quatro evangelhos que conhecemos hoje, e arrancado do cânon os que eles não gostaram. Isso é completamente ridículo, não possui nenhuma fonte séria de apoio e é impressionante como é perpetuado por pessoas ingênuas que ao invés de estudar a história cristã preferem crer em mitos populares e em teorias da conspiração.

Não, não houve concílio que “escolheu” os quatro evangelhos, nem que “retirou” os outros (os apócrifos), isso porque desde sempre os cristãos aceitaram os quatro evangelhos e nunca houve um momento em que qualquer cristão tenha crido mesmo que por um segundo que algum evangelho apócrifo fosse verdadeiro. Já mencionamos aqui como Clemente, no final do primeiro século, cita Mateus, Marcos e Lucas em sua carta aos coríntios, e como Inácio e Policarpo (da mesma época) citaram todos os quatro: Mateus, Marcos, Lucas e João. Irineu, anos mais tarde, citaria os quatro como autoridade de fé em sua obra “Contra as Heresias”.

Por que eles não fizeram qualquer menção aos evangelhos apócrifos?

Simples: porque não existia nenhum. Todos os evangelhos apócrifos que conhecemos começaram a ser escritos a partir da segunda metade do segundo século d.C, e neste ponto é necessário explicarmos brevemente como eles surgiram. Se o leitor fizer uma pesquisa rápida sobre cada um deles, verá que quase todos foram escritos por gnósticos. Quem eram os gnósticos? Os gnósticos eram falsos cristãos que queriam ostentar este rótulo, mas que não criam em nenhuma das doutrinas fundamentais do Cristianismo (por exemplo, eles não criam que Jesus veio em carne, nem que existe ressurreição).

A doutrina gnóstica como um todo é extremamente complexa e quem estiver interessado em saber mais sobre ela eu recomendo a leitura da obra “Contra as Heresias”, de Irineu de Lyon (130-202 d.C), um cristão do segundo século que já tinha que defender a fé cristã dos ataques deles. Mas as primeiras formas de gnosticismo surgiram desde cedo, pois vemos o apóstolo Paulo escrevendo contra “aquilo que é falsamente chamado ‘conhecimento’ [gnosticismo][19] (1Tm.6:20), e as três epístolas de João são quase inteiramente feitas para refutar esta heresia, onde João os chama de “anticristos” por negarem que Jesus veio em carne (2Jo.1:7).

Os gnósticos do segundo século d.C tiveram então que conviver com este difícil problema: embora quisessem ser chamados “cristãos” e se infiltrar em meio a eles, as epístolas dos apóstolos e os evangelhos dos cristãos claramente repudiavam as suas doutrinas. O que fazer? Foi aí que tiveram a ideia de criarem eles mesmos seus próprios “evangelhos”, em nome dos apóstolos de Jesus, para competir com os evangelhos legítimos dos cristãos[20]. Escrevendo obras tardias e falsamente as atribuindo aos discípulos de Jesus, eles pensaram com isso estar justificando suas próprias crenças e “provando” que os apóstolos criam nas doutrinas inventadas por eles.

Foi assim que eles quiseram competir com os cristãos da época, que já obedeciam há muito tempo as Escrituras cristãs. Se um cristão citava o Evangelho de Mateus (legítimo) para combater uma doutrina herética dos gnósticos, eles contra-atacavam citando a obra recente e farsante do “Evangelho de Tomé”, que contêm suas doutrinas. Isso não deu muito certo, pois até hoje não existe relato histórico de um único cristão importante nos primeiros séculos, dentre os inúmeros Pais da Igreja que já existiram, que tenha dado qualquer valor a estes apócrifos. Eles desde sempre identificaram estas obras como sendo apócrifas (falsas) e continuaram crendo nos quatro evangelhos que os cristãos sempre creram.

Os concílios que vieram mais tarde apenas confirmaram isso, eles reiteraram aquilo que já era universalmente aceito, não inventaram nem mudaram nada. Qualquer um que leia as obras dos cristãos que sucederam os apóstolos no final do primeiro século e no segundo pode conferir facilmente que eles já aceitavam quatro, e somente quatro evangelhos. Os apócrifos nunca foram um problema para os cristãos, e este assunto só passou a ser “polêmico” depois que desinformados e teóricos da conspiração no século passado começaram a procurar desesperadamente por qualquer informação que colocasse o Cristianismo em perigo. Uma tentativa inútil para quem tem algum conhecimento, mas que é suficiente para enganar mentes fracas e desprevenidas, como um lobo que ataca uma ovelha indefesa.

Mas Dawkins supera todos os níveis de ignorância conhecidos pelo homem ao dizer o seguinte:

“É até possível montar uma argumentação histórica séria, embora ela não conte com apoio total, para defender que Jesus nem chegou a existir, como já fez, entre outras pessoas, o professor G. A. Wells, da Universidade de Londres, em vários livros, como Did Jesus exist? Embora Jesus provavelmente tenha existido, acadêmicos bíblicos respeitados em geral não acreditam que o Novo Testamento (e, obviamente, tampouco o Antigo Testamento) seja um registro confiável do que realmente aconteceu na história, e já não considerarei mais a Bíblia evidência da existência de qualquer tipo de divindade”

Esta é provavelmente a parte mais engraçada do livro, onde Dawkins desacredita em seu próprio argumento! Se nos pontos anteriores, onde Dawkins afirmava certas coisas tão categoricamente e mesmo assim uma análise mais meticulosa dos fatos nos mostrava o contrário, imagine neste ponto onde ele argumenta algo que nem ele mesmo crê! Para algum ataque ao Cristianismo ser tão fraco ao ponto do próprio Dawkins, um dos maiores inimigos da fé cristã, dizer que o argumento é “provavelmente falso”, o leitor já deve ter ideia de como o argumento é realmente miseravelmente ruim.

Se nem os neo-ateus dão apoio total à tese de que Jesus nunca existiu, só podemos concluir que esta tese é tão podre que não conta com o apoio nem daqueles que estão mais inclinados a engolir incondicionalmente qualquer ataque à fé cristã como sendo verdadeiro, e muito menos convenceria um cristão, que não tem a tendência de aceitar fácil qualquer ataque à fé. A verdadeira razão para a qual nem o próprio Dawkins ache que Jesus não existiu é porque isso só passou a ser questionado seriamente a partir de meados do século XX, sendo tal tese sustentada somente pelos ateus mais doentes e fanáticos nas últimas décadas – um nível de fanatismo e cegueira tão alto que não convence nem o próprio Dawkins.

A própria Enciclopédia britânica emprega vinte mil palavras para descrever a pessoa de Jesus. Essa descrição supera em larga medida a dedicada a Aristóteles, Buda, Júlio César, Alexandre o Grande, Maomé ou Napoleão. Após analisar as múltiplas fontes independentes que atestam a historicidade de Jesus, ela registra:

“Esses relatos independentes comprovam que nos tempos antigos até mesmo os adversários do Cristianismo jamais duvidaram da historicidade de Jesus, a qual, pela primeira vez e em bases inadequadas, veio a ser questionada por vários autores do fim do século dezoito, do século dezenove e do início do século vinte"

O espaço não permite aqui uma análise extensa do tema, que já foi abordado com profundidade em meu outro livro (As Provas da Existência de Deus), mas basta dizer que nos primeiros séculos até os não-cristãos atestavam a existência de Jesus e dos cristãos, de modo que podemos provar a existência histórica de Jesus Cristo mesmo sem citar nenhuma fonte cristã da época! Alguns que afirmaram a existência de Cristo foram:


Flávio Josefo (37-100 d.C)

Naquela época vivia Jesus, homem sábio, de excelente conduta e virtude reconhecida. Muitos judeus e homens de outras nações converteram-se em seus discípulos. Pilatos ordenou que fosse crucificado e morto, mas aqueles que foram seus discípulos não voltaram atrás e afirmaram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação: estava vivo. Talvez ele fosse o Messias sobre o qual os profetas anunciaram coisas maravilhosas”[21]

“Mas o jovem Anano, que, como já dissemos, assumia a função de sumo-sacerdote, era uma pessoa de grande coragem e excepcional ousadia; era seguidor do partido dos saduceus, os quais, como já demonstramos, eram rígidos no julgamento de todos os judeus. Com esse temperamento, Anano concluiu que o momento lhe oferecia uma boa oportunidade, pois Festo havia morrido, e Albino ainda estava a caminho. Assim, reuniu um conselho de juízes, perante o qual trouxe Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, junto com alguns outros, e, tendo-os acusado de infração à lei, entregou-os para serem apedrejados”[22]


Tácito (55-120 d.C)

“Para destruir o boato (que o acusava do incêndio de Roma), Nero supôs culpados e infringiu tormentos requintadíssimos àqueles cujas abominações os faziam detestar, e a quem a multidão chamava cristãos. Este nome lhes vem de Cristo, que, sob o principado de Tibério, o procurador Pôncio Pilatos entregara ao suplício. Reprimida incontinenti, essa detestável superstição repontava de novo, não mais somente na Judeia, onde nascera o mal, mas anda em Roma, pra onde tudo quanto há de horroroso e de vergonhoso no mundo aflui e acha numerosa clientela”[23]


Luciano de Samosata (125-181 d.C)

“Foi então que ele [Proteus] conheceu a maravilhosa doutrina dos cristãos, associando-se a seus sacerdotes e escribas na Palestina. (...) E o consideraram como protetor e o tiveram como legislador, logo abaixo do outro [legislador], aquele que eles ainda adoram, o homem que foi crucificado na Palestina por dar origem a este culto (...) Os pobres infelizes estão totalmente convencidos que eles serão imortais e terão a vida eterna, desta forma eles desprezam a morte e voluntariamente se dão ao aprisionamento; a maior parte deles. Além disso, seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos, uma que vez que eles haviam transgredido, negando os deuses gregos, e adoram o sofista crucificado vivendo sob suas leis[24]

Os cristãos, vocês sabem, adoram um homem neste dia – a distinta personagem que lhes apresentou suas cerimônias, e foi crucificado por esta razão[25]


Plínio, o Jovem (61-114 d.C)

“É meu costume, meu senhor, referir a ti tudo aquilo acerca do qual tenho dúvidas... Nunca presenciei a julgamento contra os cristãos... Eles admitem que toda sua culpa ou erro consiste nisso: que se reúnem num dia marcado antes da alvorada, para cantar hino a Cristo como Deus... Parecia-me um caso sobre o qual devo te consultar, sobretudo pelo número dos acusados... De fato, muitos de toda idade, condição e sexo, são chamados em juízo e o serão. O contágio desta superstição invadiu não somente as cidades, mas também o interior; parece-me que ainda se possa fazer alguma coisa para parar e corrigir”[26]


Imperador Trajano (53-117 d.C)

“Nenhuma pesquisa deve ser feita por essas pessoas, quando são denunciados e culpados devem ser punidos, com a restrição, porém, que quando o partido nega-se a ser um cristão, e deve dar provas de que ele não é (que é adorando nossos deuses), ele será absolvido no chão de arrependimento, embora ele possa ter anteriormente efetuadas suspeitas”[27]

“No exame de denúncias contra feitos cristãos, querido Plínio, tomaste o caminho acertado. Não cabe formular regra dura e inflexível, de aplicação universal. Não se pesquise. Mas se surgirem outras denúncias que procedam, aplique-se o castigo, com essa ressalva de que se alguém negar ser cristão e, mediante a adoração dos deuses, demonstrar não o ser atualmente, deve ser perdoado em recompensa de sua emenda, por muito que o acusem suspeitas relativas ao passado. Não merecem atenção panfletos anônimos em causa alguma; além do dever de evitarem-se antecedentes iníquos, panfletos anônimos não condizem absolutamente com os nossos tempos”[28]


Suetônio (69-141 d.C)

“O Imperador Cláudio expulsou de Roma os Judeus que viviam em contínuas desavenças por causa de um certo Cresto[29][30]

Os cristãos, espécie de gente dada a uma superstição nova e perigosa, foram destinados ao suplício”[31]

“Nero infligiu castigo aos cristãos, um grupo de pessoas dadas a uma superstição nova e maléfica”[32]


Mara Bar-Serapião (73 d.C)

“Que vantagens os atenienses obtiveram em condenar Sócrates à morte? Fome e peste lhes sobrevieram como castigo pelo crime que cometeram. Que vantagem os habitantes de Samos obtiveram ao pôr fogo em Pitágoras? Logo depois sua terra ficou coberta de areia. E que vantagem os judeus obtiveram com a execução de seu sábio Rei? Foi logo após esse acontecimento que o reino dos judeus foi aniquilado[33][34]

  
Talmude (Século I d.C)

Na véspera da páscoa, eles penduraram Yeshua [Jesus] de Nazaré, sendo que o arauto esteve diante dele por quarenta dias anunciando (Yeshua de Nazaré) vai ser apedrejado por ter praticado feitiçaria e iludido e desencaminhado o povo de Israel. Todos os que sabiam alguma coisa em sua defesa vieram e suplicaram por ele. Mas nada encontraram em sua defesa e ele foi pendurado à véspera da páscoa”[35]

“Mestre, tu deves ter ouvido uma palavra de minuth (heresia); essa palavra deu-te prazer, e foi por isso que foste preso. Ele (Eliezer) respondeu: Akiba, tu fizeste-me recordar o que se passou. Um dia que eu percorria o mercado de Séforis, encontrei lá um dos discípulos de Jesus de Nazaré; Tiago de Kefar Sehanya era o seu nome. Ele disse-me: está escrito na vossa lei (Deuteronômio 23.18): Não trarás salário de prostituição nem preço de sodomita à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto. Que fazer dele? Será permitido usá-lo para construir uma latrina para o Sumo Sacerdote? E eu não respondi nada. Disse-me ele: Jesus de Nazaré ensinou-me isto: o que vem de uma prostituta, volte à prostituta; o que vem de um lugar de imundícies, volte ao lugar de imundícies. Esta palavra agradou-me, e foi por tê-la elogiado que fui preso como Minuth (herege)”[36]


Rei Abgar V (4 a.C – 50 d.C)

“Abgar, toparca da cidade de Edessa, a Jesus Cristo, o excelente médico que surgiu em Jerusalém, salve! Ouvi falar de ti e das curas que realizas sem remédios. Contam efetivamente que fazes os cegos ver, os coxos andar, que purificas os leprosos, expulsas os demônios e os espíritos imundos, curas os oprimidos por longas doenças e ressuscitas os mortos. Tendo ouvido falar de ti tudo isso, veio-me a convicção de duas coisas: ou que és Filho daquele Deus que realiza estas coisas, ou que és o próprio Deus. Por isso escrevi-te pedindo que venhas a mim e me cures da doença que me aflige e venhas morar junto a mim. Com efeito, ouvi dizer que os judeus murmuram contra ti e te querem fazer mal. Minha cidade é muito pequena, é verdade, mas honrada e bastará aos dois para nela vivermos em paz”[37]

Isso tudo sem mencionar as declarações de Talo e Flêgão sobre o eclipse que ocorreu na hora da crucificação de Cristo, ou Celso em sua discussão com Orígenes, ou o ossuário de Tiago, o irmão de Jesus, que foi comprovado verdadeiro em julgamento. Tudo isso é abordado com mais detalhes em meu outro livro, e aqui eu não estou considerando nenhuma fonte cristã da época (como a Bíblia ou os Pais da Igreja), o que elevaria o número enormemente, uma vez que quase todas as fontes que possuímos dos personagens da antiguidade são de seguidores (Sócrates, por exemplo, possui poucas referências antigas além de Platão, Aristóteles e outros seguidores de sua filosofia).

A situação fica ainda mais crítica para os neo-ateus quando comparamos as fontes que atestam a historicidade de Cristo com as que atestam a historicidade de outros personagens antigos que são aceitos totalmente pelos neo-ateus, que não colocam objeções à sua historicidade. Alexandre, o Grande, só possui registros que datam de 300 a 500 anos após sua morte, e mesmo assim os ateus creem fielmente que Alexandre existiu, embora nem todos creiam que Jesus – excepcionalmente mais citado que Alexandre – tenha existido.

Ou nada melhor que compararmos Jesus com o imperador romano da época, Tibério César. Enquanto temos no mínimo 15 fontes não-cristãs de conhecidos escritores mencionando Jesus em um período de até 150 anos depois de sua morte, para Tibério temos apenas nove fontes não-cristãs que abrangem essa mesma época! Se contássemos as fontes cristãs desta mesma época, os que mencionam Jesus superam de goleada os que mencionam Tibério, em uma proporção de 43 para 9! Mas é claro que os neo-ateus dão total credibilidade à historicidade de Tibério, enquanto questionam a existência de Jesus.

Possuímos muito mais provas da existência de Jesus do que temos de Sócrates, Pitágoras, Platão, Aristóteles, Alexandre, Tibério ou praticamente todos os grandes nomes da época, mas os ateus não pensam duas vezes na hora de crer na existência dos outros, e de questionarem a existência de Jesus. Infelizmente alguns pensam que a confirmação histórica de um personagem é simples, quando não é. Nem todos da época sabiam escrever (muitos eram analfabetos), e a possibilidade de um escrito da época se preservar até hoje é difícil – tal coisa só aconteceu com os mais notórios e famosos escritores da época, e muitos deles tiveram muitos manuscritos perdidos com o tempo.

Nós só temos uma única cópia de Tácito, e se esta uma única cópia não tivesse se preservado ninguém teria nada para falar sobre ele, e logicamente não saberíamos que ele falou de Jesus em seus escritos. E ele pode ter falado muito mais em outros escritos, que nós não temos acesso porque se perderam com o tempo. Até mesmo do famoso Platão, nada mais temos senão sete cópias de seus escritos. Ele certamente escreveu muito mais, mas a maior parte se perdeu, e se não fosse essas sete preservadas nós não teríamos quase nada a falar sobre Platão. E mesmo com a enorme dificuldade de uma cópia antiga se preservar em longo prazo, nós temos dezenas de evidências da existência de Jesus, muito mais do que possuímos dos personagens antigos que os ateus acreditam terem mesmo existido.

Em síntese, tudo o que Dawkins faz em seus ataques à Escritura é reafirmar argumentos antigos – e ultrapassados – contra a Bíblia, alguns dos quais nem ele mesmo acredita, e outros que ele sequer sente segurança em afirmar como sendo assim, preferindo dizer que alguns “teólogos acadêmicos” creem deste jeito, ou citar um ou outro nome isolado (como o de Ehrman) para dizer aquilo que ele mesmo não é capaz de afirmar por conta própria, por não ter um mínimo de conhecimento teológico que seria necessário para sustentar tais alegações como sendo verdadeiras ou falsas.

Dawkins cita em seu favor os “teólogos” A. N. Wilson e Robin Lane Fox, que são tão inexpressivos que ninguém da comunidade teológica os leva a sério. Como Robertson assinala, “usar Free Inquiry, A. N. Wilson e Robin Lane Fox como suas fontes sobre material bíblico é como me sugerir que aqueles que querem descobrir acerca da evolução devem apenas ir ao website Answers in Genesis[38][39]. Wilson e Fox representam uma minoria insignificante e tendenciosa de teólogos, que para nós tem tanta relevância quanto o Answers in Genesis tem para os evolucionistas, mas Dawkins os cita como fossem os supra-sumo da teologia, como se fossem os teólogos mais sérios e qualificados, apenas porque concordam com a sua opinião infundada.

Mesmo sem conhecimento de causa, Dawkins prefere se lançar no vazio e crer (pela fé) que estes argumentos vão colar bem para os seus leitores. E, se não colar, a culpa não é dele: é dos “teólogos acadêmicos”, é de Bart Ehrman, é do tal de Robert Gillooly que ninguém conhece, é do “famoso” professor G. A. Wells que descrê na existência de Jesus e que não é acreditado nem pelo próprio Dawkins. É de se impressionar que isto seja considerado o melhor que os ateus são capazes de fazer.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[2] ibid.
[3] Colin Hemer, The Book o/ Acts in the Setting o/ Hellenistic History (Winona Lake, Ind.:
Eisenbrauns,1990).
[4] Roman Society and Roman Law in the New Testament. Oxford: Clarendon, 1963, p. 189.
[5] St. Paul the Travellerand the Roman Citizen. New York: Putnam, 1896, p. 8.
[6] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[7] O quadro abaixo foi elaborado por Geisler e Turek no livro acima mencionado.
[8] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[9] Marcelo Berti. O que Ehrman disse? O que Ehrman não disse? Disponível em: http://vimeo.com/9831765
[10] D. Diehl, Res gestae Divini Augusti. Das Monumentum Ancyranum. Kleine Texte für theologische und philologische Vorlesungen und Hebungen (H. Lietzmann). BonnXXIXs 1918, 10-13.
[11] Ver também: Tito Lívio, Epístola 137; Tácito, Anais 1, 31, 33.
[12] Na verdade, leis estúpidas e estranhas existem até hoje. A Lei Municipal 1840/95 (Barra do Garças, MT) de 5 de setembro de 1995 criou um aeroporto alienígena como reserva para pouso de OVNIs. O leitor pode ver outras leis “estranhas” aqui: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quais-sao-as-leis-mais-estranhas-do-brasil
[14] Contra Marcião, Livro IV, 7.
[17] Concordância de Strong, 1805.
[18] Mateus quis resumir a genealogia de modo a dar 14 gerações de Abraão até Davi, de Davi até a deportação para a Babilônia e da deportação para Jesus (Mt.1:17). Lucas, por outro lado, preferiu elaborar uma lista mais completa, que remetesse desde Adão até Jesus.
[19] “Gnose” (de onde vem o termo “gnósticos”) significa “conhecimento”.
[20] Algumas das doutrinas inventadas pelos gnósticos e escritas em seus livros a partir do século II d.C são: (1) Jesus era “casado” ou “teve um caso” com Maria Madalena; (2) Não existe ressurreição física dos mortos; (3) Jesus não veio em carne, mas era um espírito; (4) A salvação não é através da fé em Jesus Cristo, mas por meio do conhecimento; (5) O Deus do AT não é o mesmo Deus do NT; (6) A natureza humana é dualista (criam em um espírito ou alma imortal que supostamente habita no corpo humano de cada um de nós). O mais impressionante é que as doutrinas gnósticas, ou boa parte delas, continuam sendo cridas por parte dos que se dizem cristãos, que ainda mordem a isca lançada pelos gnósticos no século II. Teorias da conspiração, crendices baseadas em apócrifos escritos mais de um século depois da morte de Cristo e doutrinas pseudo-bíblicas ainda são vez por outra ensinadas nas igrejas ou aceitas pelo povo em geral.
[21] Antiquites, VIII, III.
[22] Antiguidades, 20.9.1.
[23] Tácito, Anais , XV, 44 trad. 1 pg. 311; 3.
[24] Passagem do Peregrino, 11 e 13.
[25] A Morte do Peregrino, 11-13.
[26] Epístola X, 97.
[27] Plínio, o Jovem, L, 10:97.
[28] “Documentos da Igreja Cristã” (p.30).
[29] “Cresto” era um erro ortográfico comum do nome “Cristo”. Este acontecimento (da expulsão dos judeus de Roma por causa de Cristo) também foi narrado por Lucas no livro de Atos dos Apóstolos (At.18:2).
[30] A Vida dos Doze Césares.
[31] Suetônio, Vida dos doze Césares, n. 25, p. 256-257.
[32] ibid.
[33] O acréscimo que diz que “logo depois deste acontecimento o reino dos judeus foi aniquilado” não deixa dúvidas em torno da questão do “sábio Rei” ser Jesus, pois de fato poucos anos após a morte de Cristo os judeus foram destruídos pelos romanos, em 70 d.C, e não há qualquer outro registro histórico de algum outro importante judeu que tenha sido considerado “rei” e que tenha sido executado próximo a 70 d.C – além de Jesus.
[34] Em um carta escrita a seu filho, que está guardada no Museu Britânico.
[35] Sinédrio da Babilônia, 43ª.
[36] Sanhedrim 43ª.
[37] GHARIB, Os Ícones de Cristo, p. 43.
[38] Answers in Genesis é o maior website criacionista nos Estados Unidos.
[39] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 5.

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