quinta-feira, 2 de abril de 2015

Teorias fracassadas sobre a origem e desenvolvimento da religião


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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O neo-ateu comum se vê em um dilema: por um lado, o ser humano é a espécie mais evoluída, em disparado, em relação a todas as outras espécies do planeta. Por outro, o ser humano é a única espécie que majoritariamente sempre creu e adorou a Deus ou deuses, e se organizou em formas diferentes de religião. Isso a princípio não seria problema, a não ser pelo fato de os neo-ateus verem a crença em Deus como algo infantil e sinônimo de atraso e involução, ao invés de evolução. O ser humano teria evoluído mais que todos os outros animais e então teria caminhado por um rumo mais atrasado e involuído que todos eles. Isso não é apenas um paradoxo ateísta, mas um verdadeiro e gritante contrasenso.

Para resolverem este problemático dilema, em que os ateus se vêem na difícil missão de conciliar a evolução das espécies com o Homo sapiens em seu grau mais elevado de evolução, e junto com isso a missão de zombar e infantilizar a crença em Deus que é característica da esmagadora maioria desta espécie mais evoluída – e somente desta espécie mais evoluída –, os ateus começaram a apelar para as teses mais alucinantes e mirabolantes para o surgimento da religião, ao ponto de o próprio Dawkins passar um capítulo inteiro discorrendo sobre isso sem chegar a nenhuma conclusão satisfatória.

Um dos mais famosos argumentos ateístas sobre a religião é o argumento marxista, segundo o qual a religião é criada para a dominação social dos fortes sobre os fracos. Como todo e qualquer argumento marxista, ele só poderia ser tolo, superficial e facilmente refutável. Segundo essa visão, os líderes não acreditavam realmente que a religião que defendessem fosse verdadeira, mas eles a inventaram assim mesmo, para poderem se aproveitar dos leigos em cima disso. Marx demonstrou com isso não ser apenas um poço de ignorância na política, mas também na religião. Como Peter Kreeft discorre:

“Porque os apóstolos mentiriam? Se eles mentiram, qual foi sua motivação, o que eles obtiveram com isso? O que eles ganharam com tudo isso foi incompreensão, rejeição, perseguição, tortura e martírio. Que bela lista de prêmios!”[1]

De fato, historicamente falando, todos os apóstolos, com exceção de Judas (que suicidou-se), morreram martirizados, ou seja, foram mortos em função de sua fé. Eles preferiram morrer – muitas vezes de forma dolorosa e cruel – do que negar sua fé em Cristo. Eles poderiam ter tranquilamente negado a fé e saírem livres, mas preferiram viver uma vida humilde na terra, cheia de perseguições por todos os lados, e terminar com a expressão máxima da negação do “eu”. Geisler e Turek corretamente assinalam que “pessoas mal orientadas podem morrer por uma mentira que elas consideram ser verdade, mas não vão morrer por uma mentira que sabem que é uma mentira. Os autores do NT estavam em posição de saber a verdade real sobre a ressurreição”[2].

A ironia fica maior ainda quando vemos que os maiores genocidas da história da humanidade foram ateus: Stalin, Hitler, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Lenin, Fidel Castro, Mussolini, etc. Eles não criam em Deus, não obedeciam uma religião nem reconheciam autoridades religiosas acima deles, mas isso nunca os impediu de trucidar qualquer um que vissem pela frente. Em outras palavras, o que o neo-ateu marxista quer nos convencer através deste argumento medíocre é que os líderes religiosos cristãos, como Pedro e Paulo, que foram perseguidos a vida inteira e sofreram o martírio, eram “opressores”, mas os verdadeiros genocidas, aqueles caras que nós realmente podemos chamar de “dominadores” – e ateus – eram pessoas “livres da dominação e opressão da religião”! Se você ainda acredita neste argumento marxista contra a religião, suicide-se. Não há solução pra você.

O segundo típico argumento ateísta é de que a religião foi criada por necessidade, e não por dominação. Para os adeptos desta corrente, as pessoas que creem em Deus só decidem crer nele e seguir alguma religião formal porque são iludidas pela fantasia de uma vida eterna. Quem não quer “viver para sempre”? Todos querem. Então as pessoas começam a criar mitos que as iludam e que as façam pensar que realmente existe uma vida eterna em algum lugar e que vale a pena seguir uma religião para possuí-la. Em outras palavras, as pessoas “fracas” creem em Deus porque precisam crer nele por algo maior, mas os “fortes” já são maduros o suficiente para ter consciência de que isso não passa de uma ilusão (um delírio) e não precisam mais de Deus – e estes “fortes” são os ateus, logicamente!

O problema com o “argumento da necessidade” é duplo. Em primeiro lugar, ele é uma falácia genética. Ele não nos diz nada sobre a existência ou inexistência de Deus, ele apenas explicaria por que tanta gente decide crer em Deus mesmo sem que ele exista. Perceba como que o “argumento” não prova a inexistência de Deus; ao contrário, ele toma a inexistência de Deus como uma verdade a priori e segue por esta linha. Em outras palavras, a falácia genética, ao invés de responder à pergunta: “Por que Deus não existe?”, tenta responder a pergunta: “Já que Deus não existe, então por que as pessoas acreditam nele?”. Não é uma evidência da inexistência de Deus e nem uma refutação dos argumentos teístas, mas somente uma falácia genética, tal como Craig explicou em seu debate com Peter Atkins[3]:

Atkins – No outro lado do argumento, estão as razões porque as pessoas acreditam em Deus. Eu posso entender porque as pessoas creem em Deus. É um senso de estar sozinho, é um senso de perplexidade...

Craig – Eu não vejo desta forma. Como isso não comete a falácia genética de tentar dizer que, explicando como uma crença foi originada, você, dessa forma, prova que a crença é falsa? Mesmo se fosse verdade que a crença na existência de Deus fosse o produto de medo e ansiedade e assim por diante (o que eu não admito), isso seria uma falácia genética, que é dizer que, porque é assim que a crença se originou, então a crença é falsa.

E mesmo que houvesse pessoas que creem em Deus por necessidade, por quererem uma vida eterna, isso não significa que todos creiam em Deus por esta razão, e muito menos significa que “Deus não existe” porque há pessoas que só creem por necessidade! Isso seria o mesmo que eu dissesse que “há ufólogos que só creem em extraterrestres porque querem que extraterrestres existam”. Isso é verdade? Sim. Mas isso prova que extraterrestres não existem? Lógico que não. Nem sequer é uma evidência disso!

Em segundo lugar, o fato de muitas pessoas sentirem “necessidade” por Deus deveria ser encarado de forma negativa? Para os neo-ateus, sim. Mas não precisamos ver a questão por este ângulo. Há milhares de coisas que nós temos necessidade e que de fato existem. Por exemplo, eu tenho necessidade de água, e essa água existe para suprir a minha necessidade dela. Por que, então, nós teríamos “necessidade” de Deus, mas este Deus necessariamente não existiria? Ninguém falou melhor sobre isso do que C. S. Lewis quando disse:

“As criaturas não nascem com desejos a menos que a satisfação para tais desejos exista. Um bebê sente fome: bem, há algo como a comida. Um patinho quer nadar: bem, há algo como a água. Os homens sentem desejo sexual: bem, há algo como o sexo. Se descubro em mim mesmo um desejo que experiência alguma neste mundo pode satisfazer, a explanação mais provável é que fui feito para um outro mundo”[4]

Afirmar que os teístas só creem em Deus porque desejam que Deus exista é semelhante a afirmar que os neo-ateus só não creem em Deus porque desejam que ele não exista, e desta forma possam viver suas vidas da forma que bem entenderem, ao invés de ter que seguir certos padrões morais extraídos da Escritura e da moral judaico-cristã. De fato, muitos ateus são ateus por causa disso – para se verem livres de qualquer responsabilidade. Eles desejam que Deus não exista, e por isso creem que Deus não existe. Mas nem o primeiro caso (do teísta que deseja que Deus exista) prova que Deus não existe, nem o segundo caso (do ateu que deseja que Deus não exista) prova que Deus existe. São falácias genéticas e, como tais, devem ser descartadas da discussão inteligente e séria.

Há também um terceiro argumento, muito típico dos neo-ateus, que funciona basicamente da seguinte maneira:

Neo-ateu toddynho – Você só é cristão porque nasceu em um país cristão e foi criado por pais cristãos! Se tivesse nascido no Oriente Médio seria muçulmano! Se tivesse nascido na Índia seria hindu! Se tivesse nascido em Israel seria judeu! Rá, te peguei!!! Onde está o teu deus agora???

O próprio Dawkins, apesar de não ter usado este argumento em seu livro, já o utilizou diversas vezes em suas palestras[5]. Novamente, a falácia genética entra em cena. Se eu te dissesse que “você só é corinthiano porque os seus pais são corinthianos!”, isso provaria a inexistência do time do Corinthians? Infelizmente, não. Mas os neo-ateus pensam que se alguém diz que “você só é cristão porque seus pais são cristãos!”, o Cristianismo está refutado e Deus não existe!

Richard Bushey também destacou:

“Esta frase parece ser algo do tipo, ‘se tu tivesses nascido na China, muito provavelmente serias comunista’, ou ‘se tivesses nascido na União Soviética, serias um ateu’. E depois? A forma como as pessoas passaram a ter uma crença não nos diz nada sobre a veracidade dessa mesma crença. Eu posso aprender que a Terra é redonda num livro para crianças, mas esse livro pode não ser uma forma óptima para se obter conhecimento científico. Mas mesmo assim, a minha crença de que a Terra é redonda é válida. Com este argumento, Dawkins dá um exemplo clássico da falácia genética; ele tenta demonstrar a origem duma crença, e com isso ‘prova’ que essa crença é falsa”[6]

Dizer que “a única razão de você acreditar no Cristianismo é por ter sido criado em um país cristão; portanto, o Cristianismo é falso” é equivalente a afirmar que “a única razão de você acreditar na democracia é por ter sido criado em um país democrático; portanto, sua visão de que a democracia é a melhor forma de governo é falsa”.

NEO-ATEU
ANTI-DEMOCRATA
“A única razão de você acreditar no Cristianismo é por ter sido criado em um país cristão; portanto, o Cristianismo é falso”
“A única razão de você acreditar na democracia é por ter sido criado em um país democrático; portanto, sua visão de que a democracia é a melhor forma de governo é falsa”

No entanto, isso não prova que a democracia é “falsa” ou que não seja a melhor de todas as opções a ser seguida, apenas mostra, no máximo, que nós temos uma tendência maior a sermos democratas quando vivemos em países democráticos – mas não refuta a existência ou natureza da democracia. Ou, então, o que você pensaria de alguém que te dissesse que “você só apoia a República porque vive no século XXI, mas se vivesse no século XVIII apoiaria a Monarquia”? Isso não nos diz que a República não é melhor que a Monarquia, apenas mostra que podemos ter mais tendência a sermos republicanos por estarmos no século XXI.

Mais uma vez, essa falácia não tem absolutamente nada a dizer a respeito da veracidade ou não do Cristianismo, ou acerca da existência ou inexistência de Deus. No máximo ela pode explicar o porquê que a maioria de nós somos cristãos em um país cristão, e o porquê que a maioria das pessoas que vivem em países oficialmente ateus são ateus (grande coisa!). Cabe ressaltar que, em função da evangelização e globalização, está cada vez mais comum que alguém que vive em um “país cristão” (no sentido de ser historicamente majoritariamente cristão) não seja cristão, assim como está cada vez mais comum que alguém que não vive em um “país cristão” seja cristão. Dois dos maiores apologistas cristãos da atualidade, Dinesh D’Souza e Ravi Zacharias, nasceram na Índia. E Dawkins é britânico, onde existe até religião oficial do Estado[7]!


A teoria memética de Dawkins

Em seu livro, Dawkins menciona de passagem essas argumentações ateístas sobre a religião e diz que nenhuma delas é suficientemente satisfatória. Que surpresa. Então ele cria uma teoria alternativa, baseada no conceito memético que ele criou em seu livro “O Gene Egoísta” (1976). O problema é que nem mesmo o próprio conceito de “meme” é bem aceito na comunidade científica. São muitos os cientistas que o tem caracterizado como uma “pseudociência” (curiosamente, o mesmo termo que aplicam ao criacionismo que Dawkins tanto detesta!). O biólogo e especialista em neurobiologia Steven Rose declarou em seu livro “Não em Nossos Genes” que o conceito memético de Dawkins é reducionista e conduz ao determinismo biológico – o qual Dawkins paradoxalmente sempre está tentando evitar em seus debates.

Dawkins parte de um princípio que é visto com desconfiança pela comunidade científica, e em cima deste princípio duvidoso ele cria um outro princípio, que na verdade é a aplicação deste conceito no que diz respeito à religião – já dá para perceber que não há embasamento científico consistente. A argumentação de Dawkins neste ponto foi tão fraca que até mesmo o famoso evolucionista brasileiro Marcus Valério, agnóstico, declarou que ficou “decepcionado pela falta de uma teoria memética mais forte”[8].

Dawkins bate forte na tecla de que a religião é uma espécie de vírus que vai sendo transmitido pelos memes da espécie humana – um “vírus” que, paradoxalmente, levou milhões de pessoas a comportamentos morais mais altruístas e sociais em relação ao próximo do que o ateísmo jamais foi capaz de fazer. E, mais paradoxalmente ainda, aqueles que não tinham esse “vírus” (ditadores ateus que nós já conhecemos bem) assassinaram muito mais gente em um século do que os religiosos “com o vírus” já mataram em vinte séculos – isso sem falar da enorme desproporção entre a população teísta e ateísta. Os ateus estão em bem menor número, mas mataram muito mais gente.

Mesmo assim, é importante para Dawkins manter de pé seu conceito de que “religião é um vírus”, o que transmite uma noção de insanidade mental a bilhões de pessoas no mundo que são religiosas, sendo que somente os ateus estão “sãos”, curados e totalmente imunes a este “vírus”. É a velha tática do “ateus fortes; teístas fracos”, que é um merchandising ateísta que tem como única finalidade aumentar o ego do ateu, para que ele se veja como “superior” e “mais evoluído” do que os não-ateus. Ou, para ser mais claro, só serve para tirar neo-ateus “toddynho” do armário – que é o propósito maior da obra de Dawkins.

O conceito memético de Dawkins contra a religião é, além de tudo, autocontraditório, em especial em relação ao capítulo em que Dawkins ataca a religião como “a raiz de todos os males”. David Robertson acentua:

“E outra vez há uma incongruência no argumento ateísta que está sendo usado aqui. Por um lado, o senhor sustenta que os deuses são conceitos sociais das várias tribos/povos da humanidade. Por outro, afirma que a religião é a causa das várias cisões e rivalidades étnicas. O que é isso? Os povos inventam religiões para que possam guerrear uns contra os outros, ou a religião cria povos que, devido à religião deles, odiar-se-ão e combaterão um ao outro?”[9]

Nós não precisamos explanar mais as contradições de Dawkins neste ponto porque Alister McGrath, que além de teólogo é também pós-doutorado em biofísica, já fez um excelente trabalho a este respeito em “O Delírio de Dawkins”, refutando com mais profundidade os erros que Richard comete nesta parte de seu livro. Por hora, basta observar que Dawkins e demais neo-ateus em geral falham miseravelmente sempre quando tentam colocar o ateísmo como a “posição-padrão” dos seres humanos, e a crença em Deus como algo irracional ou fora da curva. A realidade mostra exatamente o contrário.

Por Cristo e por Seu Reino,

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


        




[1] Citado por Norman Geisler e Frank Turek em “Não tenho fé suficiente para ser ateu”.
[2] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[4] Citado por David Robertson em “Cartas para Dawkins”, Sétima Carta.
[7] Caso alguém não saiba, trata-se da Igreja Anglicana.
[9] David Robertson, Cartas para Dawkins, Terceira Carta.

2 comentários:

  1. Gostaria de saber sua opinião acerca do destino do incultos. Obrigado.

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    1. É a mesma que eu tenho a respeito dos povos não alcançados. Veja aqui:

      http://ateismorefutado.blogspot.com.br/2015/04/o-destino-dos-povos-nao-alcancados.html

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